Tudo que você precisa saber sobre a Escalada nas Olimpíadas

Estamos a menos de 500 dias dos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio, onde a escalada vai fazer a sua estréia. Muita coisa já está definida sobre esse “debut” do esporte nos jogos: a quantidade de medalhas, o modelo de competição, as seletivas, etc. Por isso achei que o momento é o ideal para fazer um guia (quase) definitivo sobre a Escalada nas Olimpíadas!

A escolha

Em 2014 o Comitê Olímpico Internacional (COI) lançou um documento com as novas diretrizes para os futuros jogos, The Olympic Agenda 2020. Nessas novas diretrizes foi incluída a possibilidade das cidades sedes dos jogos terem a flexibilidade de indicarem novos esportes para fazer parte do seu programa, abrindo assim espaço para a inovação.

Tóquio foi a primeira sede a poder fazer uso dessa nova regra. Em 2015 o comitê organizador entregou ao COI a sua proposta dos 5 novos esportes que fariam parte dos jogos de 2020 e a Escalada estava na lista. Em 2016, na assembléia do COI após os jogos do Rio, a lista foi aprovado e a Escalada, juntamente com o Skate, Baseball/Softball, Karate e Surf, entraram para o programa Olímpico em 2020.

O modelo de disputa olímpica

O modelo de disputa da Escalada para os Jogos de 2020 foi um tanto polêmico assim que anunciado. Alguns escaladores como Adam Ondra chegaram a se manifestar contra. O evento traria os atletas disputando um evento combinado das três modalidades oficiais do IFSC: Velocidade, Boulder e Dificuldade. O modelo foi de certa forma um “meio termo” seguro que o IFSC utilizou para garantir mais chances da escalada entrar nos jogos. A aposta foi certa e a escalada garantiu seu lugar em Tóquio, oferecendo um total de 6 medalhas: 2 de ouro, 2 de prata e 2 de bronze, que serão disputadas por 40 atletas no total, 20 de cada sexo.

Desde a inclusão da escalada nos jogos o novo formato combinado olímpico foi testado durante o Campeonato Mundial ano passado, somente replicando a final, e também nos Jogos Olímpicos da Juventude em Buenos Aires, onde o evento como um todo foi reproduzido com as qualificatórias e final. Esse ano os EUA também já realizou um evento combinado nos moldes olímpicos e a ABEE planeja também algo no formato em julho.

A Escalada nos Jogos Olímpicos da Juventude em Buenos Aires (Foto: The Circuit Climbing/Eddie Fowke)

No total serão duas fases no modelo de disputa olímpico: qualificatórias e final. As qualificatórias acontecem com todos os 20 atletas classificados em cada sexo. Na velocidade, a fase qualificatória será exatamente igual à fase qualificatória nas competições de velocidade nos campeonatos mundias: uma bateria de tomada de tempo, com cada atleta podendo fazer uma tentativa em cada via da parede. No boulder, a qualificatória será como uma semifinal de campeonato mundial: 4 boulders escalados à vista, com 5 minutos de tentativas em cada boulder. Na dificuldade, a qualificatória também será como em uma semifinal: apenas uma via escalada à vista com 6 minutos de tempo limite.

Terminadas as qualificatórias as posições dos atletas em cada modalidade serão multiplicadas e os 8 com os menores resultados passam para a final, que passou por algumas adaptações recentemente.

Na final as 3 modalidade serão disputadas uma depois da outra, com apenas um tempo mínimo de descanso entre cada uma, na seguinte ordem: Velocidade, Boulder e Dificuldade.

A final da Velocidade será, como nas finais do Mundial, com a disputa direta entre os atletas, que estarão chaveados segundo suas colocações nas qualificatórias: o primeiro enfrenta o oitavo, o segundo enfrenta o sétimo e assim por diante. Os vencedores avançam para a próxima fase e assim seguem até a grande final, entre os dois últimos atletas. A diferença aqui será que os perdedores da primeira rodada se enfrentarão entre si para definir as colocações do quinto ao oitavo, algo que não acontece no Mundial onde essas colocações são definidas apenas pelo tempo.

A final do Boulder, diferente das finais no Mundial, serão disputadas em apenas 3 boulders, com o tempo de 4 minutos em cada um. A ordem de entrada no Boulder será a ordem inversa do resultado na Velocidade.

A última modalidade, e que pode definir os grandes campeões olímpicos será a Dificuldade, disputada em apenas uma via escalada à vista, com 6 minutos de tempo limite. Diferente dos mundiais, em caso de empate entre dois atletas nessa modalidade na final, o desempate se dará diretamente pelo tempo de escalada. O atleta que tiver escalado em menos tempo fica melhor colocado.

O ranking final é conseguido do mesmo modo que nas qualificatórias: as colocações em cada modalidade serão multiplicadas e o menor valor fica com o ouro.

As seletivas

No final do ano passado o IFSC fechou oficialmente como serão as disputas das seletivas para os jogos. Do total de 40 vagas, apenas 36 estão oficialmente em disputa, já que 2 estão garantidas para o país sede, o Japão, e outras 2 são vagas de inclusão, com os atletas sendo indicados pelo COI e o IFSC.

O primeiro evento a carimbar o passaporte de atletas para as Olimpíadas é o Campeonato Mundial, que acontece no Japão em Agosto. Serão 7 vagas por sexo, para os melhores no combinado, respeitando o limite de 4 atletas por país.

O próximo evento válido como qualificatória será um evento especial seletivo, que acontecerá em Toulose na França, no final de Novembro. Contudo, esse evento seletivo não será aberto e os atletas terão que se classificar para participar. A porta de entrada para Toulose será o Ranking Combinado da Copa do Mundo, que já começa em Abril com o Boulder e se estende até o final de Outubro, com a última etapa de Dificuldade. Os 20 melhores no ranking combinado, de cada sexo, que ainda não tenham se classificado para as Olimpíadas no Mundial, garantem a vaga na seletiva, e lá, os 6 melhores de cada sexo garantem a presença nos jogos, respeitando sempre o limite de 4 atletas por país.

A essa altura já terão sido distribuídas 26 vagas (mais as de país sede e de inclusão), restando apenas mais 12 lugares, que serão entregues pelos eventos continentais que acontecem no começo de 2020: Panamericano, Europeu, Asiático, Africano e Oceania. Cada evento continental vai conceder uma vaga por sexo, fechando assim a conta das 40 vagas no total.

As chances brasileiras

Como todo brasileiro eu gostaria de ver a bandeira verde e amarela no lugar mais alto do podium nas Olimpíadas. Contudo temos que ser realistas e aceitar que nosso grande objetivo para esse jogos não é estar no podium e sim, estar em Tóquio (o que por si só não vai ser uma tarefa fácil).

Talvez a melhor chance de um escalador brasileiro estar nos Jogos Olímpicos de 2020 seja através do Panamericano, que será disputado no começo do próximo ano em Los Angeles. Apesar do Panamericano conceder apenas uma vaga por sexo, é onde nossos atletas podem se superar e surpreender.

Nossos maiores adversários em um Panamericano são obviamente os norte americanos. No último Panamericano no Equador eles foram uma grande força, emplacando 3 dos 6 finalistas do combinado e em 2020, escalando em casa, serão difíceis de bater. Mas caso os atletas norte americanos consigam suas duas vagas em eventos como o Campeonato Mundial ou a Seletiva em Toulouse, eles chegariam no Panamericano já sem disputar vagas, deixando o caminho mais livre para os sul americanos, incluindo o Brasil.

Cesar Grosso durante o Panamericano de Escalada no Equador (Foto: Carol Coelho)

No Equador, que já contou com uma final no modelo combinado, Cesar Grosso conseguiu o ótimo quinto lugar. Pode parecer pouco, mas não faltou muito para Cesinha chegar ao podium. Com ainda praticamente um ano para treinar até lá, o Panamericano é estratégico e Cesar Grosso a nossa melhor chance de ver o Brasil em Tóquio.

O futuro nos jogos

Apesar de a Escalada ainda não estar 100% garantida nos jogos de Paris de 2024, o anúncio o comitê organizador em fevereiro deixou a comunidade animada. A Escalada Esportiva foi um dos 4 esportes adicionais indicados para o programa dos jogos na capital francesa.

Além de ser indicada para permanecer, a proposta para a escalada é de ampliar o programa de 2020. Em vez de uma disputa combinada nas três modalidades, seriam duas disputas: uma isolada de velocidade com 16 atletas por sexo; e uma combinada de Boulder e Dificuldade com 20 atletas por sexo. Isso aumentaria o total de medalhas para a Escalada em Paris e o número total de atletas nos jogos, saindo dos atuais 40 para 72.

Ainda faltam mais dois estágios para a Escalada ser oficialmente confirmada em Paris e eles devem acontecer ainda esse ano.

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