Ubatuboulder, uma trip quase perfeita!

Parece coisa de maluco, sair daqui de Fortaleza, viajar sei lá quantos mil quilômetros, pra passar praticamente só um dia escalando. Mas foi só porque foi pouco tempo que essa trip não foi perfeita, porque por todo o resto, não sei como poderia ser melhor: um pico fantástico, com um visual incrível, uma galera irada, e todos numa energia fenomenal! Foi realmente muito bom! Mas pra vocês entenderem eu tenho que contar, vai ficar longo, mas tenham paciência.

Ubatuba foi minha primeira trip de boulder. Nunca antes na vida desse escalador uma trip tinha sido dedicada apenas à essa atividades que alguns preferem fazer num dia de descanso. Mas a escolha pra começar essa história foi Ubatuba e foi acertada.

Saimos de Fortaleza, eu e Daniel Mamede, na sexta meio dia. Enfrentamos três horas e meia de voo até São Paulo, pra de lá pegar mais uma hora e meia de estrada, de ônibus, até São José dos Campos, onde fizemos uma pequena visita ao muro do Purga, pra pegar algumas idéias para a nova Fábrica de Monstrinhos. Dormimos por lá, na casa do André Braga, primo do Daniel, e seguimos com ele no dia seguinte para Ubatuba! Dos 3, só eu ainda não conhecia o tão falado pontão da praia da fortaleza!

Chegamos por volta das 9:30 da manhã e seguimos direto pros boulders! Não tinhamos tempo a perder! Dez horas já estávamos dando início aos trabalhos, entrando na primeira brincadeira do dia: Ferro de Passar V3. De cara  já achei esse V3 mais forte do que o único que eu tinha escalado até hoje, o Charlie Brown no Grajaú. Mas trabalhei um pouco, achei o beta, e encadenei. Daniel também mandou o boulder um pouco depois.

Saímos dali e fomos entrar no Dorotéia, que dizia o André, era outro V3. Trabalhamos um pouco os lances e o Daniel mandou sem muito esforço. Eu mandei em seguida. Mas depois acabamos descobrindo que o Dorotéia, segundo o croqui, era um V5, mas que não terminava por onde a gente terminou, tinha mais alguns movimentos antes de fazer a virada. No final das contas eu nem sei o que foi que eu mandei, mas ficou com cara de V3 também.

Nesse meio tempo já tava escalando com a gente o Bruno, amigo do André, e se juntou o Ian Munoz, que tava por ali sozinho e a gente chamou pra dar uns pegas no Pro Abaulado V2. Esse foi mais dentro das expectativas. Errei na tentativa em flash, mas na segunda saiu a cadena. Daniel também mandou com bastante facilidade.

Saímos de lá e fomos tentar um dos grandes clássicos de Ubatuba: Van der Walls, outro V3. André mostrou como era o problema, mandando fácil, logo de primeira. E ai começaram as tentativas. Várias! Mas sem muito progresso. Até que nos deram o beta de travar com o joelho em uma das agarras, ai o negócio começou a ficar mais perto. Mas ainda assim, dominar o reglete mais em cima tava difícil. Parecia estar faltando o posicionamento correto. Já estava no que eu considerava meu último pega no boulder e cai mais uma vez, mas nessa tentativa deu o estalo do que eu devia fazer pra dominar a agarra. Resolvi dar mais uma chance e fui pra mais uma tentativa. Saiu tudo perfeito! Mordi o reglete e abri mais a perna direita pra ficar na agarra quase de oposição. Era o que precisava. Cruzei pra agarra melhor mais em cima e ai eu já sabia que tinha mandado, foi só manter a calma e fazer a virada. Clássico de Ubatuba no bolso, pra voltar pra casa satisfeito. Ótima a sensação de virar um boulder que você já tentou bastante e já ia desistir.

No meio dessas nossas tentativas pelos boulders do pontão eu fiquei de olho na galera que ia chegando, já que fomos os primeiros a chegar por lá de manhã. A galera da 4Climb chegou um pouco depois. O Felipe Alvares “Kbeça”, que a gente já tinha encontrado na frente da casa onde iríamos ficar, e o Daniel Mendes “Tiodan” que chegou depois.

Mas eu estava mesmo era a espera do Caio Gomes, que já tinha se tornado amigo pela internet e que agora ia ter a oportunidade de conhecer pessoalmente. E por volta do meio dia, aparece aquele carioca meio com cara de marrento, óculos escuros, fone de ouvido, completamente na dele. Mas foi só chegar e cumprimentar pra confirmar que o cara é realmente gente fina demais. Até parecia um velho amigo que tava reencontrando e não vendo ali pela primeira vez. Junto com ele o caçula da família Buscapedra, Pedro Gomes, da mesma vibe do irmão.

Outra galera que eu já conhecia pela internet foi chegando depois também, como o Gibara e o Linha. Conheci também o  jovem talento da escalada brasileira, Rafael Takahace, e o pai, Mauro,  que demonstra o apoio incondicional que tem pela paixão do filho de 15 anos, acompanhando nas trips e registrando tudo. Muito bonito de se ver!

Apareceu também gente que eu já tinha conhecido em outras trips pelo Brasil, como o Carlos, que eu conheci na primeira vez que fui no Cipó, e o Eric, que eu conheci da segunda trip no Cipó. Muito legal rever essa galera!

E claro que essa galera chegou pra escalar também, e encadenar. E eu fiquei por ali assistindo, vendo os monstros escalar. No meio disso presenciei a cadena dupla do Cracolândia V12, pelo Beto de Campinas e o Esteban do Rio. Justo o boulder que o Caio Gomes estava tentando e que parecia engasgado. Vendo a cadena dos 2, ele entrou duas vezes tentando encadenar e não conseguiu. Dava pra ver que aquilo tava mexendo com a cabeça dele, e apesar de estar ali tentando passar a vibe, nessa hora eu nem sabia o que dizer. Mas ele se aprontou pra uma terceira entrada, depois de repassar o beta que ele já sabia que era o certo pra ele. Foi lá, e com determinação e a vibe da galera embaixo, saiu a cadena tão esperada. Segundo V12 do Caio! E como eu tinha falado pra ele antes, eu ia tá lá pra presenciar. Fiquei com fama de pé quente! Um grande momento do Ubatuboulder!

Por volta das 15hs o André teve que ir embora, e eu e o Daniel acompanhamos para tirar as mochilas do carro e deixar na casa alugada pelo pessoal da 4Climb. Aproveitamos pra descansar um pouquinho a pele, que já tava reclamando um pouco. A combinação rocha abrasiva e pele fina por falta de treino e escalada não foi das melhores! Fomos comer alguma coisa e voltamos para o pontão pra uma nova rodada de tentativas em novos boulders!

Vimos o Carlos entrando em outro V3, Curta Metragem, que pareceu interessante e resolvemos tentar também. Junto também estava a Roberta, escaladora de Belo Horizonte, se não me engano. Dos 3, ela foi a única que mandou o boulder. Na escalada é assim, sem espaço pra machismos bestas, porque a mulherada escala forte pra caramba por aqueles lados.  Ficamos ali tentando várias vezes, mas pra mim o boulder parecia não estar encaixando direito e deixei de lado.

Vi uma movimentação em frente ao Van der Walls, e resolvi checar. Era o Daniel Tiodan dando um estímulo pras cadenas. Quem encadenasse o Van der Walls, ou o Wanderléia V4, ou o Jantar V4, levava um brinde. Como eu já tinha mandado o Van der Walls, resolvi entrar na brincadeira com o Wanderléia. Me juntei ao Gibara, ao Eric e ao Hugo, de BH, nas tentativas. O crux do boulder era juntar as mãos na aresta, saindo de um crucifixo. Ou seja, segura a porteira! Foi tentado de tudo, calcanhar, toe hook, mas nada tava jeito. Até que o Hugo encaixou o toe hook certinho e conseguiu juntar, mas na hora de soltar o pé o pêndulo era grande demais pra ficar. Enquanto a gente se matava no Wanderléia, o Pedro Gomes brigava com o Jantar, já bastante cansado depois de ter mandado 2 V7.

A noite chegou, os boulders iluminados pelos holofotes e as headlamps, mas a disposição não diminuiu. Galera continuou escalando, embalada pela vibe da música eletrônica. Depois de desistir do Wanderléia, acabei aceitando o desafio do Felipe Alvares e fui tentar um V6: Cérebro! Saída esquisita, com o calcanhar já bem alto e dois regletes nojentos, um deles, segundo o Hugo, carnívoro! E lá fomos nós: Eu, Daniel, Hugo, Eric e Roberta. Negócio era difícil, e com o cansaço, o corpo começou a reclamar. Numa das tentativas a panturrilha pediu penico, e a câimbra veio. Ainda tentei mais uma vez, mas vi que não rolava mais tentar o Cérebro, com aquela puxada de calcanhar logo na saída.

Mas como tava todo mundo escalando ainda, e a vibe tava legal, ignorei um pouco os sinais do corpo e resolvi dar uns pegas no Pézinho V4, já que tinha uma galera tentando. Me resumi a tentar isolar o crux do boulder: um belo de um dinâmico de lado, num lance de teto, pra um agarrão irado! Preciso dizer que era longe? Cai várias vezes e não consegui nem segurar de verdade na agarra. Era o sinal pra tirar as sapatilhas e parar de escalar. Afinal de contas foram quase 10 horas de escalada, praticamente non-stop, num pico de boulder de rocha abrasiva! Uma hora tinha que acabar a pilha e a pele, e não teve superbonder que desse jeito. De tão cansado, acabei perdendo o night climb que rolou até 4:30 da manhã  no pontão, com muita música, vinho e cerveja. Cerveja que eu desisti de esperar por volta da s 21h da noite, achando que o tiozinho do barco tinha dado o xexo na galera.

O domingo ia ser curto. Só tínhamos a manhã se quiséssemos  escalar mais alguma coisa. E voltamos pra lá por volta das 10hs pra acabar com o resto de pele. Os músculos das costas e dos braços já começavam a reclamar, mas ainda dava pra gastar um pouquinho mais. O escolhido foi o Sertão V3. Outro conhecido de trips passadas, o Alex, estava por lá tentando com uma galera, e resolvemos nos juntar a eles. Daniel deu só um pega e mandou o bendito. Ele já tinha mandado em outra trip e disse que era por causa disso, só pra poder continuar dizendo que estava fraco. Eu ainda dei uns 3 pegas no boulder, sem sucesso. Parecia faltar gás pra explodir na agarra final e fazer a virada. Mas como diz o velho ditado repetido à exaustão na trip: “O sofrimento é passageiro, desistir é para sempre”; lá fui eu pra mais uma tentativa, com o mesmo espírito do último pega no Van der Walls. Consegui achar força onde não tinha mais e explodi certinho na agarra. Demorei pra achar posição pra virada, mas consegui e mandei. Mais um V3 pra colocar no 8a.

Ainda tentamos escalar alguma outra coisa mais fácil, mas o tempo já tava curto demais. Deixamos o pontão e fomos almoçar antes de enfrentar as 5 horas de viagem até São Paulo, e de lá mais 3 ate Fortaleza. Fiquei feliz de ainda ter encontrado com o Caio e o Pedro, pra poder me despedir, deixando com eles um presente bem cearense: rapadura! Nos despedimos também da galera da 4Climb, e pegamos o caminho de volta.

Hoje estou aqui, escrevendo esse relato e ainda sentindo dores musculares. Mas em nenhum momento me arrependo de ter ido. Como bem disse o Caio  no blog dele, foi o melhor Ubatuboulder da história e foi meu primeiro. Primeiro de muitos!

ps: Queria terminar esse post completamente pra cima, mas aqui tenho que dizer algo não tão legal, mas pra gente daqui do Ceará. Durante o evento acabou surgindo a pergunta inevitável: e o encontro?! Mais uma vez, como muitos dos outros escaladores do Ceará interpelado nos picos de escalada pelo Brasil, eu tive que responder a única coisa que eu podia: que  não sabia. Queria poder dizer que o encontro vai ser fantástico, que eles tem que aparecer por lá em novembro, mas não vou dizer algo que eu não sei se vai se concretizar. Uma pena! Fica o toque pra organização trabalhar melhor e divulgar como andam os preparativos para o evento.

Facebook Comments