3ª Etapa Campeonato Brasileiro de Boulder – Belo Horizonte

O visual é incrível! Chegar na Praça do Papa em Belo Horizonte e descortinar toda a cidade lá de cima já é mais do que suficiente para visitar o local. Mas no final de semana passado, competindo com a panorâmica da cidade estavam os slackliners e boulderistas que participavam do Campeonato Brasileiro de Slackline e da última etapa do Campeonato Brasileiro de Boulder. Os dois eventos encheram a praça do Papa e deram um verdadeiro espetáculo para aqueles que visitaram o local no sábado e no domingo, mesmo enfrentando o sol de arder (devido a baixa umidade relativa do ar) durante o dia, e o frio de rachar durante a noite.

Visual do muro na Praça do Papa com BH ao fundo. (Foto de Marcelo André)

Minha participação no Festival Amador

No sábado rolou os festivais, tanto das categorias amadoras quanto das categorias IFSC (Juvenil e Master). O primeiro festival foi o das categorias amadoras, do qual participei. A expectativa era melhorar a pontuação em relação à primeira etapa que participei no Rio de Janeiro, voltar ao pódium (quem sabe abocanhar um primeiro lugar) e tentar terminar a temporada com o primeiro lugar geral no Ranking. Mais uma vez o Belê fez um grande trabalho nos boulders do festival, dessa vez (assim como em SBS) fazendo uso de vários módulos, que deram uma temperada nos problemas. Existiam 4 faixas de pontuação no festival: os amarelos (que valiam até 2000 pontos), os vermelhos (valendo até 5000 pontos), os verdes (valendo até 9000 pontos) e os pretos (que chegavam até 30000 pontos). As faixas de pontuação se assemelhavam às do Rio, e logo percebi que o foco ia ser mandar todos os vermelhos, o mais rápido possível, e daí partir para pegar alguns verdes e aumentar a pontuação.

Na cadena de um dos boulders vermelhos (Foto de Renan Schelb)

Dei um primeiro pega em um dos boulders amarelos para sentir a dificuldade e aquecer um pouco, mas assim como no Rio vi que ficar nos amarelos ia ser perda de tempo, e decidi entrar logo em um vermelho. O primeiro que entrei estava entre os mais difíceis entre os vermelhos, e entrei já tendo visto alguém dando um pega nele. O boulder tinha alguns movimentos longos que precisavam ser dinâmicos. O primeiro saia de um módulo, segurando em um reglete de direita, e abria o crucifixo pra catar um  batente meio abaulado de esquerda. Fui fazer o movimento meio estático e acabei não alcançando a agarra, e na volta para recuperar o equilíbrio toquei uma agarra fora do boulder. Queimei a primeira tentativa num erro bobo.  Mas tudo bem, era apenas o primeiro, ainda poderia eliminar esse da pontuação se mandasse os outros 5 boulders vermelhos de flash. Dei mais uns dois pegas nesse boulder e cai com o pé escorregando em uma agarra. Relaxei e fui para os outros vermelhos. Todos os próximos foram saindo de flash, com bastante facilidade, o que foi me animando. Tinha mandado quatro quando resolvi voltar para o que havia me derrubado, e mandei nesse pega.

Com o sistema de pontuação automatizada via iPads e atualizado em tempo real, pude conferir minha pontuação e minha colocação atual. Estava com pouco mais de 18 mil pontos e em terceiro lugar, minha pontuação mínima garantida com 5 boulders vermelhos. Resolvi tirar meia hora de descanso e voltar para entrar nos boulders verdes e somar o máximo de pontos possível. Saí dali, comi alguma coisa, bebi uma água, falei com a galera e fui dar mais uma conferida na pontuação. Tinha caído para o quinto lugar. Estava na hora de voltar.

Conferindo a pontuação em tempo real.

Já havia dado uma olhada nos verdes antes e resolvi entrar no primeiro da direita, um boulder com regletes pequenos. Tentei a primeira vez e fui até bem, quase dominando a antepenúltima agarra. Dei mais dois pegas sem sucesso e os dedos começaram a reclamar. Resolvi mudar e fui dar um pega no primeiro da esquerda. O boulder parecia ser mais de técnica e equilíbrio do que necessariamente força. Entrei no boulder sólido, e com o incentivo dos amigos do lado de fora, mandei o problema na primeira tentativa, voltando para o terceiro lugar.

Agora era a hora de apertar tudo e tentar mandar mais um verde pra tentar chegar no segundo e garantir de vez o terceiro, já que o quarto colocado estava muito próximo. Entrei em um outro problema acompanhando a vibe da galera de BH que foi pra Rocklands recentemente, entre eles o meu amigo Eric Dorneles, que competia na categoria Adulto A. Dei um primeiro pega esquisito e mal consegui sair, mas logo identifiquei o erro na leitura e o segundo pega já foi bem melhor. Ficamos ali durante algum tempo tentando o problema mas todos caiam exatamente na mesma agarra, duas antes do fim. Resolvi mudar de estilo e parti para um outro que tinha movimentos longos e usava uma travada de calcanhar para ficar na agarra final. Pareceu factível. No primeiro pega consegui dominar o módulo, mas não consegui avançar para as agarras acima dele. Dei mais alguns pegas e caia exatamente no mesmo lugar. O tempo estava acabando, sentia meus braços cansados, e decidi dar apenas mais um pega. Entrei bem, e pela primeira vez catei as agarras acima do módulo e cai me preparando para ir na penúltima agarra. A motivação voltou e resolvi tentar de novo. Entrei faltando 3 minutos para o fim e consegui dar um pega melhor ainda, mas não o suficiente pra mandar o boulder.

Mesmo sem mandar mais um verde, consegui terminar em terceiro colocado, com uma pontuação melhor do que a etapa do Rio de Janeiro, fechando o total de 23500 pontos, mas apenas 200 pontos na frente do quarto. Com a terceira colocação nessa etapa, acabei terminando a temporada com o primeiro lugar geral no ranking da categoria Amador Adulto B, com 92 pontos. Agora posso dizer que sou campeão brasileiro de boulder? 🙂

O pódium da categoria Adulto B Masculino (Foto: Adrena)

Festival Master e finais

Mais tarde rolou o festival das categorias IFSC (Juvenil A e B, Júnior e Master). Os boulders para essas categorias continuavam os mesmos do festival amador, a diferença é que agora os competidores iam centrar esforços nos boulders mais difíceis, os pretos, que não foram escalados por praticamente ninguém no festival amador. Para se ter uma idéia da diferença, para ficar no pódium nas categorias amadoras, os boulders base da pontuação eram os vermelhos, com os verdes sendo aqueles de pontuação mais alta ser encadenada para ficar nos primeiros lugares. Já no festival master, os boulders base de pontuação eram os verdes, e os pretos os que iam fazer a diferença na hora da classificação.

Com a ausência de fortes nomes no master masculino como César Grosso, Pedro Nicolosso, Beto Ferragut e Rafinha Takahace, havia ai mais chances de novos nomes aparecerem nessa final. E a disputa foi acirrada, principalmente nas últimas colocações que passavam para a final. Caio Gomes, escalador de Niterói, ficou fora da sua primeira final na temporada por muito pouco, terminando o festival com a 7ª colocação. Rafael Ávila, o Fanfa, que havia chegado na final no Rio, não conseguiu repetir o resultado e ficou de fora. Juan Ouriques, que conseguiu final na etapa passada em São Bento do Sapucaí também ficou de fora. Felipinho (SP), Pedro Raphael (DF) e Jean Ouriques (MG) mantiveram os bons resultados e chegaram mais uma vez na final. Completando os 6 primeiros ficaram Rafael Passos (DF), Tomaz Ferreira (Droza) e Ruy de Castro, ambos escaladores mineiros, fazendo bonito em casa!

No feminino também tivemos mais uma vez as figurinhas carimbadas chegando na final: Thais Makino (SP), Luana Riscado (RJ) e Anna Shaw (SP). A escaladora paranaense Camila Macedo repetiu o bom resultado da etapa passada e chegou mais uma vez na final, acompanhada das escaladoras mineiras Maira Vilas Boas e Patrícia Antunes (que entrou no lugar de Francine Borges, que não pode participar da final e cedeu a vaga). A escaladora Flora Kesselring, que havia estado na final nas duas últimas etapas, acabou ficando de fora dessa.

Nesse festival, outra figura de destaque foi o escalador mineiro Yan Kalapothakis, que disputando na categoria Juvenil A, passeou nos boulders do festival e ficaria bem colocado até mesmo entre os da categoria Master Masculino (ficaria na 14ª posição). Com mais essa vitória, Yanzinho mostrou domínio total na categoria Juvenil, ganhando as 3 etapas, ficando com o título brasileiro e carimbando de vez o passaporte pra categoria Master ano que vem.

Yanzinho em um dos boulders mais fortes do festival. (Foto: 4Climb)

No domingo rolaram as finais das categorias Master Masculino e Feminino. Como em São Bento, as finais foram no modelo IFSC: quatro boulders, com os escaladores escalando cada um na sua vez , tendo 5 minutos para encadenar cada boulder e com a pontuação sendo contada pelos Tops e agarras bônus.

A primeira final foi a feminina, e começou parecendo que ia ser um passeio da Thais Makino, com somente ela fazendo top no primeiro boulder. Mas a partir daí ela começou a ser seguida de perto por Luana Riscado, que foi mandando cada um dos outros boulders à vista e manteve a disputa do primeiro lugar entre as duas. No último boulder, depois de ter mandado o problema à vista, Luana caiu de mau jeito e torceu o tornozelo, sendo retirada no colo para a plateia, para de lá acompanhar o desempenho de Thais Makino. Thais não encaixou bem no boulder e caiu na primeira tentativa, deixando todos apreensivos e abrindo a possibilidade de um empate caso ela não encadenasse o problema. Mas ela mostrou porque garantiu o título brasileiro ainda na segunda etapa, e encadenou o boulder, ficando com o primeiro lugar e Luana Riscado com o segundo. Em terceiro veio a mineira Maira Vilas Boas com 2 tops, deixando Anna Shaw em quarto, Patrícia Antunes em quinto e Camila Macedo na sexta posição.

Luana Riscado no boulder 2 da final feminina.
Anna Shaw no último boulder da final

A final masculina foi recheada de momentos de levantar o público. Os boulders abertos pela equipe de routesetters chefiada pelo Belê garantiram um belo espetáculo, com movimentos dinâmicos e lances bastante criativos. Mais uma vez Felipinho passeou nos boulders, mandando 3 dos 4 problemas propostos, todos à vista. Ele foi o único a mandar o primeiro boulder e já abriu vantagem. No segundo, quem levantou a galera foi o Pedro Raphael, que foi o primeiro a resolver o problema, dominando a agarra final de cabeça para baixo. Felipinho também encadenou esse boulder e manteve a dianteira. No terceiro boulder foi a vez de Tomaz Ferreira, o Droza, levantar o público. Depois de tentar várias vezes sem sucesso, e com o tempo já chegando no fim, ele entrou para um último pega. O relógio zerou e ele tinha apenas mais essa tentativa. E com o apoio da galera ele conseguiu a cadena, e fez seu único top na final. Rafinha Passos também encadenou esse boulder, à vista, e com isso garantiu a terceira colocação. Pedro Raphael e Felipinho também fizeram top e se mantiveram na briga pela título. O último boulder foi extremamente difícil, cheio de módulos e agarras pequenas, e esse não deu nem para o Felipinho. Ao final Felipe ficou novamente em primeiro, Pedro Raphael de novo em segundo, com Rafael Passos em terceiro. Droza ficou com a quarta colocação, seguido de Jean Ouriques em quinto e Ruy de Castro em sexto.

Pedro Raphael voando no primeiro boulder da final masculina.
Felipe Camargo fazendo o domínio da última agarra no boulder 2

Com os resultados dessa última etapa, Felipinho e Thais confirmaram o primeiro lugar geral no campeonato e se sagraram os primeiros campeões brasileiros de boulder, levando pra casa, cada um, uma passagem de ida e volta para Paris e representar o Brasil no Campeonato Mundial de Escalada. Thais já confirmou presença na competição. Felipe vai ficar de fora, mas pretende representar o Brasil em uma das etapas da Copa do Mundo de Dificuldade.

O Campeonato Brasileiro de Boulder com certeza foi um grande sucesso. A organização e a estrutura  foram realmente de primeira, e o Pedro Leite e a Lili Espíndola da Adrena estão de parabéns pelo grande evento, fruto de bastante esforço e dedicação. Que o ano que vem possamos mais uma vez ter um circuito brasileiro de boulder, quem sabe fazendo parada em mais cidades, com mais apoio e dando mais uma vez um show de escalada para um público cada vez maior.

 

Podium Master feminino (Foto: 4Climb)
Podium Master masculino (Foto: 4Climb)

 

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