Climb Trip Bahia: Itatim e EENe Igatu

Já se passaram mais de duas semanas e só agora eu percebi que não escrevi nada sobre o 13º EENe, que rolou esse ano na cidade bahiana de Igatu, na Chapada Diamantina. Tenho logo que dizer que foi uma das melhores climb trips que já fiz até hoje. Obviamente o destino principal era o Encontro de Escaladores do Nordeste, mas pra valer a pena percorrer os 1300km, a trip durou uma semana e ganhou um “pit stop” em Itatim. Por isso vou pedir um pequeno aparte pra falar desse pico primeiro.

O bonde saiu daqui no domingo, dia 13, às 4 da matina, comigo, Davi, Damito e Iale. Pé em baixo na estrada, numa viagem bem tranquila pra chegar em Itatim às 17h, e já ficar de queixo caído com a quantidade de pedra do lugar. É simplesmente impressionante você fazer a última curva e descortinar um mundo de pedras que toma conta do lugar. Já havia pegado os betas de como chegar no abrigo mantido por escaladores em Itatim com o Juan Alves, e foi bem fácil. Chegamos lá e já vimos logo alguém com cara de escalador. Era o Murilo, de Curitiba. Batemos um papo e tomamos uma cervejas esperando a galera que já estava por lá voltar do climb: Julio, Otto e Wolgran.

As pedras de Itatim como o Morro do Enxadaão no centro
As pedras de Itatim como o Morro do Enxadaão no centro

Planejado para Itatim tinhamos três dias. O primeiro foi gasto no incrível setor Jararaca. Eu que já achava a nossa Pedra Vermelha em Redenção muito irada, tive que tirar o chapéu para o Jararaca. Chegar no setor dá um trabalhinho um pouco maior, mas vale a pena. A parede negativa impressiona, e o fato de já estarmos bem alto, e com o final das vias terminando no vazio, deixa a escalada por lá bem mais adrenante. O estilão do lugar é bem diferente do que eu estava acostumado. Praticamente um teto, com bons agarrões, mas que minam muito rápido, portanto é preciso aproveitar bem os descansos.

Dei alguns pegas no 7b do local, a Los Vagabundos, mas não consegui a cadena. Não conseguia aproveitar bem as entaladas de perna, sempre me sentindo meio inseguro, e acabava ficando sem braços para o crux. Enquanto estávamos por lá deu tempo de ver o Julio conseguir a cadena da Sine Qua Non 8c, numa entrada que ele deu “só-pra-filmar-e-decorar-os-betas”, e também deu pra ver o Otto quase mandando a Esmerilator 9a, caindo no último lance.

Julio na Sine Qua  Non 8c
Julio na Sine Qua Non 8c

O segundo dia tiramos para conhecer outro setor, e fomos para o Morro da Toca. Ficamos na face norte, e mandamos ver nas esportivas de lá, entrando e saindo delas, procurando fazer volume. Começamos pelos quintos, fomos pros sextos, e entramos em sétimo também. A rocha nesse setor é mais abrasiva, e se não tomar cuidado deixa você sem pelo rápido. Durante a tarde, resolvemos fazer uma tradicional, e mudamos para a face leste, onde montamos as duplas e entramos na Via Expressa 3º IVsup E2 D1 180m. Um verdadeiro passeio no parque! Via bem tranquila, pra fazer de boa e curtir o visual e o pôr-do-sol lá de cima. Recomendo! Fizemos o rapel da via com a noite chegando e fomos agraciados com um fantástico nascer da lua cheia, bem na nossa frente. Até tentei tirar foto com o celular, mas ela não faz jus ao momento, portanto, apenas imaginem ai como foi.

No cume do Morro da Toca (Foto: Ricardo Damito)
No cume do Morro da Toca (Foto: Ricardo Damito)

No terceiro e último dia, voltamos para o Morro da Toca de manhã. Fizemos algumas outras esportivas. Entrei em todas à vista ou de flash, sem me preocupar com cadena. Depois de mais uma manhã de volume, saímos para pegar o Davi e o Murilo no Morro do Enxadão, que haviam saído cedo para fazer a Jardineiro, uma via tradicional de mais de 200 metros, bem vertical, com cordadas de 7a e 7b. Deixamos os dois exaustos no abrigo e voltamos para outro setor, dessa vez o Morro da Fonte, onde já estava o Julio, Otto e Wolgran, e logo em seguida chegou o pessoal de Recife, Caui, Eveline, Miguel e Hugo. Entrei em um 6sup nojento, ruim de ler, mas saiu em flash. Depois dei um pega num 7a gigante, de uns 40 metros, bem constante, mas os braços não aguentaram chegar até o fim, e minha energia dessa primeira parte da trip acabou ali.

No dia seguinte saímos cedinho, mas dessa vez com o Murilo no carro, pois ele ia se juntar ao Davi para fazer o Pai Inácio. Eu e o Iale deixámos os dois lá e voltamos de carro, com o tanque na reserva, até Lençóis, para o nosso dia de descanso. Merecido dia de descanso! Banho de rio, cerveja, e a paisagem incrível de Lençóis. Foi ótimo! Voltamos no horário combinado no Pai Inácio, resgatamos os dois e tocamos direto para Igatu, rumo ao EENe.

Dia de descanso em Lençóis. Tava ruim....
Dia de descanso em Lençóis. Tava ruim….

Chegamos em Igatu já perto das 20h bem na mesma hora que o restante do pessoal que estava em Itatim chegou. Havíamos sido avisados que o alojamento não ia estar aberto naquela noite, mas vimos o pessoal já entrando e armando acampamento. Não pensamos duas vezes e fomos na onda e reservamos nosso lugarzinho pelos próximos três dias. Aproveitamos o resto da noite para tomar umas cervejas e comer uma pizza  na Pizzaria da Maura com todo o pessoal que havia chegado de Itatim. Pizza carinha, mas muito boa!

No dia seguinte o alojamento já estava lotado de barracas por todos os lados, e em pouco tempo já estava todo mundo ocupado em preparar o café e partir para o primeiro dia de climb. O setor escolhido no primeiro dia foi o California, setor que eu já conhecia da minha viagem passada em Igatu. Muita gente desceu junta pro California e acabou deixando as vias um pouco congestionadas, mas nada demais. Aproveitei pra entrar no que ainda não havia escalado da vez anterior e me senti bem escalando depois do dia de descanso. Mas mais uma vez, só escalei à vista.

Escalando no setor Califórnia (Foto: Ronaldo Franzen)
Escalando no setor Califórnia (Foto: Ronaldo Franzen)

Depois de dar por terminadas minhas tentativas por lá, acabei voltando pra cidade, interessado em pegar o Desafio de Boulder, marcado para as 15h. Mas quando cheguei por lá fiquei sabendo que não ia mais rolar naquele dia. Aproveitei para relaxar e tomar banho mais cedo antes de voltar todo mundo. Nessa noite recebi o convite da Janine, minha amiga da Paraíba,  para ir jantar com ela, o pessoal de Recife e o meu amigo Dennis, da Fábrica. Foi uma noite bacana conversando, tomando uma cervejinha e comendo uma bela massa. Daí foi conferir as palestras da noite. Mas o sono estava grande e não aguentei ficar muito tempo, fugindo pra barraca mais cedo.

No dia seguinte começamos a diversão pelo setor do Labirinto. Também já havia visitado esse na trip anterior e também aproveitei pra entrar em algumas brincadeiras novas. Enquanto estávamos por lá quem me aparece é o Raphael Nishimura, que havia chegado na noite anterior, e escalar um pouco com a gente. Mas o que eu queria mesmo no Labirinto era mandar a Asteróide 7b, que havia me fechado a porta na cara na trip passada. Entrei junto com o Davi nela, e relembrei os betas, deixando ela equipada para o próximo dia.

Saímos de lá e encontramos todo mundo concentrado próximo da praça da cidade. Ia sair o bonde em direção ao setor da Rosinha, onde deveria rolar o desafio de vias. Rumamos para lá no carro, eu, Davi, Carol, Julio e Iale, antes da maioria, e seguimos o caminho até o setor. A caminhada foi longa e bem exaustiva debaixo do sol escaldante do meio-dia. Alcançamos a cachoeira da Rosinha depois de uma meia hora e aproveitamos para nos refrescar um pouco. Ainda brinquei um pouco nos “psicoblocs”, mas depois resolvemos sair e tentar achar o setor em si. Acabamos não encontrando o setor, e não achando ninguém. Davi foi atrás do Julio no setor do Degredo e eu fiquei brincando um pouco no waterline armado pelo Xaropinho no rio. Brincadeira legal, apesar de bem mais difícil. Até fui bem em algumas tentativas, mas bem longe de completar a travessia. O sol começou a baixar e eu tomei sozinho o caminho do carro, e acabei tendo que esperar a galera voltar.

Cachoeira da Rosinha
Cachoeira da Rosinha

O jantar foi na rua dessa vez, num restaurante caseiro bem bacana. Comida boa e barata. A fome tava tanta que o prato feito enorme sumiu da frente de todos num instante. Depois do banho, hora de conferir a palestra do Nishimura, pela segunda vez no EENe. Mais uma vez lotação total pra ver o cara falar. Tive que assistir a palestra de pé. Depois seguiu uma palestra sobre astronomia, que até acho legal, mas não achei que encaixou muito com o evento. Aproveitei a deixa para ir pra cama mais cedo. O último dia de climb e de trip me aguardava.

Acordei mais cedo que todo mundo e fui tomar meu café na pousada onde a Janine estava hospedada, e aproveitei pra forrar bem o buxo. Mais uma vez começando o dia pelo Labirinto, aquecendo em alguns sextos pra depois entrar mais uma vez na Asteróide e tentar a cadena. O beta já estava decorado era só executar. Mas também coloquei na cabeça que ia ser um pega apenas, depois eu iria tentar participar do desafio de boulder que ficou para o último dia. Entrei bem, e cheguei no crux ainda com braço. Achei o regletinho intermediário sem catar muito, mordi e achei que ia dar. Mas quase chegando no agarrão a pressão acabou e eu vaquei. Foi pro ralo mais uma vez a cadena. Ainda fiz a seg do Davi, que também saiu de mãos abanando e corri para os boulders. O atrasinho que rolou me deu um tempinho pra descansar, mas não o suficiente, afinal de contas era o último dia de uma semana escalando. Os braços estavam arregando. Fiquei por ali conversando com o Ikan, que trocou a chapada por Fortaleza e tá mais forte do que nunca treinando na Fábrica, e o Lp Silva. Aos poucos a galera foi chegando e começou a brincadeira. Bem simples. Um bloco, vários boulders, do V0 ao V9 (se não me engano). Cada um tinha três pegas em cada boulders, quem encadenasse mais, levava.

Tentando o V5
Tentando o V5 (Foto: Henrique Bastos)

Primeiro dei o peguinha no V0, pra aquecer de novo, depois fui para o V3. Dei meus três pegas, mas não consegui virar. O Ikan, com força sobrando mas um tanto nervoso, acabou mandando na terceira tentativa. Depois um carinha de Brasília, que não lembro o nome agora, mandou o V3 na segunda tentativa, e passou na frente do Ikan. Ai foi todo mundo pro V5 nojento que o Lp ficava dizendo que tava todo mundo fazendo errado. O Ikan deu dois pegas e passou perto de ficar na agarra chave, mostrando uma força monstruosa. Eu dei meus três pegas e fui até bem com o meu beta de usar o “toehook”, mas faltou força pra ficar na agarra. Ai o Ikan resolveu dar o último pega e mandou o V5, tomando a frente de novo. O cara de Brasília acabou não mandando esse, mas tinham outros V5, e se ele mandasse, ele levava. Mas acabou que ninguém mandou mais nada, e o Ikan ganhou o desafio. Mas acho que a maior vitória dele veio depois. Ele ainda ficou tentando um V7 no mesmo bloco, e depois de algumas tentativas conseguiu a cadena. Primeiro V7 do moleque!

Ainda deu umas voltas pelo Labirinto, onde encontrei de novo com o Nishimura e a Janine Cardoso, e depois voltei para o alojamento. A nossa última noite infelizmente ia ter que acabar cedo, pois iríamos sair de madrugada de volta para Fortaleza. Assisti a palestra da Janine Cardoso, levei brinde de novo nos sorteios, e rolou a tradicional foto oficial do encontro. Ainda tomei algumas cervejas depois com o pessoal, e fui dormir. Acordamos 3h30 da manhã, jogamos as mochilas no carro e pegamos a estrada de volta. Mais um ano em Igatu, mais um EENe. Que venham mais trips pra Igatu e mais EENe. E o próximo já tem local pra acontecer. É em Quixadá, aqui na terrinha! Até lá!

Foto oficial do encontro!
Foto oficial do encontro!
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