Por que a escalada deve estar nas Olimpíadas?

As Olimpíadas de Londres terminaram e agora o mundo volta os olhos para o Rio de Janeiro em 2016. Mas a comunidade de escaladores mundial olha um pouco mais longe, para 2020, ano em que a escalada pode ter a primeira chance de fazer parte dos jogos olímpicos, e segundo alguns, as possibilidades são boas e temos motivos para sermos otimistas.

O COI decide em Setembro de 2013, em Buenos Aires, quais os esportes entre Baseball, Softball, Karate, Squash, Wushu, esportes sobre rodas (patins e skate), Wakeboard, Futebol de praia e Escalada vão fazer parte dos jogos de 2020. O Baseball e o Softball tentam voltar aos jogos depois de saírem em Pequim 2008, alguns da lista já tentaram outras vezes sem sucesso, mas essa é a primeira vez da escalada tentando uma vaga, já que o esporte foi reconhecido oficialmente pelo COI somente em 2010. Isso com certeza pesa contra a escalada, mas em alguns outros quesitos nós com certeza levamos vantagem. Em artigo publicado ontem pelo site da revista americana Outside (cujo título eu tomei emprestado), um pouco do porque de a escalada ter demorado tanto para surgir como possível esporte olímpico e as chances que temos, são bem explicadas.

Segundo o artigo, o principal motivo para a escalada ter demorado tanto a surgir como potencial esporte olímpico, é cultural. Durante grande parte do século XX, quando a base das Olimpíadas foi estruturada, a escalada existia basicamente como escalada alpina, e envolvia mais logística e força de vontade. Quando a escalada em rocha surgiu nos anos 50 e 60, ela era essencialmente feita em artificial, e pouco tinha a ver com a escalada esportiva dos dias atuais. Foi nos anos 70 que essa história mudou, com o desenvolvimento da escalada em livre, onde os escaladores só usavam as mãos para segurar e se puxar nas agarras e assim progredir. O esporte evoluiu e hoje os escaladores são essencialmente atletas, que treinam em ginásios especializados, com equipamentos específicos, visando sempre aumentar seu nível. Os campeonatos estão cada vez mais organizados e atraindo um público a cada dia maior, sendo transmitidos ao vivo pela internet e pela televisão. Parece que o nosso momento chegou. Mas quais seriam as vantagens da escalada frente aos outros esportes candidatos?

Enquanto esporte a escalada se assemelha muito a modalidades como atletismo e natação, onde super-atletas desafiam as definições do que o corpo humano é capaz de fazer. A escalada também traz esse componente, de feitos sobrehumanos acontecendo na frente dos nossos olhos. Basta assistir um escalador participando de um Campeonato Mundial, se locomovendo em paredes incrivelmente inclinadas, “pendurados” em agarras que para pessoas comuns são virtualmente impossíveis de se segurar.

Adam Ondra terá 27 anos em 2020, e ainda poderá ter uma chance de participar das Olimpíadas.

A escalada é um esporte fácil de assistir, e empolgante de ver. Diferente de esportes como o Baseball e Softball, que você tem que conhecer as regras para pelo menos saber quem está ganhando, na escalada é bastante simples: quem for mais alto, está na frente. E ver os escaladores indo cada vez mais alto, é algo muito legal, até para pessoas que não praticam o esporte. Já presenciei pessoas que nunca haviam assistido uma competição de escalada antes, vibrar com um escalador fazendo um movimento e passando um trecho que já havia derrubado tantos outros.

A quantidade de jovens praticando escalada e competindo em nível profissional é muito grande. Caso a escalada consiga fazer parte dos jogos de 2020, com certeza veremos atletas com média de idade inferior aos 25 anos, e é sabido que o COI valoriza esse componente nos esportes. Outro fator favorável à escalada, e que impressionou observadores do COI, foi o modo como os atletas, competindo um contra o outro, trocavam informações sobre uma via antes de competir. Algo inusitado para esportes de competição, mas extremamente comum entre os escaladores. Se isso não é “espírito olímpico”, eu não sei o que mais é.

Contudo, o COI também tem algumas preocupações bem mais práticas, como faz questão de frisar o autor da revista Outside. Mais espectadores, dinheiro de patrocinadores e mais cobertura de mídia, na verdade são os elementos chave para levar um esporte às olimpíadas. Mas quanto a esses quesitos também não fazemos feio. A escalada tem praticantes apaixonados pelo esporte espalhados pelo mundo todo. As competições mais recentes tem atraído atletas de cada vez mais países e visto platéias com mais de 10 mil pessoas. Grandes marcas ligadas ao esporte já existem, como a Petzl e a Black Diamond, que com certeza despejariam mais dinheiro em um esporte olímpico. Mas nessa brincadeira também temos uma gigante, a Adidas, que tem investido pesado na escalada nos últimos anos, patrocinando atletas e promovendo suas próprias competições. A cobertura da mídia com certeza é o nosso quesito mais fraco desses três, mas nos últimos tempos a escalada tem recebido uma atenção maior da mídia, com aparições em publicações do calibre da revista People, programas de TV como 60 segundos, e matérias recorrentes na capa da seção de esportes de um dos maiores jornais do mundo, o The New York Times. Falta ainda a devida cobertura das competições.

Esse ano o Campeonato Mundial em Paris, a ser realizado em Setembro, é tido como o grande teste. Com certeza observadores do COI vão estar por lá acompanhando toda a competição e o IFSC vem se preparando a bastante tempo para isso, fazendo inclusive adaptações nas regras da modalidade dificuldade, de forma a minimizar os empates. No último Campeonato Mundial em Arco, a transmissão online foi realmente fantástica, e podemos esperar algo ainda melhor para esse ano. Essa é a chance da escalada deixar sua última boa impressão para o COI, com uma grande competição onde todos os melhores atletas do mundo vão estar competindo. Se tudo der certo, quem sabe em Setembro do ano que vem toda a comunidade de escaladores estará comemorando a escalada como esporte olímpico!

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