Vídeo: Trailer "Entre Nós"
Com a 10ª Mostra Internacional de Filmes de Montanha se aproximando, cresce o interesse pelas produções que vão participar da mostra competitiva desse ano. E com certeza, uma das obras que deve ter um grande destaque nessa edição é o curta de animação “Entre Nós”, que conta a história da adolescente Luísa, durante o feriadão em que seu pai e parceiro de escalada, Aurélio, sofre um sério acidente, enquanto os dois escalavam uma grande montanha na serra. O experiente escalador despenca por centenas de metros, e some no meio da vegetação e da neblina. Longe de auxílio, sozinha e no meio de uma tempestade gelada, a menina precisará reunir todas as suas forças para escapar com vida.
A produção é assinada por Erick Grigorovski, o mesmo realizador do ótimo Uruca! Confiram o trailer!
Chega ao fim a participação brasileira no mundial juvenil de escalada
Chegou ao fim hoje, ainda na fase classificatória, a participação brasileira no mundial juvenil de escalada, realizado em Edimburgo na Escócia. Com vários desfalques no time que iria representar o país, incluindo o destaque do ano passado, Andreas Pauli e o “veterano” Felipe Camargo, o Brasil não conseguiu avançar em nenhuma categoria para a fase semi final.
Levando-se em consideração a realidade brasileira e as dificuldades para se montar uma seleção e treinar esse jovens talentos, pode-se dizer que toda a equipe está de parabéns e todos obtiveram um grande resultado. Mas do ponto de vista da competição, a maioria dos atletas brasileiros não foi bem.
Não tive a oportunidade de acompanhar a participação de todos os atletas, mas os que acompanhei pude notar que pareciam bastante nervosos, principalmente no primeiro dia da fase de classificação. A grande maioria dos brasileiros não escalou bem e terminou o primeiro dia bem baixo na classificação com pouquíssimas ou quase nenhuma chance de avançar.
Talvez o único que chegou realmente a lutar por uma vaga nas semis foi o paulista Rafael Takahace, de 14 anos, que tive a oportunidade de ver escalar nos dois dias. No primeiro dia, claramente nervoso, ele caiu ainda na primeira metade da via, num lance que com certeza não estava acima das suas capacidades. Avançou para o segundo dia na 51ª colocação, e com a segunda via claramente mais fácil que a primeira, se fizesse Top, provavelmente conseguiria a vaga entre os 26 primeiros.
Rafael escalou muito bem, com movimentação fluida e segura, fazendo bom uso dos descansos da via. Um lance dinâmico na primeira metade da via, mostrou como ele estava confiante e que seria difícil ele cair. No crux, quase no topo, ele se atrapalhou um pouco com a costura, e se desequilibrou. Uma pena, pois pela força que ele fez para continuar na via, mostrou que ainda estava inteiro, e provavelmente chegaria ao final. Essa foi a primeira participação de Rafael em um mundial, e apesar de não ter chegado às semis, confirmou a expectativa do treinador Anderson Gouveia, que o colocava como mais bem preparado da equipe.
A classificação final dos brasileiros foi a seguinte:
Juvenil A Feminino
54º – Mariana Gomes Aguilar
Juvenil B Feminino
60º – Brenda Ligia Schelbauer
Júnior Masculino
44º – Bruno Bitarelo Milani
57º – Gustavo Rodrigues Hachul
Juvenil A Masculino
51º – Caio Lopes da Silva
66º – Filipe Fernandes Ferreira
75º – Igor Ferreira Foscolo
Juvenil B Masculino
42º – Rafael Takahace Rodrigues
69º – Arthur Rates de Alvarenga
Apesar do final antecipado da participação, a equipe brasileira está de parabéns. As dificuldades para se preparar aqui no Brasil e ainda por cima conseguir ir para a Europa para competir são imensas, e esses garotos e garotas já são verdadeiros campeões de força de vontade. Ano que vem a maioria estará de volta e com certeza o resultado será bem melhor que esse ano!
De volta da Serra do Cipó!
Estou de volta da viagem de 5 dias escalando na Serra do Cipó, minha segunda visita à esse paraíso da escalada esportiva. Mais uma vez fui acompanhado do Daniel Mamede, e tivemos também a companhia do nosso amigo Júlio “Francês” Pimentel. Antes de mais nada, vou pedir desculpas pela falta de imagens no post, acabei não levando minha câmera, mas espero que isso não faça tanta falta.
Essa viagem foi bem diferente da anterior. Dessa vez só entrei em vias na faixa do sétimo grau e voltei com 3 cadenas: 2 7a’s (Rei do Torresmo e Bárbaros) e um 7b (Dr. Jack). Ou seja, escalei forte para o meu nível, tanto que dessa vez um dia de descanso foi necessário. Fora as vias encadenadas, entrei também em mais 2 7b’s (Cravo e a Rosa e O dia em que a terra parou), dois 7c’s (Ética decomposta e Virgulino), e até inventei de dar uns pegas num 8b (Queimando tudo).
Apesar de ter encadenado apenas 3 vias, gostei do resultado. Senti que realmente entrei na casa dos sétimos. Os 7a’s sairam relativamente fáceis. A Rei do Torresmo saiu de segunda, mas poderia ter saído em flash, se eu não tivesse “frangado”, segundo o Júlio. A Bárbaros, apesar de ter dado uns pegas na viagem passada, dessa vez também só precisou de duas entradas. A Dr. Jack só precisou de 3 pegas, o que pra mim foi a grande surpresa da viagem. Não esperava mandar um 7b tão fácil. Na Cravo e a Rosa eu dei um pega apenas, já no último dia, fui até o final, e senti que com talvez mais 2 pegas e um pouco mais descansado, ela também sairia. Já o pega na Ética Decomposta, me mostrou que um 7c daquele nível é realmente uma possibilidade real. Gostei muito desse pega, onde tentei escalar com fluidez e ritmo e só não passei mesmo do crux.
Mas acho que o melhor mesmo da viagem, dessa vez, foram as pessoas que eu conheci no Cipó. Cada uma passou alguma coisa. Com algumas escalei mais, com outras apenas conversei, mas realmente foi muito bom conhecer todas elas. Escalar com o Júlio durante 5 dias foi muito bom. Ele escala muito e é muito motivado pra escalar, e essa motivação acaba passando pra você, nem que seja por osmose. Foi irado escalar com o pessoal de Diamantina, Andrei e Tuchê, que são mais habituados aos boulders, mas mandaram muito bem nas vias, fraga?! Espero ter a oportunidade de escalar os boulder de Diamantina com eles qualquer dia.
Bater papo com o Tonto e a Fabíola, o Helton e Dani no abrigo. Ter a chance de conhecer o Barão e a Rafa, e ainda ver que o cara ficou pilhado com as fotos de Tejuçuoca! Rever o Magrão e a Taissa, anfitriões da minha primeira trip. Realmente muito bom!
Mas sem dúvida, as pessoas que eu mais gostei de conhecer nessa viagem foram o Sanzio e a esposa dele, Adailma, de Brasília. Sanzio tem 40 anos e escala há 7. Mas se você acha que ele se contenta com os sextos, fique sabendo que o cara escala nono grau! Conhecer ele serviu de amostra que começar tarde não significa não escalar forte, e me deu mais motivação pra continuar subindo o grau. Sem contar que o Sanzio é uma figura, bem humorado e muito tranquilo. Istriquinado definitivamente vai fazer parte do meu vocabulário agora! Mas acho que ele não estaria completo sem a Adailma ao lado. Ela não escala (tentou umas vias por lá), mas não vê problemas em ir com ele, carregar mochila nas costas, fazer segurança, e dar força pro marido. Um casal realmente fantástico, e que eu com certeza vou querer reencontrar quando estiver por Brasília!
Somando tudo isso, escalada, viagem e encontros com pessoas do Brasil inteiro, essa “trip” vai ficar na memória, e com certeza estarei pelo Cipó ano que vem, para mais uma dose disso tudo. Pense num vício bom!
Cipó mais uma vez!
É isso ai galera, vou passar esses dias do feriado fora. Mais uma vez a Serra do Cipó me chama. É a segunda vez que estou indo (fui em agosto do ano passado) e espero dessa vez sentir a evolução dos treinos e voltar com uma lista de cadenas mais encorpada do que a da vez passada. Ano passado tentei voltar com um 7a de lá, mas dessa vez o objetivo é mandar o máximo deles possível, tentar alguns 7bs e quem sabe, voltar com um 7c. Vamos ver se vai rolar. Sei que motivação não vai faltar, ainda mais com o meu amigo Júlio “Francês” Pimentel indo também pra ficar botando pilha!!
Então é isso pessoal, bom feriado, muita rocha e muitas cadenas pelo Brasil! Até a volta!
A escalada e a vida.
Esse foi um dos primeiros textos que eu escrevi no blog, e que achava ter se perdido para sempre depois do meu problema com o servidor. Mas graças ao meu amigo Claudney, que havia reproduzido o texto no site do Clube Excursionista Light, eu pude recuperar, talvez as melhores palavras que já coloquei no blog, e agora reposto aqui pra vocês!
Das muitas coisas que fizeram eu me apaixonar pela escalada, uma que eu me pego constantemente divagando, é a incrível semelhança das experiências de uma escalada com a vida em si. Pra mim, parece a metáfora perfeita. Me dei conta disso logo nos primeiros dias que comecei a escalar, quando me vi frente às dificuldades das primeiras vias, e realmente me fez encarar o ato de escalar sob uma outra perspectiva, além do mero esporte. Me fez fazer da escalada, um caminho de auto-conhecimento e transformação pessoal.
Eu comecei a escalar em 2007. Naquela época minha vida já vinha mudando bastante, desde 2005, e era parte da minha natureza tentar trabalhar os aspectos mais negativos da minha personalidade. E um que é meu calcanhar de aquiles, é a insegurança. Sempre fui um cara inseguro, não vou mentir. Em todas as áreas da minha vida a insegurança aparece pra me atrapalhar, e quando eu comecei a escalar, percebi de cara o embate tremendo que eu iria ter com ela.
Lembro dos meus primeiros dias, ainda na resina, empacado em um lance. Eu simplesmente não conseguia alcançar a agarra, apesar dos gritos de incentivo de todo mundo lá embaixo. Eu via os outros fazerem o lance e me perguntava o que havia de diferente, e me dei conta que a diferença era a confiança. Os outros acreditavam que podiam fazer o movimento, eu não. Essa foi minha primeira lição: confiar mais em mim mesmo. Fui para o lance com esse pensamento, e apesar de não conseguir de primeira, mandei depois de algumas tentativas. Sensação de vitória indescritível. Não de vitória sobre o lance, mas vitória sobre mim mesmo. Vitória sobre meu medo, minha insegurança.
Depois daquele dia, fiquei pensando se eu podia transpor esse aprendizado pra minha vida. Quão bom seria, no meu dia a dia, ter sempre essa sensação que eu tive escalando: Vitória! E decidi que era assim que passaria a tentar viver, vendo a vida como uma longa via de escalada, cheia de cruxes que eu tinha que transpor.
Na vida, todos temos objetivos, por menores que sejam. Sempre miramos em algo que desejamos conquistar, material ou não. Na escalada, o objetivo é o topo, seja da via esportiva, do boulder, ou da montanha. Em ambas nós vamos encontrar dificuldades e desafios a superar para alcançar o objetivo. E é o modo como você vai encará-los que vai definir suas chances de sucesso.
Na escalada, várias vezes nos encontramos numaposição de conforto. Pés bem apoiados, uma agarra “mamãe” pra descansar e bem próximos da proteção. Mas não dá pra ficar naquela posição pra sempre se você quer chegar no topo. Então você tem que sair daquela posição de conforto e equilíbrio e buscar a próxma agarra, lançando-se na angústia do desconhecido.
Quantas vezes na vida não estamos em posição semelhante? Alcançamos uma posição na vida que é até relativamente confortável, mas é longe daquilo que almejamos realmente? Muitas pessoas escolhem ficar nessa posição, e não vão ao encontro “da próxima agarra”. Tudo por que não querem correr o risco de cair, de fracassar.
Mas na escalada, assim como na vida, cair faz parte do processo, e você aprende com isso. Você não pode viver com medo da queda, assim como não se consegue escalar se você ficar com medo de cair. Você deve aceitar o risco da queda, e controlar o medo. Não deixar ele te impedir de viver essa nova experiência na vida. É assim que se escala, e é assim que se deve viver. Esse foi um dos “insights” mais reveladores da minha vida.
Na escalada e na vida, nós vamos enfrentar muitos cruxes, onde temos que tomar essa decisão: assumir o risco da queda ou recuar. Mas apesar de ter aprendido escalando, que eu tenho que assumir o risco da queda, também aprendi que saber a hora de recuar é igualmente importante.
Assim como num crux, nesses momentos de decisão você deve se colocar num estado mental que te permita julgar a situação desprovido do medo puro e simples. Julgar o momento visualizando suas reais capacidades, sem inseguranças, mas também sem orgulho. Se você se sente realmente pronto para o lance, ou o desafio da vida, controle o medo do fracasso, e vá com tudo que você tem. Se você sente verdadeiramente que o lance supera suas capacidades, então aquele realmente não é o momento para despejar sua energia. Reconhecer seus limites também é algo fundamental para o sucesso, tanto escalando, quanto vivendo.
A escalada tem me ensinado muito, e tenho tentado trazer para a minha vida os ensinamentos que ela me proporciona. Não sei se as pessoas à minha volta têm percebido isso, mas eu sinto que eu não sou mais a mesma pessoa desde que comecei a escalar.
Muitas pessoas procuram uma vida inteira por algo que realmente as conecte com algo maior do que elas mesmas. Algo que as faça perceber que a vida tem algo mais para oferecer, e você algo mais a oferecer pra vida. Alguma coisa que as faça olhar pra dentro de si mesmas e enxergar seu verdadeiro potencial. Eu até já procurei em outros lugares, mas foi subindo uma rocha, amarrado numa corda, enfrentando meus medos, minhas fraquezas, que eu descobri o verdadeiro caminho pra compreender a vida e a mim mesmo. Meu caminho para a iluminação!







