Como foi o 10º Festival Pedra Rachada Bouldering

No último final de semana estive em Minas para participar do 10º Festival Pedra Rachada Bouldering. Por tudo que havia sido publicado e noticiado até a realização do evento, a expectativa era alta, e tenho que dizer que não decepcionou nem um pouco.

Cheguei em Belo Horizonte ainda na quinta-feira, mas só segui até Sabará na sexta de noite, indo direto até a Pedra Rachada, que eu já havia visitado uma vez em 2012, num rápido “night climb” com o Daniel Tiodan, Felipe Kbça, Roberta Resende e Caio Gomes de Niterói. Dessa vez deixei pra tocar na rocha apenas no sábado, e acabei ajudando um pouco na sinalização dos setores da Rachada. Mesmo tendo ido somente de noite lá, já deu pra notar a diferença, com a estrada ampliada pela prefeitura pelo evento, o que permitia levar o carro (apenas os mais robustos é verdade) até perto dos primeiros blocos.

O evento oferecia duas opções de estadia. Uma era o camping gratuito, numa espécie de clube de Sabará, com direito a piscina, e a outra era uma espécie de albergue, com banheiro privativo e até TV, por módicos R$30 a diária. Preferi a segunda opção pra evitar levar barraca, saco de dormir e isolante, e não me arrependi. A casa que fez as vezes de albergue para os escaladores me surpreendeu, como cama boa, banheiros muito bons e bem localizada na cidade.

Sábado acordei cedo esperando subir o mais cedo possível para a pedra, mas sem estar motorizado tive que dar um jeito de catar carona para a Pedra Rachada, e fui acompanhado na empreitada pelo Emerson, gaúcho que mora em Alagoas, e pelo Brandon, canadense de passagem por BH que resolveu conferir o festival.

Fica aqui  minha única sugestão para melhorar para o próximo evento. Quem sabe oferecer algum tipo de transporte para o pico com horários fixos de subida pela manhã e de retorno à noite seria uma boa para abarcar os escaladores que chegam sozinhos e sem carro. Claro que conseguir uma carona no meio da comunidade escaladora é fácil, mas seria interessante ter essa opção. No nosso caso, acabamos conseguindo carona com o Eric Dornelles e outros escaladores que estavam subindo para a Rachada por volta das 10h da manhã. O caminho já me deixou de boca aberta. Como nunca tinha ido até a Rachada de dia, fiquei deslumbrado pelo visual que se tem lá de cima. É possível avistar a Serra da Piedade, e lá ao fundo Cambotas. Paisagem fantástica!

Chegando na Pedra Rachada
Chegando na Pedra Rachada

Chegando no pico, a estrutura já estava armada para receber os escaladores, com mesa de café da manhã farta, e o registro e inscrições podendo ser feitos na hora, e cada participante ganhando uma cópia do Guia da Pedra Rachada, sobre o qual falarei um pouco mais na frente. A vibe já estava a mil, com vários escaladores já “apertando” nos boulders, e sem perder tempo também fomos escalar. Primeiro no Bloco 1, onde consegui escalar os boulders Aresta In V3, Pipe Line e  Don’t Worry, ambos V2 e o Easy V1. Acabei dando também uns pegas no No Stress the Blitz V5. Sem muito sucesso, resolvi guardar as forças para outros boulders.

Brandon no Aresta In V3
Brandon no Aresta In V3

Seguimos para o Bloco 2, onde fica um dos clássicos da Rachada, o Ziglyn V4, linha alta de movimentação bonita e que eu já havia dado uns pegas em 2012. Aproveitei a oportunidade e os crashs e dei dois pegas. Um saindo de baixo e outro tentando isolar a parte e cima, mas sem conseguir fazer a virada. Por lá eu vi a Grazie, escaladora de BH, fazer a cadena do Ziglyn e fiquei ainda com mais vontade de tentar a linha de novo, mas resolvi deixar para depois e subir com o pessoal até o bloco do Tubarão, com uma parada rápida no bloco do Pantaloneta, onde fiz o Buraco Louco V1.

No Tubarão ficamos tentando o boulder que batiza o setor, um lindo V5 que sai em um barbatana invertida, usando bastante calcanhar para ficar nas pequenas agarras dos dois lados da barbatana. De lá seguimos para o cume, onde resolvemos entrar no outro super clássico da Rachada, o Blood America V4. Talvez a linha mais fotogênica do pico, com a vista de toda a BH ao fundo. Já no escuro começamos as tentativas. Dei os primeiros pegas seguindo os betas da galera tentando, mas aí chegou o Eric e passou os betas dele. Entrei usando eles e encaixei bem na linha, quase mandando na primeira entrada com os betas novos, sendo um pouco atrapalhado pela headlamp que ficou querendo cair no meio da tentativa. Ainda dei mais uns dois pegas, mas a forças estavam nas últimas, e resolvi deixar para o outro dia.

Muita movimentação no bloco do Rolling Stones
Muita movimentação no bloco do Rolling Stones

Desci e fui conferir a estrutura lá embaixo, que já estava com a música do DJ rolando. Lá a barraca das comidas estava montada servindo caldos e feijão tropeiro, e também drinks. Comi alguma coisa e fiquei por ali acompanhando o movimento e conversando com o pessoal. Reencontrando velhos conhecidos, como o Gabriel Oliveria de Brasília, e conhecendo novos amigos, como o Gabriel Novaes, de Campo Grande no MS. Também bati um papo rápido com o Ian Ouriques e a matriarca da família. A vibe estava fantástica!

Lá em cima as luzes das headlamps dançavam entre os blocos, criando uma imagem fantástica, que ficou ainda mais surreal quando praticamente todos os escaladores resolveram descer ao mesmo tempo, criando um verdadeiro rio de luz. Absolutamente fenomenal! Pena que não deu pra registrar. Finalmente lá pela meia noite, o cansaço bateu e eu resolvi descer, pegando a carona do João Ricardo que também estava ficando no albergue.

O domingo era o último dia e eu queria chegar lá em cima o mais cedo possível, mas de novo só consegui chegar por lá meio dia. Mas de boa, era tempo suficiente pra mandar mais alguma coisa. A primeira entrada do dia acabou sendo no Ziglyn. Admito que não estava muito afim de entrar, já que havia menos crashs que o dia anterior e ia ser meu primeiro pega do dia, ainda frio. Mas o Esteban do Rio botou a pilha e eu resolvi entrar. E foi com a vibe dele que saiu da cadena do Ziglyn, logo no primeiro pega do dia. Nem acreditei quando virei o bloco, e tive que agradecer o incentivo do Esteban, porque se não fosse por ele eu talvez não tivesse entrado.

Dali subi com o Brandon para o bloco do Rolling Stones, onde mandamos os boulders Cuidado aí V3 e Esquerdinha V4. Dali subimos até o bloco da Aresta Visual, onde acompanhei o Gabriel Novaes encadenar a linha, tentando com vontade e sem medo. Legal de ver! Dali fomos para o Viradinha Nacional, outro V4, que após ver a galera entrar e ficar pilhado com a agarra mais maluca que já vi na vida, uma mistura de entalamento e pinça, resolvi tentar também. Fiquei junto com o Gabriel Novaes tentando várias vezes, e chegamos bem perto da cadena, mas resolvemos deixar pra lá.

No Esquerdinha V4
No Esquerdinha V4

A próxima parada era o cume, mas antes de chegar lá, recebi a ligação do Tiodan me chamando pra descer. Era hora de ir embora e deixar a Rachada sem o Blood America, que eu tinha certeza que ia sair. Mas é isso mesmo, as vezes ficam os projetos que nos fazem querer voltar, e eu com certeza vou voltar na Rachada ano que vem!

O Guia

Agora vamos falar um pouco sobre  o Guia da Pedra Rachada. A primeira impressão ao ter o guia nas mãos é de algo de alta qualidade, já que a o material é muito bom e a foto de capa é fantástica. Mas é folheando que você tem certeza que o guia é o que de melhor se produziu até hoje nessa linha aqui no Brasil, pelo menos entre os quais tive contato.

Uma espiada no interior do guia
Uma espiada no interior do guia

Está tudo ali! Se você quiser escalar na Pedra Rachada hoje, sem ter ninguém pra lhe acompanhar, não vai encontrar problemas, pois o guia deixa claro como chegar em Sabará e de lá na Pedra Rachada, e uma vez lá é fácil identificar no guia onde está cada bloco, cada linha, como chegar nelas e de onde sair em cada uma. Como designer, devo dizer que fiquei muito satisfeito com as soluções encontradas pelos idealizadores para facilitar a consulta e permitir que se ache exatamente o que se quer.

O guia é estruturado em setores, que compreendem uma certa quantidade de blocos. No início de cada setor existe uma breve descrição de como chegar até ele, um mapa com a posição dos blocos que forma o conjunto, juntamente com uma contagem de quantos boulders em cada nível de graduação (o que já lhe dá uma ideia se é um setor onde você vai conseguir se divertir ou ter que trabalhar duro), e uma lista das linhas mais clássicas em ordem ascendente de dificuldade, para os que quiserem escalar apenas o melhor do setor. Cada bloco tem as linhas traçadas de forma clara, e cada linha tem uma breve descrição de como começar e por onde fazer a virada. Em resumo, é como ter um local te passando todos os betas!

Para deixar tudo melhor ainda, as fotos que ilustram o guia são fantásticas, com cliques do Gabriel Oliveira, Vitor Maciel, Murilo Vargas, Bruno Graciano e Tom Alves dos melhores e mais clássicos boulders do pico, pra deixar você com vontade de escalar cada um deles.

O guia é fechado com um índice com todas as linhas, mais de 500, organizadas tanto em ordem alfabética, como por grau, com a indicação da página onde se encontra cada uma.

O Guia fez parte do kit dos escaladores que participaram do Festival, mas ele também pode ser adquirido avulso pelo valor de R$ 60,00 e deve estar a venda em breve nas lojas especializadas e nas academias de todo o país!

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