XI Encontro de Escaladores do Nordeste – Serra Caiada

Valeu muito a pena! É esse o sentimento que ficou depois que eu voltei de Serra Caiada, onde aconteceu a 11ª edição do Encontro de Escaladores do Nordeste (EENe). Começando pelo o pico, que eu já conhecia e é realmente um dos melhores pico de escalada do Nordeste, quanto pela a organização do evento que entregou um encontro bem estruturado, com boas atrações (palestras e oficinas) e garantiu a interação dos mais de 200 escaladores que compareceram ao encontro. Houve sim alguns pequenos contratempos, mas nada que tirasse o brilho de todo o evento que teve momentos marcantes e emocionantes.

A Fábrica de Monstrinhos se fez presente no encontro com um bom número de escaladores. Nosso bonde tinha dois carros, com 4 pessoas em cada: eu, Ricardo Damito, Jorginho Damasceno (Quixadá), Alexandre Ortiz (Alê), Tiago Reis (Minhoka), Valberto Porto, Flavio Lobo e o Bruno Ginelli. Saímos de Fortaleza à 1 da manhã da quinta-feira, dirigindo a noite toda e chegando em Serra Caiada por volta das 7 da manhã. Chegando por lá encontramos a escola que serviria de alojamento já com várias barracas armadas, e o credenciamento dos escaladores rolando. O café da manhã já estava saindo também, então resolvemos comer alguma coisa antes de partir para a pedra. O café oferecido estava bem servido: pão, cuzcuz, ovo, salsicha, café, suco, fruta; tudo com fartura e com opções que dava tanto pra quem comia pouco, quanto para aqueles que devoram uma montanha logo de manhã. De “bucho” forrado, pegamos os equipos e partimos para a pedra.

O primeiro dia não foi muito produtivo para a gente, porque estávamos realmente cansados da viagem, mas ainda assim escalamos um pouco. Começamos pela face oeste do boulder principal, onde armamos uns “top ropes” pra galera iniciante escalar um pouco. O Jorginho e o Minhoka queriam escalar algo maior e eu fui junto. No caminho percebemos o cuidado da organização com as trilhas, bem sinalizadas e melhoradas para garantir um pouco mais de segurança. Escolhemos uma via no chute mesmo. Jorginho olhou a cara da linha e disse: vamo nessa! E fomos, sem pensar duas vezes. Jorginho guiou a primeira, eu fui no meio da corda, e o Minhoka veio recolhendo. Na saída da P1 o lance era complicadinho, delicado. Cisquei um pouco pra encontrar o caminho, mas saiu. Toquei pra cima e me juntei ao Minhoka que havia guiado a segunda. Completamos a via, rapelamos, e voltamos para o boulder principal.

Enquanto o pessoal escalava nos “top ropes” eu dei a volta pra ver o que estava rolando no outro lado. Bastante gente escalando, incluindo o convidado do evento, o escalador paulista Cesar Grosso. Ele estava tentando um projeto antigo de Serra (até as chapas denunciam a idade) chamado Mestre das Ilusões. Fazendo a seg estava o Júlio Pimentel (Francês), grande amigo agora morando no Rio Grande do Norte. Cesinha desceu da via sem isolar o mov lá de cima, e comentou que a via deveria ficar na casa do 10º grau. Troquei uma ideia rápida com ele e depois segui com a galera para um novo setor de Serra Caiada, a caverninha.

Setor da Caverninha lotado! (Foto de Pedro Caminha)

O setor da caverninha estava bastante lotado, muito gente escalando ali. Mas também não era pra menos. O lugar além de ter ótimas vias, de graus variados, ainda é muito agradável no final da tarde. Ali havia uma via que estava na minha “ticklist” para o encontro, a Arcuzinho do Francês, um 6sup. Chegamos na hora que uma turma estava desequipando a via e entramos nela em seguida. Minhoka, Jorginho, Damito e depois eu. Todos mandando a via de flash, e deixando o top armado pra o resto da galera tentar. Enquanto estávamos lá, conhecemos uma das boas ideias do encontro: um kit de primeiros socorros itinerante. Uma equipe ficava passeando pelos setores com o kit, caso houvesse alguém necessitando de algum curativo, remédio, ou cuidados. Bem legal a iniciativa.

Terminados os trabalhos na caverninha e tomamos o rumo da escola. Eu, Flavio, Valberto e Alê fomos na frente, e tomamos banho antes de ir jantar. Encontramos o restante do pessoal no restaurante, comemos e voltamos para a escola, onde ia rolar a palestra do Cesinha. Chegando lá o resto da galera descobriu que estava faltando água na escola. Um pequeno imprevisto de primeiro dia de evento, mas que foi sanado rápido e nos outros dias tudo rolou sem problemas.

Antes da palestra ainda rolou a entrega de alguns brindes que já haviam sido sorteados, e para a minha supresa, eu era um dos premiados. Meu prêmio? Um kit cadena da 4Climb. Engraçado como a marca mineira não me larga nem nos sorteios. O Menger fez questão de tirar onda dizendo que eu não precisava, que devia doar. E na verdade eu doei uma parte do kit entre os amigos da trip.

Cesinha falando de suas experiências na rocha e em competições (Foto de Ricardo Damito)

Cesinha falou um pouco da experiência dele na rocha e nas competições, mostrando imagens fantásticas dos picos europeus que visitou e dos campeonatos de que participou. Palestra bem legal de um dos melhores escaladores do Brasil! Logo após a palestra, eu mal conseguia manter os olhos abertos. Cai no saco de dormir e apaguei.

O segundo dia era pra gastar os dedos e os braços, já que estávamos todos bem descansados. Comecei participando de uma aulinha de Yoga que rolou na quadra da escola, o que deu pra dar uma bela de uma acordada no corpo antes de partir para a pedra. Tomamos o café e partimos. Dessa vez se juntou ao grupo o Karel, que morava em Fortaleza e treinava com a gente, mas agora está morando em Salvador.  Então estávamos em 9 e resolvemos fazer 3 trios e encarar algumas tradicionais. Nos trios ficaram Damito, Alê e Flavio; eu, Valberto e Karel; e Jorginho, Minhoka e Bruno. Os primeiros ficaram com a Los Manos (a via que nós havíamos escalado no dia anterior no chute), eu fiquei com a Aplysia e o terceiro trio com a Os Pioneiros. Guiei as duas enfiadas da Aplysia para o Valberto (que veio no meio da corda) e o Karel.

Face leste de Serra Caiada lotada!

Normalmente eu fico meio tenso fazendo parede, mas nessa eu estava realmente tranquilo, executando os procedimentos sem pressa, e escalando com calma e tranquilidade. Terminamos a via bem depois dos outros, já que o nosso trio era bem menos experiente, mas correu tudo bem, mesmo com um contratempo da corda prendendo no grampo durante o primeiro rapel, mas que o Valberto soube contornar sem se desesperar. Pontos pra ele! O Flavio na primeira parede da vida dele também mandou muito bem e completou a via passando o lance perrengoso depois da P1 e tomando algumas quedinhas pra apimentar o negócio. O Bruno acabou não completando a primeira via com o Jorginho e o Minhoka, mas depois entrou com eles na Gênesis, e foi devidamente “descabaçado” em vias longas!

Depois dali eu estava com vontade mesmo era de destruir os dedos em alguma esportiva. Enquanto estávamos ali na base da Gênesis e Malu de Andrade, o Juan Alves acompanhado do Cesinha passaram rumo ao setor das Falésias. Era a deixa que eu precisava. Dei o toque na galera e fomos pra lá. Objetivo do dia: tirar uma via da lista de pendências! A via em questão era a Ressureição do Stick, o 7a mais  nojento que eu já entrei na vida, e do qual apanhei na primeira vez que fui em Serra Caiada. Enquanto eu me preparava pra entrar nela, o Cesinha estava entrando na Retorno de Jedi 9a. É incrível ver a facilidade e a fluidez com que ele se move na rocha. Ele equipou a via e depois encadenou, sem muitos problemas. Eu também fiz o mesmo no meu 7a. Entrei equipando e relembrando os  betas, e depois fui pra cadena. Bem dentro do que eu esperava.

Nesse meio tempo, a galera da organização apareceu por lá. Jalon e Menger vieram para organizar um desafio de escalada que ia dar uma bota da Snake para o vencedor. Recrutaram os participantes ali mesmo, para escalar à vista a via Transmento de Pensaferência, um 8b. Eu mesmo tendo acabado de escalar a Ressureição do Stick e estar com os dedos moídos pelos regletinhos dela, resolvi entrar na brincadeira. No total foram 7 pessoas participando, mas uma delas era o Cauí, o que tira toda a diversão da brincadeira. Cauí foi o penúltimo a entrar na via e quase encadena a maldita. Eu entrei por último, já com a organização tirando a foto do campeão, pra vocês verem a confiança que era depositada na minha pessoa. Mas tudo bem, eu não passei da segunda costura mesmo…

Participantes do desafio Snake

Descemos a trilha já no escuro, e encontramos o resto da galera lá embaixo. Voltamos para a escola, tomamos aquele banho e fomos comer. O restaurante estava lotado de escaladores, o que era algo realmente muito bom de se ver. O encontro deu uma bela movimentada na economia local durante esses 3 dias. A dona do restaurante mesmo comentou que gostaria que tivesse encontro todo ano!

Voltamos para a escola para acompanhar a palestra da Kika Bradford. Depois de apresentar os resultados da Semana Brasileira de Montanhismo, ela iniciou o relato da sua escalada no Fitz Roy acompanhada de Bernardo Collares. A medida que a história foi se aproximando do seu desfecho, o clima de descontração cedeu espaço para emoção e silêncio. Todos ficaram atentos e calados enquanto Kika narrava os últimos momentos do amigo. Um momento realmente muito emocionante e um dos pontos altos do encontro, que terminou com uma salva de palmas com todos de pé.

Um outro momento emocionante e marcante desse final de dia foi o depoimento de Menger, ao relembrar o começo de tudo e se emocionar em ver o a quantidade de escaladores presentes ali, concretizando algo que ele havia idealizado há muito tempo. Ele não conseguiu conter as lágrimas, e muitos dos presentes também não.

Depoimento emocionado de Menger no "encerramento" (Foto de Ricardo Damito)

Depois dali praticamente todo mundo foi para um dos “points” da noite Serra Caiadense, a Acapulco Dance. A maioria ficou do lado de fora, tomando uma cerveja, comendo alguma coisa e jogando conversa fora naquela última noite de encontro. O clima estava realmente bem legal, e os escaladores eram praticamente a maioria ali, todos trocando ideia e confraternizando.

Chegou o domingo, e era dia de partir, mas não sem antes dar mais uma escaladinha. Acordamos cedo, e pouco depois das 7 já estávamos na pedra. Fiquei no boulder principal com a galera mais iniciante, enquanto Jorginho, Damito e Minhoka foram fazer a Malu de Andrade. Armei o “top rope” na Tiranovaca 5sup, e logo depois na Grampeleta 6sup, o que foi o suficiente para a galera escalar e acabar com o resto dos braços. Quando o resto dos escaladores estavam chegando para a escalada do domingo, nós estávamos saindo. Ainda tínhamos mais de 6 horas de estrada pela frente. Arrumamos as tralhas, nos despedimos do pessoal e partimos.

Foi um belo encontro. Organização quase impecável, bastante gente escalando, convidados de peso, boas palestras, boas oficinas. Realmente um trabalho muito bem feito que merece os parabéns. Jalon, Menger, Dandara, Léo Paulista, Debora, Carol, Júlio, Denn, Ary, e todos que fazem parte da AERN, obrigado por esse grande encontro! Que os próximos EENe possam retomar o ritmo a partir de agora, e que possamos desfrutar de mais momentos memoráveis como esse, ano que vem na Paraíba!

Os "montrinhos" e Serra Caiada (Foto de Ricardo Damito)

 

 

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