Quando uma chapa faz falta

Hoje fiquei acompanhando de longe uma discussão que surgiu no Facebook. A polêmica toda surgiu quando um escalador perguntou ao conquistador de uma clássica via do Cipó se podia colocar uma chapa em um lance exposto da via, para evitar acidentes. Ia aqui tentar manter o suspense, mas acho que a maioria ai que já foi no Cipó já deve ter matado a charada. A via em questão é a Lamúrias de um Viciado, que na sua segunda enfiada tem um lance fácil, mas bastante exposto, que em caso de queda pode ter consequências não muito legais (um tornozelo quebrado é algo bem plausível). Obviamente, opiniões para os dois lados surgiram. Alguns defendiam que era uma boa, e outros justificavam que a via foi conquistada assim e assim devia ficar.

Embora concorde em parte com a opinião de que uma via deve ser mantida como foi conquistada, acredito também que parece ser comum esse tipo de situação na escalada brasileira, onde lances considerados mais fáceis são esticados, deixando-os expostos. Não vou mentir que às vezes me cago de medo de fazer um lance exposto, mesmo que fácil. Mas também gosto de me testar a passar um lance que é “mentalmente” desafiador. Eu já deixei de entrar na própria Lamúrias porque estava sem móvel e não me senti confiante de encarar o lance depois dos vários “é de boa, mas não pode cair”. Mesmo assim, até acho que no caso da Lamúrias a chapa pode  até ser dispensada, já que lá existe a opção e a possibilidade de se usar uma proteção móvel, ficando portanto a cargo do escalador encarar ou não a exposição e a possível queda. Mas gostaria de aproveitar o mote pra explorar mais esse assunto de lances considerados fáceis ficarem sem proteção, que com certeza não é exclusividade da Lamúrias. Principalmente nos casos onde não existe possibilidade de se proteger com móvel.

Primeiro vou colocar alguns conceitos que considero importantes, de como enxergo o risco na escalada. Existem diversas modalidades de escalada, cada uma com seu grau de comprometimento, de “aventura”, de assunção de risco. Dentre estas a escalada esportiva é a que foi desenvolvida para ser a mais segura, para garantir que os escaladores se focassem somente no desafio físico de escalar uma via difícil. Já a escalada em móvel e as escaladas tradicionais e de grandes paredes, são as que alguns gostam de chamar de “escalada de aventura” (não, não gosto dessa definição, mas vai por falta de termo melhor). Levando em consideração essa diferença entre as modalidades, eu não teria problema nenhum em ver uma via de dificuldade técnica fácil ter lances expostos em uma via tradicional, muito menos em uma via em móvel, onde quem decide onde e o quanto proteger é o escalador, deixando 100% nas mãos dele o quanto de risco ele quer correr.

Quando eu quiser "brincar" de não cair, eu vou fazer uma dessas.
Quando eu quiser "brincar" de não cair, eu vou fazer uma dessas.

Numa tradicional de terceiro grau por exemplo, não tem porque colocar uma chapa a cada três metros, ainda mais quando a via vai ter mais de 200, 300, 500 metros. Imagina a quantidade de chapa e mão de obra que vai ser pra abrir um negócio desses. Aqui no Ceará mesmo tem uma via de mais de 500 metros, quase toda um rampão de terceiro grau, que basicamente só tem paradas. São esticões de 15, 20, até 30 metros, sem nenhuma chapeleta pra dizer se pelo menos você tá indo na direção certa. Mas fazer o que? São 500 metros, e é terceiro grau. Se o cara é iniciante e não tem psicológico pra ir guiando, vai de segundo e pronto. Mas quando essa lógica é usada na escalada esportiva é que eu acho que o caldo começa a entornar.

Primeiro porque via esportiva, diferente de via tradicional, geralmente não tem croqui. Tem só um traçado indicando por onde é a linha e quantas costuras são usadas, isso se tiver muita informação. Segundo, e mais importante, porque escalada esportiva foi feita pra ser segura! Tanto é, que não existe grau de exposição pra esportiva, já que em tese, toda esportiva é pra ser um E1.

Portanto pra mim não faz sentido um cara que escala oitavo grau conquistar uma via de quarto, que obviamente vai ser frequentada primordialmente por iniciantes, e num lance que ele considera fácil, esticar o lance ao ponto de deixar ele perigoso. Já vi muito isso, até aqui mesmo no estado, e já bati muita cabeça com a galera, recebendo sempre as mesmas respostas. A mais comum é o velho chavão: “Se não tem capacidade não entra!”. Mas vem cá? Uma via de quarto grau não devia ser feita pra ser escalada por quem escala quarto grau, ou uma de sexto por quem escala sexto?! Se for nessa lógica vou pedir pro Adam Ondra abrir um 10c e quando tiver um lance de 9c no meio dela ele esticar a proteção, meter uns 8 metros de exposição, com um platô esperando lá embaixo. Pra ele 9c é mamão com açúcar.

Resolvi esticar o negócio que é pra tentar mostrar que é a mesma lógica de se abrir um sexto e esticar a proteção no lance que é de quinto ou quarto. Só enxergo como aceitável esticar um lance mais fácil quando a queda for limpa, for tranquila. Ai sim é benéfico. Ajuda o escalador iniciante a trabalhar melhor o psicológico, enfrentando uma queda maior, mas que ele vai ver que não tem consequências.

Sou completamente contra a ditadura do “não pode cair” em vias esportivas. Esportiva é pra poder cair sim, tomar umas vacas e aprender com isso. No dia que eu quiser, como diz o meu amigo Alex, trabalhar o poder-do-cu-fechado, eu me meto numa via tradicional com exposição E4, ou vou fazer uma via em móvel sem saber se o micronut que eu meti na fenda vai segurar minha queda de 5 metros em cima dele. Até lá, quero continuar caindo seguramente nas vias esportivas, seja ela de terceiro ou de décimo grau.

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