Bate-papo com Felipe Ho

Na gringa já virou rotina. Vez por outra surge algum prodígio da escalada, escalando 8c francês com 12 anos. Aqui no Brasil, embora não seja tão comum, também temos nossos “young guns”. Em 2013 foi o ano que nós vimos um deles se destacar bastante na cena do boulder e esportiva. Estou falando do jovem escalador paulista, de apenas 14 anos, Felipe Ho Foganholo, de quem o Desce daí, doido! já escreveu por aqui antes.

Mas esses dias, repensando a minha promessas de entrevistas no blog (mais pra bate-papos mesmo, já que são mais descontraídos), o primeiro nome que me veio na cabeça foi o desse jovem talento. Então fiz o convite pra esse bate-papo e saber um pouco mais sobre ele, tanto o Felipe escalador, quando o moleque de 14 anos que ainda está no colégio.

Escalando em São Bento (Foto de Simony Blanco)
Escalando em Brasópolis, MG (Foto de Casa Laranja Produções)

Desce daí, doido: Vamos primeiro começar com a pergunta mais manjada das entrevistas de escalada: com que idade e como você começou a escalar?

Felipe Ho: Com 6 anos, na escola, Colégio Magno. Comecei com aulas de alpinismo com o professor Denis, num murinho de toprope que deveria ter uns 7 metros. Ai um belo dia, houve uma excursão escolar pra 90 graus, aí peguei gosto.

DD: E como é o apoio da família? Todo mundo acha legal, ou tem gente que ainda acha coisa de doido ou algo muito perigoso?

FH: Minha mãe, é a pessoa que mais me apoia a escalar. Meu pai acha legal, mais não se interessa tanto como ela. Meus tios da parte de mãe curtem o que eu faço, já o da parte de pai não gosta, embora tenha me dado uma sapata de natal…hahaha

DD: É…sempre tem um lado que não curte…e isso é verdade até pra “macaco véi” que nem eu…rs

FH: hahahaha

DD: Vamo lá a terceira…como é que tu faz pra conciliar as boas notas no colégio (tu tira boa nota? rs) com os treinos e as viagens de escalada?

FH: Então… minhas notas estão na média escolar, não são boas nem ruins, não me esforço muito pra que elas aumentem. Apenas o necessario nada além…hahahaha. Os treinos foi fácil de encaixar à tarde, 3 vezes por semana. O mais difícil é voltar de São Bento no domingo, destruído, às 23hrs da noite, e ter que acordar as 5h30.

DD: Quando tu não tá escalando, treinando ou estudando, o que tu gosta de fazer?

FH: Andar de long, ou sair com os brother.

DD: Tu vai começar o ensino médio esse ano né?

FH: Sim…hahahaha. 1º ano.

DD: E já pensa em fazer faculdade? Tem alguma ideia do que cursar?

FH: Pretendo fazer faculdade, mas não tenho muita ideia do que cursar. Antes gostaria de ser dermato, por causa do problema que eu tenho na minha pele, dermatite atópica, mas tem que estudar demais. E não daria pra trampar tipo 3 dias por semana e o resto climb. Preciso de uma profissão que me dê esse “luxo”.

DD: Tu tem algum ídolo? dentro ou fora da escalada…

FH: Desde que eu comecei a escalar tenho três ídolos: Cesar Grosso, o Paulo Gil e a Jan Cardoso.

DD: Que tipo de música tu curte escutar?

FH: Tudo man. Menos os funk. Mas meus estilos musicais preferidos são o Reggae e o Rap.

DD: Última pergunta do lado pessoal e a gente entrar no climb. Essa é pras amigas do colégio….solteiro, enrolado, namorando…? =P

FH: Status: pertencendo a todas…hahahaha

DD: Agora vamos pra a parte de escalada mesmo…tu segue alguma rotina de treino específica? Alguém te orienta nos treinos?

FH: Não possuo nenhum treinador, só alguns orientadores, mas ultimamente o Massa (Flavio Castagnari) tem me passado uns treinos irados de finger e campus. Na 90, eu sempre treinava minhas deficiências. Nunca gostei muito de abaulados, então treinava mais os abaulados. Me sentia fraco? Tirava duas semanas de boulders e finger. Menos resista? treinava resista. E assim fui indo, mas nunca ninguem me orientou atê fechar um ciclo.

DD: E quais são as tuas motivações na escalada? O que te faz querer progredir?

FH: A rocha, as superações de outros escaladores. Segundo massa: Las rutas dura que me motivan…hehehe

DD: Ano passado tu encadenou o teu primeiro 9c e o teu primeiro V10, com 14 anos. Tu esperava alcançar essas graduações com essa idade?

FH: Não, apenas escalava o que eu via e tinha vontade. Aí se o projeto me motivasse, nunca largaria.

DD: Sobre competições…tu curte competir? Tem alguma pretensão de participar no futuro de campeonatos internacionais?

FH: Adoro competir! Participei de apenas um Open Paulista de Boulder no intermediario adulto (cheguei em décimo há uns 2 anos), e um Brasileiro de Boulder, na minha categoria e ganhei. Mas nos próximos campeonatos vou entrar no intermediário adulto. Pretendo ir algumas vezes a competições internacionais, sim.

DD: Tu é claramente um apreciador do boulder e da escalada esportiva. Mas e as escaladas tradicionais? Também curte? Já fez alguma?

FH: Não curto muito a Trad, mas tenho absoluta certeza de que quando amadurecer um pouco meu conceito muda…hahaha. Já fiz 1 tradicional na Ana Chata.

DD: E conquistar? Pensa em conquistar alguma via num futuro próximo ou ainda é cedo?

FH: Nunca tentei, nem me interessei muito por isso, mas gostaria de furar umas vias pra formar minha opinião…hahaha.

DD: Tu e o Felipe Camargo tem mais em comum do que apenas o nome. Vocês dois dividem o mesmo aniversário, e tu tem seguido bem de perto os passos dele com a tua idade. Isso te motiva pra continuar trilhando um caminho parecido com o dele e chegar aos 22 anos no mesmo nível?

FH: Não escalo por números, mas a escalada que o Felipinho tem, me motiva muito saber que esses detalhes estão andando colados. Não quero escalar pra atingir o que ele atingiu. Quero escalar pra ver atê onde eu chego.

DD: Esse final de ano tu tava em Corupá tentando a cadena do teu primeiro 10a, que infelizmente não veio. Tu pode falar um pouco de como foi malhar a via e sair de lá sem a cadena?

FH: O 10a da Super Paust, é uma via que possui um boulder V6 no chão, porém V7 de cadena.  “Langos” como Garrinha, pegam duas agarras boas, e pulam todos os lances desse boulder.  Ninguém tinha levado a sério esse movimento de bote, até que eu me frustrei no boulder e decidi tentar a moda Lango, e dei o bote e parei.  Gabriel Jansen, com apenas 2 anos de escalada, me disse uma vez: sair sem a cadena do pico é melhor no quesito evolução, porque você para mandar a via tem que aprender o que ela tem que ensinar pra conseguir costurar a última, ter que treinar, voltar e mandar com sangue nos olhos.

Felipe Ho na Super Paust 10a em Corupá

DD: 2013 foi um bom ano pra ti em termos de cadenas. Isso já te rendeu algum apoio ou patrocínio?

FH: Sempre tive o apoio da 90 graus, academia que eu treino. Em 2013, rolou apoio da Hipnose, que produz saquinhos de maguina, rolou apoio da Trota Mundo, roupas desenhadas pelo estilista bacteriano Bizu…hahaha, e da Casa do Brother (loja de equipamentos). O apoio que eu mais curti que veio, foi o da 5.10 Brasil. 

DD: Quais são os planos pra 2014 em termos de vias e boulders?

FH: Tenho varios projetos. Quero fazer uma grande base no graus baixos, pra no futuro, eu poder aplicar essa “base” nas vias e boulders duros. Mas lógico que vou tentar chegar nos 10º e nos V dois dígitos.

DD: Agora umas rapidinhas…trip dos sonhos?

FH: Espanha e Rocklands na África.

DD: Uma via?

FH: Quero muito muito mandar a Super Heróis, mas lá fora não tenho nenhuma em especial.

DD: e um boulder?

FH: Story of Two Worlds, o  boulder atrás do Dreamtime. Aqui no Brasil quero mandar o Jacksparrow V10 em São Bento e o Dia Santo V13.

DD: pra fechar…um frase que te inspira.

FH: Tô tentando me lembrar de uma vez que o PG tava escalando comigo e me falou uma perfteita frase que eu não consigo lembrar. Então vai a frase que o Massa solta pra me zuar, que acaba me motivando: A vida embrutece! hahaha