Relato: Trip Igatu

Já faz mais de uma semana que voltei de Igatu, e aqui estou finalmente pra escrever o relato do que rolou em mais essa trip. A ideia de viajar para Igatu surgiu ainda no ano passado, quando estava procurando um lugar diferente pra passar o carnaval.   Desde lá vim tentando convencer o pessoal da Fábrica de Monstrinhos a embarcar nessa trip, mas só o Davi comprou a ideia e ficamos acertados que o carnaval seria na chapada. Apesar de essa minha trip ter sido mais uma em parceria com o Skyscanner, eu acabei nem indo de avião. Sabe como é, passagem aérea para Salvador no carnaval sai mais caro do que viajar pra fora do país, então não tinha a menor condição. Restou a única alternativa viável: encarar os mais de 1300 km de estrada até Igatu!

Saímos de Fortaleza no sábado de carnaval por volta das 4 da manhã. No bonde eu, Davi, Jessica (esposa do Davi e iniciando na escalada) e Tatiana (amiga da Jessica, nunca havia escalado antes). A viagem foi tranquila, com estrada boa e pé embaixo. O único atraso foi um caminhão atravessado na pista logo depois e Salgueiro, no Pernambuco, que nos fez perder quase uma hora. Mesmo com esse atraso ainda chegamos em Igatu por volta das oito e meia da noite.

Chegar em Igatu, mesmo de noite, é um negócio incrível. No momento que você pega a estradinha de pedra até a cidade é como se estivesse andando em direção ao passado. Pra quem é escalador, já dá pra começar a ficar com a mão suando logo que aparecem os primeiros blocos na beira da estrada. Dá vontade de parar o carro e escalar alguma coisa. Mas seguimos caminho e finalmente chegamos em Igatu. Chegando lá a  missão era encontrar o abrigo Xique-Xique, onde iríamos ficar acampados. Nada muito difícil de achar. Bastou perguntar pelo camping do Rafael que o pessoal soube apontar direitinho. Daí foi só armar acampamento e ir atrás de comer alguma coisa. Na busca por comida dou de cara com o Linha, o famoso CEO da UBTBoulder, que estava tomando uma cerveja com LP Silva, o cara dos boulders de Igatu. Batemos um papo e combinamos de no dia seguinte irmos escalar uns boulders. Com tudo acertado, era hora de descansar pro dia seguinte!

Chegando no setor de boulder cemitério em Igatu
Chegando no setor de boulder Cemitério (Foto: Jessica Wiersma)

O primeiro dia de escalada na chapada começou com Boulder. Encontramos o LP e o Linha e descemos para o setor cemitério (ele fica atrás do cemitério). Fiquei logo de cara com o tamanho dos blocos. Verdadeiros highballs caso o corajosa resolva fazer a virada. LP mostrou as linhas e começamos pela mais fácil, um V3 que saia num teto, bem debaixo do bloco, mas que não me recordo o nome. O Linha entrou no boulder e mandou à vista, sem problemas. Entrei em seguida, e acabei mandando o boulder de flash. Nada mau para o primeiro boulder em Igatu. Em seguida fomos para o boulder do lado, Porta da Esperança V4 (saindo do primeiro agarrão). Linha de novo mandou sem problemas, eu já tive mais trabalho. Dei alguns pegas, isolei os movimentos e achei que dava pra sair, mas acabei desencanando e deixando pra lá, ainda tinha mais 2 dias de escalada pela frente, não valia a pena ficar se matando ali. Depois disso acabaram-se os boulders que eu podia mandar e fiquei ali observando o Linha encadenar e tentar algumas coisas mais fortes, até a fome bater e a gente voltar pra almoçar.

Depois de almoçar seguimos na direção do setor labirinto, acompanhados do Rafael que ia nos apresentar às vias. Tava na hora de puxar corda! O setor é muito próximo da cidade, coisa de 1o minutinhos caminhando. As vias por lá não são longas e as paredes são bem próximas umas das outras, formando vários corredores, daí o nome Labirinto. Rafael nos levou num setor com algumas vias mais fáceis pra começar. Iniciamos pela Meu Parceiro é Crente VI. Davi entrou guiando para equipar a via. Estava indo bem, mas no final, antes de costurar a parada acabou caindo e batendo com as costas na parede de trás. Pareceu feio, mas na verdade foi só um susto. Alguns arranhões apenas. Entrei na via em seguida e mandei de flash, o suficiente pra dar uma esquentada.

Davi na Meu Parceiro é Crente no setor Labirinto em Igatu
Davi na Meu Parceiro é Crente no setor Labirinto (Foto: Igatu Escalada e Trekking)

Depois daí eu peguei para escalar a Zorilda, um quinto bem atlético, enquanto o Davi montava o top para a Jessica e a Tatiana num quarto grau. A Jessica tirou o quarto grau de letra, e depois voltou na via guiando. A Tatiana, impressionada pelo não tão promissor cartão de visitas da queda do Davi, travou e não conseguiu subir. Depois disso era a hora de dar um peguinha em algo mais forte. A escolhida foi a clássica Asteróide 7b. Entrei equipando, mas fazendo muito força e lendo tudo errado acabei não conseguindo equipar inteira. Deixei pro Rafael a missão de equipar o resto e vi ele passear na via. Escalar e desescalar sem muito esforço. Davi também deu uma pega na via no tempo que restava de luz, mas deixamos a via equipada para voltar no dia seguinte.

De noite eu estava doido para tomar uma cerveja, e resolvi ir atrás de uma Heineken. Acabei encontrando o Linha e a Glaucia no restaurante em frente à praça, acompanhados de um casal de escaladores de São Paulo: Greg e Thais. Batemos um papo e marcamos de escalar no dia seguinte. Antes de voltar pro abrigo acabei encontrando também com o Steve, britânico que está morando em Igatu.

No dia seguinte voltamos no setor Labirinto para brigar um pouquinho com a Asteróide. Antes montamos o top numa linha mais fácil, um terceiro grau, para a Tatiana dar mais uma tentativa. Dessa vez ela conseguiu ir até o final, e empolgou pra entrar na do dia passado, conseguindo também ir até o final. Depois entrei mais uma vez na Asteróide e penei um pouco para fazer o crux, que é a saída do diedro, vencendo a barriga pra chegar na aresta. Desci e o Davi deu mais um pega nela. Entrei outra vez e dessa vez isolei o lance do crux e finalmente consegui passar, jogando o calcanhar alto, travando tudo no regletinho intermediário e batendo no agarrão. Como cheguei no fim, resolvi desequipar, mas apanhei e acabamos perdendo um bom tempo, e sendo necessário o Davi subir até a terceira chapa e descer desescalando pra desequipar o resto.

Equipando a Asteróides 7b em Igatu
Equipando a Asteróides 7b (Foto: Igatu Escalada e Trekking)

Quando estávamos arrumando as coisas para ir almoçar, chegam o pessoal da Bahia no setor: Felipe e Camilo. Com eles ficamos sabendo que a galera do Rio Grande do Norte também havia chegado, e nos encontramos com ele quando chegamos no abrigo de volta. Almoçamos e voltamos para o Labirinto, dessa vez para fazer boulder com o Linha, LP, Greg e Steve.

Fiquei impressionado com o setor de boulder do Labirinto, e aqui eu entendi porque apelidam Igatu de Igatulands, em referência ao pico sul africano de Rocklands. A paisagem e os blocos lembram muito Rocklands. Muito bonito de se ver. Essa tarde pra mim acabou não rendendo muito, já que me deu uma baita de dor de cabeça e ficou difícil fazer força de verdade. Entrei num V0 e um V1, que mandei fácil, mas mau consegui sair nos dois V3 que tentei. Acabei ficando assistindo ao Linha, Steve, Greg e LP tentarem umas brincadeira mais fortes.

A taste of Rocklands!
A taste of Rocklands!

Depois de um tempo descansando a cabeça parou de latejar, e ai eu fui me juntar à Thais e o Steve que tinham ido atrás de coisas mais fáceis. O Steve então me mostro um bloco virgem (sim, existem blocos virgens em Igatu) e me mostrou duas linhas, perguntando se eu não queria fazer o FA das duas. Aceitei o convite e fiz o FA de dois novos boulders em Igatu, dois V0s creio eu, que acabei batizando de Desce daí, doido! e Urinol. A galera tava pilhada pra entrar no night climb, com o Linha equipado com umas luminárias bem fortes. A galera até deu alguns pegas em alguns boulders, mas os mosquitos fizeram todo mundo desistir. Hora de voltar pra comer alguma coisa e descansar pra o último dia de escalada.

Terça-feira de carnaval, último dia de climb em Igatu, já iríamos ter que sair na quarta-feira de cinzas bem cedo pela manhã. O setor escolhido para o dia foi o California, que fica um pouco mais distante, uns 40 minutos de caminhada. A recompensa é que as vias e boulders ficam do lado do rio e de cachoeiras. Parecia perfeito pra terminar a trip com chave de ouro. O mais legal na verdade desse dia não foi nem tanto o setor, que é sim fantástico, mas a vibe da galera, que resolveu descer inteira em peso pro California. Galera da Bahia, Juan, Dani, Felipe, Carol e Camilo foram. Galera do Rio Grande do Norte, Ary, Stenio, Eduarda, Marlon, Leo Boulder e Dani. Greg e Thais também desceram, mais o Rafael e a gente.

Galera toda reunida no setor Califórnia em Igatu
Galera toda reunida no setor Califórnia (Foto: Igatu Escalada e Trekking)

Começamos nas esportivas, onde eu e o Davi entramos na Vai que dá, um quinto/quinto sup, e depois passamos para a Aki Tem, um sexto grau. Mandei as duas à vista, e parei por ali. Aproveitei para tomar um banho de cachoeira e guardar uma forcinha para os boulders durante à tarde. Comemos alguma coisa e descemos mais um pouco para um outro setor que tinha alguns boulders. Juan parecia o único empolgado em tentar alguma coisa comigo, mas quando colocamos os crashs debaixo do California Dream V7 todo mundo se animou. O boulder é lindo. Saindo num teto com um movimento dinâmico para uma agarra na borda e ai fazer a virada.

Rafael tentando o California Dreams V7

Todo mundo entrou incontáveis vezes no boulder, mas desses só Camilo, Rafael, Greg e Leo Boulder conseguiram travar na agarra da borda e tentar a virada. O Rafael foi o primeiro a conseguir a cadena, deixando a porteira aberta pra quem quisesse. O Greg aproveitou o momento e a vibe e mandou também. Depois disso ninguém tinha mais força nem disposição pra nada. Pegamos o caminho de volta, tomamos um banho e fomos para a nossa última refeição no Xique-Xique, acompanhada da última cerveja!

Na quarta acordamos antes do sol raiar e arrumamos as coisas para pegar a estrada de volta para Fortaleza, mas já com a certeza que a Chapada Diamantina merece várias trips a serem ainda devidamente agendadas!

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