Janja Garnbret e Tomoa Narasaki são os grandes vencedores do Mundial de Escalada

Terminou! Foram mais de 10 dias de muita ação em Hachioji durante o Campeonato Mundial de Escalada 2019, um grande evento que marcou o início da corrida olímpica ao ser o primeiro a classificar atletas para os jogos. As disputas em todas as modalidades foram emocionantes, com grandes momentos de superação e também falhas que custaram muito caro a alguns atletas. Ao final de todas as disputas, dois nomes se consagraram como os grandes campeões: Janja Garnbret, mais uma vez quase perfeita, levou pra casa 3 ouros (Boulder, Dificuldade e Combinado) e Tomoa Narasaki ficou com 2 (Boulder e Combinado), além é claro, das vagas olímpicas.

Janja absoluta entre as mulheres

Essa era talvez a aposta mais fácil de todo o Mundial: a eslovena Janja Garnbret ia vencer. De novo! Pela terceira vez ela se tornou Campeã Mundial, mas não apenas de uma modalidade. Ela levou pra casa o título no Boulder e na Dificuldade, se tornando a primeira mulher a ganhar os dois títulos no mesmo evento, e ainda ficou com o título do Combinado.

Janja Garnbret insuperável mais uma vez em Hachioji (Foto: Eddie Fowke/IFSC)

Ela passou pelas qualificatórias sem sustos. Nos Boulders, 5 tops flash, e na Dificuldade a única a fazer top nas duas vias. Primeiro novamente nas semifinais e durante as finais em nenhum momento ela pareceu estar ameaçada, com a exceção do Combinado.

E aqui cabe um aparte sobre o combinado, disputado pela primeira vez no exato modelo de disputa olímpica: vai ser bonito e emocionante de assistir.

Nas finais do Combinado, que começam com a disputa da velocidade, já era esperado que Janja não saísse na dianteira, mas com certeza ela não esperava terminar na 6ª colocação entre as 8 finalistas. A vitória nessa primeira etapa ficou com a especialista da velocidade, a polonesa Aleksandra Miroslaw e o segundo lugar com inglesa Shauna Coxsey, que não conseguia acreditar que tinha ido tão bem. Mas a segunda modalidade era o Boulder e a chance de virar o jogo. Mas Janja não encaixou nos problemas e saiu dessa etapa com apenas 1 top e 2 zonas, na 2ª colocação na modalidade e em 4ª no geral. A japonesa Akyo Noguchi venceu no Boulder e saltou para o 1º lugar no geral, seguido de Shauna Coxsey, que ficou em 3º lugar no Boulder.

A última modalidade na disputa era a Dificuldade, a especialidade de Janja, na qual ela conquistou o seu primeiro título Mundial em 2016. O único modo de Janja garantir o título Combinado era vencendo a prova da Dificuldade. Qualquer outro resultado ela ficaria dependendo das colocações de Akyo Noguchi e Shauna Coxsey e em como isso impactaria o score final. A jovem japonesa Ai Mori escalou primeiro, abrindo a disputa com um top, mesmo depois de ter errado a leitura no primeiro trejo da via e ter tido que consertar. Com o Top ela deixou claro para as demais que para superá-la só havia um meio: escalar rápido; já que na Dificuldade dentro do Combinado o tempo é o principal desempate. E foi o que Janja fez, com perfeição! Escalando rápida e precisa, Janja clipou a última costura faltando 1:01 para terminar o tempo, escalando 21 segundos mais rápido que Ai Mori. Título Combinado. Terceira medalha de Ouro no Mundial e passaporte carimbado para os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020.

Podium Combinado feminino: Janja, Akiyo e Shauna (Foto: Eddie Fowke/IFSC)

A consagração de Tomoa e o deslize de Ondra

No lado masculino o grande nome para ficar com o título combinado era, sem dúvidas nenhuma, Adam Ondra. E talvez até ele acreditasse que sairia de Hachioji com a vitória e a vaga para as Olímpiadas. Mas nem tudo correu como o tcheco esperava, e quem saiu consogrado deste Mundial foi o japonês Tomoa Narasaki, que levou o bicampeonato no Boulder e ficou também com o título combinado. Mas o caminho de Tomoa até lá não foi tão fácil quanto o de Janja, e tudo parecia estar mesmo se encaminhando para a vitória de Adam Ondra.

Nas qualificatórias do boulder, Ondra avançou em primeiro com 5 tops e 5 zonas, enquanto Tomoa ficou com a 5ª colocação com 4 tops e 4 zonas. Nas semifinais o roteiro se repetiu. Mais uma vez Ondra na frente, 3 tops e 4 zonas contra 2 tops e 4 zonas de Tomoa. Ondra dominava a narrativa da competição e parecia que se manteria assim até a final. Mas na última fase o impensável aconteceu. Adam Ondra passou pelo primeiro boulder em branco. Sem zona e sem top, enquanto todos fizeram a zona e Tomoa foi o único a fazer o Top. No segundo boulder o mesmo, zona para todos, menos para Kokoro Fuji e Ondra. No terceiro boulder ficou claro que Ondra havia sentido o baque e não iria se recuperar. De novo, nem zona para Ondra. Tomoa enquanto isso, tratou de pavimentar a vitória e marcou mais um Top.

Tomoa comemorando o Top no M3 (Foto: Daniel Gajda/IFSC)

Tomoa entrou no quarto e último boulder com a vitória garantida. Com 2 Tops e 3 zonas ninguém mais seria capaz de alcançá-lo. Foi mais um boulder difícil. Tomoa marcou mais uma zona e ficou com a vitória enquanto Ondra mais uma vez saiu de mãos vazias. Foi realmente impressionante ver Adam Ondra terminar a final com zero em todos os boulders.

Na dificuldade Ondra se recuperou, ficou com o título, seu terceiro, se igualando ao lendário Françoise Legrand, e garantiu a vaga entre os 20 que iriam disputar o evento combinado. Era a chance de Ondra de se redimir e voltar pra casa com o seu principal objetivo: a vaga nos Jogos Olímpicos.

Adam Ondra comemorando muito a vitória na Dificuldade (Foto: Eddie Fowke/IFSC)

Mas logo na primeira prova das qualificatórias do combinado, a Velocidade, parecia que as coisas não iriam ser fáceis. Ondra ficou com o último tempo, adicionando 20 pontos ao seu score, o que forçaria ele a ir muito bem nas outras duas modalidades. Outro que não se deu bem na velocidade, apesar de ser reconhecidamente bom entre os não especialistas, foi Sean McColl. Ele que poderia muito bem ter sido um dos primeiros, acabou amargando o 17º tempo e assim como Ondra teria que correr atrás do prejuízo. Tomoa, que não é especialista em velocidade, mas que tem uma técnica criada por ele que é copiada por outros atletas, fez o 4º melhor tempo e avançou para o Boulder com tranquilidade, precisando apenas manter a média para ficar entre os 8 finalistas.

No Boulder, quem brilhou foi Alex Megos. Com 4 tops e 4 zonas ele liderou com facilidade a disputa e saltou para os primeiros no quadro geral. Tomoa manteve a média e ficou em 4º, enquanto Ondra mais uma vez não conseguiu performar à altura de suas capacidades e ficou apenas em 6º. Todas as fichas de Ondra agora estavam na última etapa, a Dificuldade, onde só a vitória o garantiria na final do combinado sem depender de nenhum resultado.

Na dificuldade mais uma vez Megos brilhou. Ele estabeleceu a marca mais alta com 37+, seguido de Jakob Schubert, com 36. Ondra foi o penúltimo a escalar, antes apenas de Tomoa. Ondra precisava do Top. Escalando com seu habitual estilo, rápido e extremamente preciso, Ondra avançou em pouco tempo até a agarra 34 e parecia que iria continuar até o final quando seu pé escorregou e ele caiu. A expressão no rosto de Ondra enquanto desatava o nó da corda era a de extrema angústia. Ele sabia que aquilo poderia custar a ele a vaga na final e nas Olimpíadas. No fim, os 34+ marcados por Ondra seriam suficientes para a classificação do tcheco, mas em um jogo de bastidores, outros países entraram com uma apelação reclamando de um toque de Ondra em uma das chapas de proteção, mais precisamente a terceira chapa. Depois de vários minutos de apreensão, a decisão final dos juízes: Ondra havia tocado a chapa com o pé direito e por isso ficaria com a pontuação da agarra que ele estava no momento, a 10. Ondra caiu para a penúltima colocação na modalidade e ficou de fora das finais e viu o sonho olímpico ser adiado.

Na grande final do combinado, as chances de Tomoa foram renovadas com a ausência de Ondra e ficaram ainda maiores quando na primeira prova, a velocidade, ele bateu o francês Mickael Mawem na segunda rodada e avançou para a disputa do 1º lugar com o atleta do Cazaquistão Rishat Khaibullin. Mesmo perdendo a disputa Tomoa se colocou em uma ótima posição, já que a prova seguinte, o Boulder, é um dos seus pontos fortes. No Boulder quem poderia ameaçar uma vitória de Tomoa seria o alemão Alexander Megos, mas logo no primeiro boulder Megos sentiu o dedo, e percebendo que a lesão era grave, decidiu abandonar as finais. O caminho estava livre para a vitória de Tomoa, que conseguiu o Top nos 3 boulders da final e ficou muito perto do título.

Na dificuldade, Jakob Schubert escalou com técnica invejável e conseguiu o único Top da final. Tomoa conseguiu ainda o 2º lugar na modalidade e ficou com o título com sobra, com um score final de apenas 4 pontos (2x1x2). Schubert ficou com o 2º lugar geral, e Rishat Khaibullin, ficou com o 3º.

Podium Combinado Masculino: Tomoa, Jakob e Rishat (Foto: Eddie Fowke/IFSC)

Novo campeão e polônia novamente no topo na velocidade

Nas disputas da Velocidade alguns grandes nomes da modalidade, como o francês Bassa Mawem e o iraniano Reza Alipour acabaram saindo mais cedo da competição que o esperado, o que abriu espaço para nomes menos conhecidos, como o do italiando Ludovico Fossali, que chegou na final depois de avançar nas duas corridas anteriores porque seus adversários queimaram a largada. Mas na final Fossali mostrou força, e em uma final emocionante contra o tcheco Jan Kriz, Fossali bateu primeiro, após os dois atletas errarem uma passada no meio da via, exatamente no mesmo lugar e teram que buscar uma recuperação. Em terceiro ficou o russo Stanislav Kokorin.

A disputa emocionante entre Fossali e Kriz (Foto: Eddie Fowke/IFSC)

No feminino, a atual campeã mundial, a polonesa Aleksandra Miroslaw não teve problemas em levar o título contra a chinesa Di Niu. Escalando muito rápido, bem próximo ao recorde mundia, Aleksandra terminou bem à frente da chinesa e garantiu um lugar nas disputas do combinado e, mais à frente, uma vaga nos Jogos Olímpicos de 2020.

Os primeiros atletas Olímpicos

O Mundial em Hachioji foi emocionante em todas as suas modalidades e a briga pelos títulos foram acirradas e bem disputadas, mas não há como negar que o objetivo principal da maioria dos atletas era conquistar uma vaga para as Olimpíadas em Tóquio ano que vem.

As vagas, 14 no total, iriam para os 7 melhores atletas colocados no Combinado, tanto no feminino quanto no masculino, mas com uma cota máxima de 2 atletas por país por sexo. E foi essa regra que acabou classificando atletas que terminaram no combinado além da 7ª colocação.

No feminino ficaram com as vagas por terem terminado entre as 7 primeiras a eslovena Janja Garnbret (1º), as japonesas Akyo Noguchi (2º) e Miho Nonoka (5º), a inglesa Shauna Coxsey (3º), a polonesa Aleksandra Miroslaw (4º). Como nas 6ª e 7ª colocações ficaram atletas do Japão, que já havia preenchido sua cota de 2 atletas no feminino, as outras duas vagas remanescentes foram para a suiça Petra Klinger (8º) e a norte americana Brooke Raboutou (9º).

A emoção de Aleksandra Miroslaw ao saber que havia conseguido a vaga para Tóquio 2020 (Foto: Eddie Fowke/IFSC)

No masculino, ficaram com as vagas entre os 7 primeiros os japoneses Tomoa Narasaki (1º) e Kai Harada (4º), o austríaco Jakob Schubert (2º) e o cazaque Rishat Khaibullin (3º). Assim como no feminino o Japão já havia ocupado sua cota, deixando Meichi Narasaki (5º) e Kokoro Fuji (6º) sem vaga e classificando para os jogos o francês Mickael Mawem (7º), o alemão Alexander Megos (8º) e o italiano Ludovico Fossali (9º)

O que vale lembrar aqui é que essas vagas ainda são consideradas provisórias! O Comitê Olímpico Internacional irá enviar para os Comitês Olímpicos de cada país os convites que terão 2 semanas para aceitar ou não. O que deve acontecer é que todos os países aceitem os convites, incluindo o Japão, o que, pelas regras, irá realocar as 2 vagas que o Japão tem direito como país sede, e que não serão usadas, para os próximos melhores colocados em cada sexo, o que acabará classificando para os jogos também a austríaca Jessica Pilz (10º) e o canadense Sean McColl (10º). Caso algum país não responda o convite no prazo de 2 semanas, a vaga também será realocada para o próximo melhor classificado no Mundial.

Em resumo, daqui pouco mais de 2 semanas teremos a confirmação das vagas aceitas e realocadas e se teremos

Brasil ainda longe das semis

O Brasil esteve presente no Mundial com 4 atletas: Cesar Grosso, Felipe Ho, Thais Makino e Bianca Castro. No geral o desempenho do time brasileiro teve avanços em relação ao Mundial passado, mas ainda ficamos longe da semifinais tanto no Boulder quanto na Dificuldade.

Contudo, tivemos algumas atuações interessantes e que deixaram a chama da esperança acessa para uma melhora significativa nos resultados no curto/médio prazo.

Bianca Castro, estreante em Mundiais pelo Brasil (Foto: Eddie Fowke/IFSC)

Na Dificuldade, Bianca Castro, mesmo estreando em Mundiais e sem muita bagagem de competições internacionais, conseguiu o melhor resultado brasileiro feminino das últimas duas temporadas. Ela terminou na 59ª colocação entre as 92 atletas inscritas. Não parece muito, mas levando em consideração que ela voltou às competições esse ano, depois de meses se recuperando de uma lesão, é plausível acreditar que ela ainda vá ganhar bastante em desempenho no decorrer do ano e ter uma temporada 2020 bem melhor.

No Boulder, Felipe Ho apesar de ter terminado as qualificatórias com apenas 2 zonas conquistadas, escalou muito bem e por pequenos detalhes não conseguiu um grande resultado. Em dois dos boulders Ho caiu na agarra do Top, mas com o tempo já no fim e sem ter chance de uma outra tentativa. Caso tivesse conseguido os dois tops, Felipe teria terminado entre os 40 melhores atletas. Ainda fora da semifinal mas um salto considerável frente aos últimos resultados brasileiros na modalidade.

Felipe Ho no B2 das qualificatórias (Foto: Eddie Fowke/IFSC)

Com certeza ainda temos muito para melhorar, mas os atletas estão dando mostras que, com o atual investimento em etapas internacionais, estão começando a “entender” melhor o estilo atual nas competições. Em algum ponto, que creio não muito distante no tempo, algum dos nossos atletas vai encaixar um ótima performance e trazer um ótimo resultado para o Brasil.

Resultados Hachioji 2019

Boulder

Masculino
1. Tomoa Narasaki (JAP)
2. Jakob Schubert (AUT)
3. Yannick Flohé (ALE)

Feminino
1. Janja Garnbret (ESL)
2. Akyo Noguchi (JAP)
3. Shauna Coxsey (GBR)

Dificuldade

Masculino
1. Adam Ondra (TCH)
2. Alexander Megos (ALE)
3. Jakob Schubert (AUT)

Feminino
1. Janja Garnbret (ESL)
2. Mia Krampl (ESL)
3. Ai Mori (JAP)

Velocidade

Masculino
1. Ludovico Fossali (ITA)
2. Jan Kriz (TCH)
3. Stanislav Kokorin (RUS)

Feminino
1. Aleksandra Miroslaw (POL)
2. Di Niu (CHN)
3. Anouck Jaubert (FRA)

Combinado

Masculino
1. Tomoa Narasaki (JAP)
2. Jakob Schubert (AUT)
3. Rishat Khaibullin (CAZ)

Feminino
1. Janja Garnbret (ESL)
2. Akiyo Noguchi (JAP)
3. Shauna Coxsey (GBR)

Para os resultados completos acesso o site do IFSC.

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