Kai Lightner: Abra seus olhos para a realidade das vidas negras

Kai Lightner além de ser um escalador de sucesso, tanto na rocha quanto em competições, vem se destacando nos últimos tempos como uma voz atuante dentro da comunidade escaladora. Mais ainda, Kai tem se firmado como a voz da comunidade escaladora negra. À luz dos últimos acontecimentos nos EUA, Kai escreveu um artigo importante, que já foi publicado por outros veículos de escalada lá fora, como a Rock and Ice a Gripped. Entrei em contato e pedi sua permissão para traduzir suas palavras pro blog. Sua resposta foi: Please, do! Obrigado Kai pela autorização e suas palavras!

Maneiras de ajudar na busca por igualdade racial

Quando abordado por estranhos, não revide ou tente fugir. Não saia em público com um capuz na cabeça. Aceite que o mundo não é justo e você pode ter que se esforçar 150% mais para ser reconhecido como igualmente bom. Sempre atenda aos pedidos de um policial e peça desculpas por qualquer possível mal entendido, mesmo se a pessoas estiver violando seus direitos. Se os seus amigos não negros expressarem visões insensíveis racialmente, tente explicar, mas não fique bravo por eles não entenderem. Evite parecer suspeito quando estiver correndo.

À luz do que aconteceu com George Floyd, eu tenho que adicionar:

Inspecione as notas na sua carteira em busca de notas falsas.

A lista de coisas que eu preciso lembrar durante atividades normais do dia a dia continua crescendo numa taxa exaustiva pra minha mente. Minha mãe me deu essa lista enquanto eu crescia, mas como um adulto eu continua a adicionar novos itens.

As mortes de Ahmaud Arbery, Breonna Taylor e George Floyd abriram os olhos de muitos para as realidades da vida de afro-americanos no nosso país. Esse descoberta horrível deixou as pessoas se perguntando o que eles podem fazer para ajudar a consertar o problema. Crescendo na comunidade de escalada, que é de maioria caucasiana, eu sempre tive muitos amigos brancos. Em inúmeras ocasiões, tópicos raciais surgiram enquanto eu e meus amigos de escalada discutíamos casos de destaque na mídia. Apesar de eu tentar repetidamente explicar a perspectiva de um afro-americano, eles sempre foram incapazes de empatizar com o meu pontos de vista, mesmo que tentassem. Contudo, acontecimentos recentes ajudaram eles a ganharem um novo modo de ver as coisas, e eu estou me sentindo extremamente emocionado e agradecido com a quantidade apoio e a vontade da parte deles em aprender como combater as diferentes formas de racismo e apoiar as vidas negras.

Kai Lightner. Photo: Julyanna Carvalho.

Secretamente, contudo, eu tenho emoções conflitantes. Por um lado, eu tenho que resistir ao impulso de liberar minha frustração e gritar, “Eu tentei explicar isso por anos!”. Por outro lado, eu entendo que é importante focar em melhorar a vida seguindo em frente, abraçando novos aliados, e oferecendo sugestões em como todos podem contribuir com a busca por igualdade racial nos Estados Unidos. O primeiro passo é entender alguns dos mal entendidos comuns que machucam, ou expressões que as pessoas usam e que denotam falta de empatia por uma raça de pessoas que já carregam um fardo profundo.

Simplesmente acate as ordens policiais

Videos de pessoas negras morrendo durante interações com a polícia geralmente representam as vítimas com postura desafiadora aos comandos policiais antes do acontecimento se tornar trágico. Isso leva as pessoas a dizerem: “Porque eles simplesmente não obedecem?”. Contudo, as filmagens nunca conseguem captar toda a história, e como a nossa própria história nos condicionou a temermos essas situações. Um exemplo comum:

Enquanto dirigia no limite de velocidade você é parado por um policial e imediatamente é questionando com uma pergunta sem relação com o porque você foi legalmente detido, por exemplo – “De quem é este carro?” – depois de responder a pergunta, você indaga porque está sendo parado. Sua pergunta fica sem resposta, mas ainda assim você é ordenado a sair do carro e a sentar ou deitar no chão com o rosto para baixo. Uma superfície dura, fria/quente, suja e às vezes molhada pela chuva ou coberta de neve. Apesar de confuso, você acata enquanto pergunta repetidamente por qual motivo foi parado. Sem resposta, o policial lhe deixa no chão e volta para a viatura. Quinze, vinte minutos depois (no mínimo), o policial retorna, ainda não responde sua pergunta, mas diz que você pode ir. Apesar de confuso e com raiva, você tem que manter a calma e a compostura para evitar que a situação escalone. Quando o policial vai embora você ainda não entendeu porque foi parado.

Agora imagine situações como a descrita acima acontecendo algumas vezes por ano com você e seus amigos. A reação das vítimas se estendem bem além dessas cenas isoladamente. Elas representam a culminação de encontros humilhantes que eles experimentaram ao longo de suas vidas.

Todas as vidas importam

Depois de ficar em luto repetidas vezes com as mortes sem sentido de vítimas negras que ganham as notícias, onde ninguém foi tido como criminalmente responsável, três mulheres negras bem sucedidas – Alicia Garza, Opal Tometi e Patrisse Cullors – fundaram o movimento #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam) para fazer campanha contra a violência e o racismo sistêmico contra as pessoas negras. #AllLivesMatter (#TodasAsVidasImportam) emergiu em reação e tentativa de resignificar a mensagem do “Black Lives Matter” para ser mais inclusiva. Esse tipo de manifestação não deve provocar frustração – num mundo perfeito, todas as vidas devem importar. Contudo, a evidência suporta um nível de discriminação contra Afro-Americanos que efetivamente desvaloriza nossa qualidade de vida.

Práticas discriminatórias são gritantes no sistema judiciário e criminal, especialmente quando os policiais são os réus. O policiamento ostensivo nas comunidades de maioria negra tem sido uma prática comum por décadas, o que contribui para os quase 27% de prisões de Afro-Americanos, de acordo com o FBI. Isso é quase o dobro dos 13% que nós representamos enquanto população. Como um estudo da Universidade de Irvine mostrou, uma vez processados, Afro-Americanos tem sete vezes mais chances de serem condenados erroneamente por assassinato do que caucasianos, e constituem aproximadamente 47% de todos os casos de exoneração no Registro Nacional de Exonerações. Estatística no Mapeamento de Violência Policial mostram que os Afro-Americanos tem três vezes mas chances do que caucasianos de serem mortos por policiais, e que policiais raramente são responsabilizados. Em 99% de mortes provocadas por policiais de 2013-2019 eles não foram acusados de um crime.

Esses indicadores levam muitos a questionar se a sociedade valoriza as vidas negras. A comunidade negra tem desesperadamente tentado trazer esses problemas para a linha de frente e procurado soluções, que é a proposta raiz do movimento “Black Lives Matter”. Responder às postagens com #BlackLivesMatter com uma tag #AllLivesMatter tira o foco da conversação em discutir e buscar soluções para as questões que estão devastando nossas comunidades.

Se recusar a reconhecer e discutir problemas sistêmicos levaram às condições atuais em todo o país. Durante discussões, muitas pessoas ficaram mais focadas em defender seus próprios pontos de vista e realidades do que escutar e aprender com a perspectiva dos outros, resultando em divisões raciais ainda maiores e nada sendo feito para resolver o problema. É muito importante entender como declarações como “All Lives Matter”, ou o enormemente inapropriado e irrelevante “Afro-Americanos deviam se preocupar mais em prevenir crimes entre negros” , podem contribuir para tensões raciais neste país, e o que você pode fazer para ser parte da solução.

Um passo importante é entender o poder das nossas palavras antes de usá-las na nossa próxima postagem no Instagram. Palavras são multidimensionais. Elas tem história e contextos mais profundos que podem moldar a percepção das pessoas de quem você é e o que você defende. Se você quer ser parte da solução, se abstenha de usar retórica inflamatória. Quando reagir à experiências que você não entende, esteja disposto em perguntar e pesquisar sobre estes tópicos para aprender mais. Ao mesmo tempo, quando escutar a perspectiva dos outros, esteja aberto para entender que a sua percepção da realidade e a minha serão drasticamente diferentes. Não compreender isto não te torna um racista, apenas denota um problema social sobre o qual as pessoas precisam aprender para que possa ser atacado.

Eu sempre consegui usar a escalada como uma forma de escapar dos estresse diário de tentar equilibrar escola, treinos e encontrar tempo de lidar com coisas inesperadas como trocar um pneu furado (eu aprendi como do lado da estrada assistindo um vídeo no YouTube). Contudo, para as minorias o tópico do racismo sistêmico é inescapável, principalmente em um esporte no qual a participação de pessoas negras é significativamente menor do que a nossa parcela da população.

Muitas empresas estão soltando declarações sobre diversidade, equidade e inclusão para mostrar apoio a comunidade Afro-Americana e reconhecendo que mais precisa ser feito para diversificar a recreação na natureza. Essas declarações trazem conforto e esperança de que estamos nos movendo na direção certa. Contudo, ações precisam vir em seguida, e nós, enquanto indivíduos, temos trabalho a fazer.

Uma vez que você conhece mais, é sua responsabilidade fazer mais. Seja quanto a um abuso na internet ou injustiças nas ruas, utilize seu privilégio para falar. Não é o suficiente discordar silenciosamente. Esse comportamento é o que mantém instituições opressivas vivas. É também importante usar seu privilégio e plataformas para elevar as vozes das minorias que geralmente ficam abafadas. Elevar nossas vozes coletivas é a única forma de influenciarmos a mudança. Juntos podemos assinar petições, apoiar políticas progressivas, votar em políticas que apoiem iniciativas de diversidade, equidade e inclusão, e marchar juntos para que as pessoas nos vejam e nos escutem. Um front unificado é a única maneira pela qual podemos lutar por um futuro onde todas as vidas de fato importem.

Kai Lightner | nascido em Fayetteville, Carolina do Norte, ganhou 12 títulos nacionais (10 nas categorias juvenis e duas no circuito adulto) de dificuldade e boulder, e é cinco vezes medalhista mundial juvenil . Ele está estudando administração na faculdade Babson em Boston.

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