E o campeão brasileiro de escalada é…

Com certeza você, leitor antenado com o mundo da escalada nacional, já notou que o cenário de competições nacionais está um tanto, digamos, confuso. Não é à toa. Afinal de contas, nós saímos de um cenário onde não estavam acontecendo campeonatos brasileiros, pra uma realidade onde hoje temos 2 e não apenas um. Olha ai, que legal! Não é? Bem, nem tanto.

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E o campeão brasileiro é…

Vou tentar escrever aqui sobre o que está rolando, e obviamente, vou me posicionar em relação ao que eu acho mais correto e mais justo.

O que rola: Até 2012 a CBME era a única entidade que governava a escalada no Brasil. Isso incluindo as competições. A CBME, até aquele ano, era obviamente filiada ao órgão máximo da escalada mundial, o IFSC, International Federation of Sport Climbing. É público e notório, que nunca foi fácil organizar competições no Brasil, e a CBME sempre teve dificuldades em manter um calendário de competições constante. Em 2013, depois de um ano sem nenhuma etapa de Campeonato Brasileiro, seja de Boulder ou Dificuldade, a CBME anunciou que estava se desfiliando do IFSC, por não ter recursos para pagar a anuidade de membro, que gira em terno dos 2mil Euros. Isso deixou alguns atletas que estavam se preparando para campeonatos mundiais desnorteados, e jogou incertezas no cenário de competições nacional, já meio ruim das pernas.

No meio dessa discussão toda, um grupo de atletas resolveu criar uma nova entidade para tentar colocar as competições de volta nos trilhos, e se dedicar somente ao aspecto competitivo da escalada. Buscou o apoio do IFSC, e em 2014 nasceu a ABEE, Associação Brasileira de Escalada Esportiva, que passou a ser a única entidade representante do IFSC em terras tupiniquins. Ainda em 2014 a ABEE organizou o seu Campeonato Brasileiro de Boulder e de Dificuldade, que teve uma participação muito boa dos atletas, e recebeu vários elogios. As competições serviram para criar o Ranking Brasileiro das duas modalidades, em suas diversas categorias.

Veio 2015, e a ABEE já estava com tudo engatilhado para mais um ano de competições, buscando manter o compromisso que assumiu publicamente de manter um calendário de competições constante. A CBME então anuncia uma competição organizada por ela, que também chama de Campeonato Brasileiro.

E agora? Qual dos dois é o oficial? Temos duas entidades independentes, que estão “brigando” para ser a detentora da mais importante competição de escalada do país. Como dizer qual é o mais relevante e que merece ostentar o título de “Campeonato Brasileiro de Escalada”? Afinal de contas, como no Highlander, “There can be only one”!

Eu tenho minha opinião formada, que é meramente pessoal. Não tem pretensão de ser decisão final. Tem uma certa dose de passionalidade, já que estou envolvido com a ABEE, mas nem por isso deixa de se basear em aspectos concretos, os quais vou enumerar.

No meu modo de ver, essa querela toda se resume basicamente a dois pontos, para decidir quem vai ser o “dono” do Campeonato Brasileiro de Escalada: Representatividade e Responsabilidade.

Representatividade

No quesito representatividade entra dois aspectos. O primeiro diz respeito à representatividade da instituição para os atletas. Os atletas reconhecem aquela instituição como a mais importante, a principal? Se sentem representados por ela? No cenário brasileiro, representatividade sempre foi um problema entre escaladores e entidades. No campo das competições mais ainda. A ABEE veio de certa forma preencher essa lacuna. Embora eu não possa dizer ainda de que ela goza de total reciprocidade de representatividade com seus filiados, a adesão das competições, mesmo com a necessidade de se filiar diretamente a ABEE para competir, dá uma boa mostra de que a ABEE foi muito bem recebida pelos atletas, e que essa relação só tende a se fortalecer.

No segundo aspecto entra a da representatividade à nível internacional. A ABEE é a única entidade filiada ao IFSC aqui no Brasil. É preciso deixar claro que enquanto a ABEE for membro do IFSC, nenhuma outra entidade nacional pode ser. E não há espaço para disputas. A vaga é da ABEE, e só vai deixar de ser se ela escolher se desfiliar, ou o IFSC a expulsar. Logo, a ABEE é a única que pode licenciar atletas para competir em mundiais. Isso acaba dando mais peso ao Ranking ABEE, que vai ser o único reconhecido internacionalmente, e que com o tempo, deve servir de base para formar uma seleção brasileira de escalada que irá representar o país nas competições oficiais IFSC. O mesmo não pode ser dito da CBME, que por escolha própria resolveu se desfiliar do IFSC, abrindo mão dessa representatividade internacional.

Responsabilidade

No campo da responsabilidade, temos que ver quem está realmente assumindo o compromisso em manter as competições acontecendo, custe o que custar. Todos sabemos que organizar competições no atual cenário nacional é bastante difícil. Por vezes frustrante. Mas se uma entidade quer organizar o “Campeonato Brasileiro de Escalada”, com toda a autoridade, ela tem que estar 100% comprometida em assumir a responsabilidade pela realização dos eventos.

Em 2013, o ano que não tivemos competições nacionais, eu lembro muito bem que a CBME de certa forma se eximiu da responsabilidade de organizar as competições, deixando ela praticamente toda nas mãos das Federações estaduais, que além de terem que pagar uma taxa para receber o evento, assumiam total risco financeiro de organizar as etapas. No papel, é extremamente profissional, e creio que funcione assim no nível IFSC/Federações Nacionais. Mas na realidade brasileira, onde as Federações mal têm dinheiro para pagar a anuidade da CBME, é algo completamente inviável. O que aconteceu foi que Federação nenhuma se interessou em realizar etapas em 2013 nesses termos, e a CBME em vez de assumir a responsabilidade e arregaçar as mangas ela mesma, deixou pra lá.

A ABEE já tem uma abordagem diferente. As parcerias foram firmadas diretamente entre ABEE e os ginásios, únicos espaços hoje capazes de realizar competições desse porte. O ginásio assume parte da responsabilidade da organização e de conseguir recursos, mas a ABEE age ativamente na organização e na busca de recursos, e assume total responsabilidade de fazer fechar o caixa caso seja necessário. Ou seja, a ABEE está disposta a engolir o prejuízo financeiro caso a etapa não se pague. Tudo para fazer o evento acontecer.

Colocando tudo isso, pra mim fica claro que a ABEE é oficialmente a representante maior do aspecto competitivo da escalada hoje no Brasil. Pois tanto tem o respaldo internacional do IFSC, como assume total responsabilidade em manter as competições acontecendo. Logo, se tem alguma entidade que poderia “coroar” um campeão ou campeã brasileiros de escalada, seria ABEE.

Obviamente que isso não se encerra aí. Os atletas tem um peso nessa decisão, e é inevitável que vá existir alguma divisão entre eles. Mas esse é o momento de cada um fazer uma análise do cenário e pesar o que vai ser melhor para o esporte no longo prazo. Eu sinceramente acredito que o melhor seja a ABEE.

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