IFSC vende direitos de transmissão dos eventos mundiais para serviço de streaming

Ontem a comunidade escaladora mundial recebeu uma notícia que caiu como uma bomba. A apenas 3 dias do início da Copa do Mundo de Boulder, a Federação Internacional de Escalada Esportiva (IFSC) anunciou que a partir desse ano, e durante 3 anos, a transmissão dos eventos mundiais (Copa do Mundo e Campeonatos Mundiais) será feita por um serviço de streaming. O problema? O serviço de streaming é pago!

O serviço de streaming que fechou o contrato com o IFSC é FloSports, uma empresa americana especializada em transmissões online de eventos esportivos. Para ter acesso ao conteúdo do site é preciso fazer a assinatura do serviço que, no plano mais barato, sai por $12,50 mensais (cobrado anual). Alternativamente pode se escolher pela cobrança mensal, cujo valor fica na “bagatela” de $20. Mais caro que o Netflix.

O contrato com a FloSports marca o fim das transmissões gratuitas dos eventos do IFSC que já estávamos acostumados. Embora as transmissões oficiais do IFSC não fossem perfeitas, estavam melhorando ano a ano e o esperado era que, com a inclusão nas Olimpíadas, elas dessem um salto qualitativo considerável. O que ninguém esperava era que para isso acontecer, as transmissões passariam a ser pagas.

Um tiro no pé

A decisão do IFSC de vender os direitos de transmissão para um veículo pago é, sem dúvida nenhuma, um verdadeiro tiro no pé. A escalada ainda é um esporte de baixíssima popularidade e que precisaria ainda de um bom tempo para dar retorno financeiro com direitos de transmissão. Hoje em dia são poucos os esportes que conseguem atrair público suficiente exclusivamente para serviços pagos.

Aqui no Brasil, creio que apenas o Campeonato Brasileiro de Futebol, o UFC, e mais recentemente a febre da NFL, conseguem atrair público suficiente para o serviços de TV paga e Pay-per-view de forma sustentável. Sem contar que o Campeonato Brasileiro também pode ser assistido na TV aberta e você paga somente se quiser acompanhar todas as partidas. A verdade é que a escalada esportiva ainda não tem público suficiente nem para se fazer rentável na TV aberta, quanto mais num serviço pago.

Não tenho acesso a números, mas depois de acompanhar várias etapas de Copa do Mundo e Campeonatos Mundiais, me surpreenderia muito se a média de espectadores dos eventos do IFSC em seu canal do Youtube ultrapassar os 5mil. Achou muito? Agora pense que são 5mil no mundo inteiro! Muito pouco não é?

O caminho que o IFSC devia ter escolhido seguir é o do Surf. A World Surf League (WSL), mesmo tendo patrocinadores de peso ainda transmite seus eventos de forma gratuita pela internet, com ótimos comentaristas, boa edição e gráficos em tela. Talvez a escolha da WSL seja devido ao formato. Uma competição de Surf pode levar horas e horas e talvez isso não atraia tanto o interesse das redes de TV, muito embora existam esportes que tem transmissão televisiva que podem demorar tanto quanto. Mas o ponto é que a WSL, enquanto não surge interesse das redes de TV, preferiu manter as transmissões online grátis a “elitizar” o negócio e dar exclusividade de transmissão para um serviço pago.

O IFSC inverteu a ordem natural das coisas. Primeiro você ganha popularidade para atrair o interesse das redes de TV aberta. Só depois, bem depois, é que você pode pensar em mover as transmissões somente para a TV paga ou mesmo um serviço de Pay-Per-View. Claro que pra tudo há excessões, mas a não ser que você seja o UFC, desculpe, não vai funcionar.

Repercussão negativa

Como era de se esperar, a notícia não foi recebida com bons olhos pela comunidade escaladora mundial. A publicação do IFSC no facebook divulgando a notícia foi dominada de comentários criticando a escolha. A maioria já afirmando que não vão pagar os $20 para assistir as competições. Um abaixo-assinado online já foi criado com o intuito de pressionar o IFSC e alguns atletas de elite também entraram no coro e criticaram abertamente a decisão do IFSC. O escalador basco Patxi Usobiaga, o alemão Alex Megos e o tcheco Adam Ondra, publicaram em suas contas no Instagram críticas à decisão do IFSC. Até mesmo a federação de escalada da Áustria tornou público o seu descontentamento com a decisão.

Com tanta repercussão negativa, fica a dúvida se o IFSC vai honrar o contrato com a FloSports ou vai voltar atrás da decisão. Agora é esperar para ver. Mas como ávido espectador da competições de escalada, sinto informar que vai ficar difícil acompanhar tendo que desembolsar mais de R$60 para assistir a 3 eventos por mês (na melhor das hipóteses).

Que bola fora, IFSC.

Atualizado quinta 06/04 às 16h

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