Relato: Trip Igatu

26
Feb

Já faz mais de uma semana que voltei de Igatu, e aqui estou finalmente pra escrever o relato do que rolou em mais essa trip. A ideia de viajar para Igatu surgiu ainda no ano passado, quando estava procurando um lugar diferente pra passar o carnaval.   Desde lá vim tentando convencer o pessoal da Fábrica de Monstrinhos a embarcar nessa trip, mas só o Davi comprou a ideia e ficamos acertados que o carnaval seria na chapada. Apesar de essa minha trip ter sido mais uma em parceria com o Skyscanner, eu acabei nem indo de avião. Sabe como é, passagem aérea para Salvador no carnaval sai mais caro do que viajar pra fora do país, então não tinha a menor condição. Restou a única alternativa viável: encarar os mais de 1300 km de estrada até Igatu!

Saímos de Fortaleza no sábado de carnaval por volta das 4 da manhã. No bonde eu, Davi, Jessica (esposa do Davi e iniciando na escalada) e Tatiana (amiga da Jessica, nunca havia escalado antes). A viagem foi tranquila, com estrada boa e pé embaixo. O único atraso foi um caminhão atravessado na pista logo depois e Salgueiro, no Pernambuco, que nos fez perder quase uma hora. Mesmo com esse atraso ainda chegamos em Igatu por volta das oito e meia da noite.

Chegar em Igatu, mesmo de noite, é um negócio incrível. No momento que você pega a estradinha de pedra até a cidade é como se estivesse andando em direção ao passado. Pra quem é escalador, já dá pra começar a ficar com a mão suando logo que aparecem os primeiros blocos na beira da estrada. Dá vontade de parar o carro e escalar alguma coisa. Mas seguimos caminho e finalmente chegamos em Igatu. Chegando lá a  missão era encontrar o abrigo Xique-Xique, onde iríamos ficar acampados. Nada muito difícil de achar. Bastou perguntar pelo camping do Rafael que o pessoal soube apontar direitinho. Daí foi só armar acampamento e ir atrás de comer alguma coisa. Na busca por comida dou de cara com o Linha, o famoso CEO da UBTBoulder, que estava tomando uma cerveja com LP Silva, o cara dos boulders de Igatu. Batemos um papo e combinamos de no dia seguinte irmos escalar uns boulders. Com tudo acertado, era hora de descansar pro dia seguinte!

Chegando no setor de boulder cemitério em Igatu

Chegando no setor de boulder Cemitério (Foto: Jessica Wiersma)

O primeiro dia de escalada na chapada começou com Boulder. Encontramos o LP e o Linha e descemos para o setor cemitério (ele fica atrás do cemitério). Fiquei logo de cara com o tamanho dos blocos. Verdadeiros highballs caso o corajosa resolva fazer a virada. LP mostrou as linhas e começamos pela mais fácil, um V3 que saia num teto, bem debaixo do bloco, mas que não me recordo o nome. O Linha entrou no boulder e mandou à vista, sem problemas. Entrei em seguida, e acabei mandando o boulder de flash. Nada mau para o primeiro boulder em Igatu. Em seguida fomos para o boulder do lado, Porta da Esperança V4 (saindo do primeiro agarrão). Linha de novo mandou sem problemas, eu já tive mais trabalho. Dei alguns pegas, isolei os movimentos e achei que dava pra sair, mas acabei desencanando e deixando pra lá, ainda tinha mais 2 dias de escalada pela frente, não valia a pena ficar se matando ali. Depois disso acabaram-se os boulders que eu podia mandar e fiquei ali observando o Linha encadenar e tentar algumas coisas mais fortes, até a fome bater e a gente voltar pra almoçar.

Depois de almoçar seguimos na direção do setor labirinto, acompanhados do Rafael que ia nos apresentar às vias. Tava na hora de puxar corda! O setor é muito próximo da cidade, coisa de 1o minutinhos caminhando. As vias por lá não são longas e as paredes são bem próximas umas das outras, formando vários corredores, daí o nome Labirinto. Rafael nos levou num setor com algumas vias mais fáceis pra começar. Iniciamos pela Meu Parceiro é Crente VI. Davi entrou guiando para equipar a via. Estava indo bem, mas no final, antes de costurar a parada acabou caindo e batendo com as costas na parede de trás. Pareceu feio, mas na verdade foi só um susto. Alguns arranhões apenas. Entrei na via em seguida e mandei de flash, o suficiente pra dar uma esquentada.

Davi na Meu Parceiro é Crente no setor Labirinto em Igatu

Davi na Meu Parceiro é Crente no setor Labirinto (Foto: Igatu Escalada e Trekking)

Depois daí eu peguei para escalar a Zorilda, um quinto bem atlético, enquanto o Davi montava o top para a Jessica e a Tatiana num quarto grau. A Jessica tirou o quarto grau de letra, e depois voltou na via guiando. A Tatiana, impressionada pelo não tão promissor cartão de visitas da queda do Davi, travou e não conseguiu subir. Depois disso era a hora de dar um peguinha em algo mais forte. A escolhida foi a clássica Asteróide 7b. Entrei equipando, mas fazendo muito força e lendo tudo errado acabei não conseguindo equipar inteira. Deixei pro Rafael a missão de equipar o resto e vi ele passear na via. Escalar e desescalar sem muito esforço. Davi também deu uma pega na via no tempo que restava de luz, mas deixamos a via equipada para voltar no dia seguinte.

De noite eu estava doido para tomar uma cerveja, e resolvi ir atrás de uma Heineken. Acabei encontrando o Linha e a Glaucia no restaurante em frente à praça, acompanhados de um casal de escaladores de São Paulo: Greg e Thais. Batemos um papo e marcamos de escalar no dia seguinte. Antes de voltar pro abrigo acabei encontrando também com o Steve, britânico que está morando em Igatu.

No dia seguinte voltamos no setor Labirinto para brigar um pouquinho com a Asteróide. Antes montamos o top numa linha mais fácil, um terceiro grau, para a Tatiana dar mais uma tentativa. Dessa vez ela conseguiu ir até o final, e empolgou pra entrar na do dia passado, conseguindo também ir até o final. Depois entrei mais uma vez na Asteróide e penei um pouco para fazer o crux, que é a saída do diedro, vencendo a barriga pra chegar na aresta. Desci e o Davi deu mais um pega nela. Entrei outra vez e dessa vez isolei o lance do crux e finalmente consegui passar, jogando o calcanhar alto, travando tudo no regletinho intermediário e batendo no agarrão. Como cheguei no fim, resolvi desequipar, mas apanhei e acabamos perdendo um bom tempo, e sendo necessário o Davi subir até a terceira chapa e descer desescalando pra desequipar o resto.

Equipando a Asteróides 7b em Igatu

Equipando a Asteróides 7b (Foto: Igatu Escalada e Trekking)

Quando estávamos arrumando as coisas para ir almoçar, chegam o pessoal da Bahia no setor: Felipe e Camilo. Com eles ficamos sabendo que a galera do Rio Grande do Norte também havia chegado, e nos encontramos com ele quando chegamos no abrigo de volta. Almoçamos e voltamos para o Labirinto, dessa vez para fazer boulder com o Linha, LP, Greg e Steve.

Fiquei impressionado com o setor de boulder do Labirinto, e aqui eu entendi porque apelidam Igatu de Igatulands, em referência ao pico sul africano de Rocklands. A paisagem e os blocos lembram muito Rocklands. Muito bonito de se ver. Essa tarde pra mim acabou não rendendo muito, já que me deu uma baita de dor de cabeça e ficou difícil fazer força de verdade. Entrei num V0 e um V1, que mandei fácil, mas mau consegui sair nos dois V3 que tentei. Acabei ficando assistindo ao Linha, Steve, Greg e LP tentarem umas brincadeira mais fortes.

A taste of Rocklands!

A taste of Rocklands!

Depois de um tempo descansando a cabeça parou de latejar, e ai eu fui me juntar à Thais e o Steve que tinham ido atrás de coisas mais fáceis. O Steve então me mostro um bloco virgem (sim, existem blocos virgens em Igatu) e me mostrou duas linhas, perguntando se eu não queria fazer o FA das duas. Aceitei o convite e fiz o FA de dois novos boulders em Igatu, dois V0s creio eu, que acabei batizando de Desce daí, doido! e Urinol. A galera tava pilhada pra entrar no night climb, com o Linha equipado com umas luminárias bem fortes. A galera até deu alguns pegas em alguns boulders, mas os mosquitos fizeram todo mundo desistir. Hora de voltar pra comer alguma coisa e descansar pra o último dia de escalada.

Terça-feira de carnaval, último dia de climb em Igatu, já iríamos ter que sair na quarta-feira de cinzas bem cedo pela manhã. O setor escolhido para o dia foi o California, que fica um pouco mais distante, uns 40 minutos de caminhada. A recompensa é que as vias e boulders ficam do lado do rio e de cachoeiras. Parecia perfeito pra terminar a trip com chave de ouro. O mais legal na verdade desse dia não foi nem tanto o setor, que é sim fantástico, mas a vibe da galera, que resolveu descer inteira em peso pro California. Galera da Bahia, Juan, Dani, Felipe, Carol e Camilo foram. Galera do Rio Grande do Norte, Ary, Stenio, Eduarda, Marlon, Leo Boulder e Dani. Greg e Thais também desceram, mais o Rafael e a gente.

Galera toda reunida no setor Califórnia em Igatu

Galera toda reunida no setor Califórnia (Foto: Igatu Escalada e Trekking)

Começamos nas esportivas, onde eu e o Davi entramos na Vai que dá, um quinto/quinto sup, e depois passamos para a Aki Tem, um sexto grau. Mandei as duas à vista, e parei por ali. Aproveitei para tomar um banho de cachoeira e guardar uma forcinha para os boulders durante à tarde. Comemos alguma coisa e descemos mais um pouco para um outro setor que tinha alguns boulders. Juan parecia o único empolgado em tentar alguma coisa comigo, mas quando colocamos os crashs debaixo do California Dream V7 todo mundo se animou. O boulder é lindo. Saindo num teto com um movimento dinâmico para uma agarra na borda e ai fazer a virada.

Rafael tentando o California Dreams V7

Todo mundo entrou incontáveis vezes no boulder, mas desses só Camilo, Rafael, Greg e Leo Boulder conseguiram travar na agarra da borda e tentar a virada. O Rafael foi o primeiro a conseguir a cadena, deixando a porteira aberta pra quem quisesse. O Greg aproveitou o momento e a vibe e mandou também. Depois disso ninguém tinha mais força nem disposição pra nada. Pegamos o caminho de volta, tomamos um banho e fomos para a nossa última refeição no Xique-Xique, acompanhada da última cerveja!

Na quarta acordamos antes do sol raiar e arrumamos as coisas para pegar a estrada de volta para Fortaleza, mas já com a certeza que a Chapada Diamantina merece várias trips a serem ainda devidamente agendadas!

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Reel Rock Tour e São Bento do Sapucaí

16
Nov

Retorno de viagens são sempre corridos. Tudo que você deixou antes de ir viajar cai no seu colo pra resolver, e dessa vez eu só tinha dois dias, já que quinta-feira era feriado. Por isso demorei tanto pra escrever o relato dessa minha última trip para acompanhar o Reel Rock Tour em São Paulo e esticar até São Bento do Sapucaí para conferir os boulders do local.

Sai daqui de Fortaleza na quinta-feira (08) com destino à capital paulista, aproveitando os bons preços encontrados na busca de passagens aéreas do Skyscanner. Foram 3 horas e meia de viagem até São Paulo, com uma hora sendo “engolida” pelo horário de verão. Sai daqui meia noite e cheguei em São Paulo 4 e meia da manhã. A ordem do dia era dar uma volta por São Paulo e de noite ir conferir a primeira edição brasileira do Reel Rock Tour, promovido pela The North Face e organizada em São Paulo pelo Blog de Escalada.

O inconfundível vão livre do Masp

Cheguei muito cedo no albergue, o Gol Backpackers, e não pude fazer check-in, apenas jogando minhas coisas por lá e saindo pra dar uma volta na famosa avenida Paulista, que fica a apenas um quarteirão do albergue. Pela tarde encontrei um grande amigo de Fortaleza que está por São Paulo e fomos almoçar e depois conferir o novo 007, Operação Skyfall no Imax. A ideia era após o filme tocar direto pro albergue, tomar um banho e andar até o Espaço Itaú de Cinema, na Frei Caneca, para conferir o Reel Rock. Eu só havia esquecido uma coisa: eu estava em São Paulo. Voltando de ônibus, pegamos um leve engarrafamento antes de chegar na Paulista, o que me atrasou em quase uma hora e me fez correr pra chegar à tempo.

Chegando no cinema a fila já estava formada e todos entrando. Tomei meu lugar na fila e entrei na sala, me deparando com uma casa cheia. Avistei o Raphael Nishimura na plateia e fui me sentar próximo a ele. Já estava tudo certo e ia começar a mostra. Realmente uma experiência fantástica acompanhar quatro grandes filmes na tela grande, com som de primeira. Tirando alguns deslizes na legenda, que acabaram me incomodando um pouco, tudo foi muito bom, e valeu a pena ter ido. Escreverei sobre os filmes depois, mas com certeza o melhor na minha opinião foi o The Sharks Finn. Baita história de superação e força de vontade.

Cinema lotado pro Reel Rock Film Tour

Sexta-feira foi mais uma vez dia de ficar por Sampa e sair com os amigos. Mas antes de sair pra conhecer mais a cidade fui até o terminal rodoviário do Tietê para comprar minha passagem até São Bento do Sapucaí. Peguei a do primeiro ônibus, partindo 7 horas da manhã, com destino a Brasópolis, passando por São Bento. Para o resto do dia as escolhas da vez foram o Masp, Pinacoteca e o Mercado Municipal, para experimentar o tradicional sanduíche de mortadela! Aquilo sim é um sanduíche de mortadela. Ainda estiquei a noite com o meu grande amigo Christian até o Empório Alto de Pinheiros, uma casa especializada em cervejas, com quase 10 torneiras de chopp especial e cerveja pra deixar qualquer amante do pão líquido (como eu) indeciso.

O sábado chegou cinzento, e acordei cedo para pegar o ônibus até São Bento do Sapucaí. Mais de 3  horas de viagem até a cidade serrana, e chegando debaixo de uma leve garoa. Não muito bom. Tentei entrar em contato com o Claudio Brisighello, amigo do climb que conheci no Rio de Janeiro e que agora mora em São Bento e mantém um Chalé para escaladores próximo da Pedra do Baú, mas não consegui sinal. Almocei na cidade, e finalmente consegui fazer contato com ele e combinei de esperá-lo em frente ao mercado Goulart. De lá subimos até o chalé, com tempo encoberto e eu já desanimando. No chalé encontrei a Yuri, e as três feras da casa: os “dogs” Cohiba, Fifi e Fidel.

Acordar cedo para pegar o ônibus me deixou quebrado e aproveitei para tirar um cochilo no chalé, que é realmente fantástico. Tudo com muito cuidado nos detalhes, bem organizado, com banheiro, cozinha, frigobar, mesa de refeições e uma cama de casal bem confortável, que transforma o chalé numa ótima opção para casais de escaladores. Um sofá cama também torna possível que o chalé seja compartilhado por uma dupla de amigos. Basta tirar na sorte quem fica com a cama! :)

Acordei com o Claudio me chamando para irmos conferir o bloco do bigode, um boulder na beira da estrada e de bem fácil acesso. Existia a chance de ele estar seco. Fomos até lá, e o Fidel foi seguindo a gente correndo atrás do carro (faz parte da rotina de exercícios dele). Chegamos lá e o bloco estava um pouco seco, mas as agarras do domínio e a virada estavam encharcados. Ainda assim resolvi dar uns pegas nos dois V5 do bloco: Bigode e Navalha. Dei alguns pegas no Bigode, isolando o lance do bote, mas não consegui linkar tudo.  Depois fui dar um pega no Navalha e gostei muito da primeira entrada, quase ficando no agarrão de flash. Mas as outras não foram tão boas e nem sequer consegui isolar o lance. Mas foi bom para um primeiro dia. Era esperar o domingo e o sol!

Mas o domingo amanheceu cinzento. Mal se conseguia ver a pedra do Baú ao fundo de tantas nuvens. A garoa era leve, mas a julgar pelas pedras próximo ao chalé, ela tinha caído a noite toda. Mas ainda restava uma esperança. Claudio acreditava que no setor Aranha, poderia existir boulders secos, já que se trata de uma cave. Esperamos o tempo firmar um pouco mais e seguimos até lá. Subindo a trilha, o presente: o sol apareceu e o céu abriu substituindo o cinza das nuvens por um belo azul. Mas chegar no setor foi um tanto decepcionante. Tudo estava encharcado e pingando. A Yuri mesmo comentou que nunca havia visto o setor tão molhado. O Claudio foi me mostrando as linhas, vários clássicos que eu deveria entrar em uma  outra oportunidade. O setor é realmente fantástico! Uma grande concentração de linhas nos vários blocos do local. Praticamente não existe um bloco sem linha. Desde V1 até V12 e mais alguns projetos. No tour pelo setor achamos duas linhas secas: Parabrisa e Pão de Forma; bem ao lado do Pop Fingers, uma das minhas escolhas para a viagem, mas que infelizmente estava encharcado.

Pinça nojenta da saída do Pão de Forma

O Claudio entrou no Parabrisa, um V2, para conferir se o domínio estava seguro ou molhado demais. Com a ajuda de um maçarico e uma toalha ele deu uma secada em algumas agarras e deixou no ponto. Entrei em seguida no boulder e encadenei de flash. Primeiro boulder em São Bento! Daí foi a vez do Pão de Forma, um V3. Claudio fez fácil e eu entrei achando que ia mandar de primeira. Fiquei travado na saída. Uma agarra pinçada nojenta de esquerda, com um drop knee de direita pra ficar encaixado e ir catar a pincinha de direita. Tentei umas  boas 8 vezes até encaixar o movimento e fazer a saída. Com a saída dominada o boulder saiu acho que no segundo ou terceiro pega. Dois boulders em São Bento, tava começando a valer a pena.

Resolvemos descer até um bloco que passamos quando havíamos chegado e que estava molhado. Na subida o Claudio levantou a possibilidade do bloco secar se o sol abrisse, e como realmente o tempo firmou e o sol brilhou forte, o bloco estava seco quando voltamos nele. Era hora de tentar um dos clássicos do local: Visu do Baú V4. A Yuri me passou os betas da saída, e eu entrei sem muita demora. Fui a cada entrada avançado um movimento, até finalmente encaixar no final e conseguir a cadena lá pelo quinto pega.

Mandando o Visu do Baú V4

Depois da cadena fui dar uma volta com o Claudio por outros blocos do setor, e fiquei ainda mais impressionado com tudo. Bastante coisa, linhas perfeitas e bonitas, como o bloco que guarda o boulder Moby Dick e também o bloco perfeito do boulder Diamante Negro. Os dois linhas bem estéticas, de movimentos bonitos e completamente naturais. Durante a caminhada o Claudio ainda me falou de outros setores de São Bento, que segundo ele, não deixam nada a dever a picos gringos.

Voltando para o bloco do Visu, resolvi dar um pega na aresta do bloco, que guarda um V1, só pra soltar os músculos e terminar por ali os trabalhos. Voltamos para o chalé, onde iria rolar uma “session” no murinho, junto com o Carlera e Paulinha, casal de escaladores que também moram em São Bento e administram uma hospedaria por lá. Por volta das seis e meia eles chegaram, trazendo junto o Lello, e começou o treininho no muro, com direito a um belo pôr-do-sol. Mais tarde chegaram o Belê e a Nívea e fechamos a noite com algumas cervejas, um bom papo e um belo macarrão preparado pelo Claudio. Noite muito agradável com os amigos do “climb”. Fui dormir com o céu estrelado de São Bento me deixando esperançoso que a segunda, meu último dia em São Bento, seria de sol e mais alguns boulders.

Treininho no muro com Claudio, Carlera, Lello, Paulinha e Yuri

Ao acordar no outro dia meu primeiro olhar foi pra janela. Mas o que eu vi do lado de fora foram as velhas nuvens dominando a paisagem e garoa caindo mais uma vez. Um tanto decepcionante, mas fazer o que? Ir para um pico de escalada fora de temporada tem dessas coisas. Resolvi então relaxar pela manhã e ajeitar a mochila pra volta. Resolvi pegar um ônibus mais cedo para São José dos Campos, já que os ônibus direto para São Paulo são poucos. Descemos então para almoçar por volta do meio dia, para depois eu pegar o ônibus, que eu achava ser de 14h40. Mas numa passada rápida na rodoviária só para conferir, vi que era de 14h10, e tive que correr com o Claudio pra estrada, chegando exatamente na hora que o ônibus estava chegando. Não deu nem tempo direito de me despedir do Claudio e da Yuri, mas aqui eu deixo meu agradecimento aos dois, pela fantástica recepção, a boa comida e bom papo. Com certeza vou voltar em São Bento ano que vem.

Segui viagem até São José dos Campos, e de lá peguei um ônibus pra São Paulo, já que o meu vôo para Fortaleza era somente meia noite. Resolvi aproveitar o tempo e encontrar de novo meu grande amigo Christian, e me despedir dele. Depois da despedida, fui pegar o Airport Service em frente ao albergue que havia ficado e segui para Guarulhos, já sentindo saudade dos amigos e dos blocos de São Bento!

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Resultados do 1º Fest Monstro

22
Oct

Pra quem tava em Fortaleza no sábado e não foi até a Fábrica de Monstrinhos conferir o 1º Fest Monstro, perdeu uma verdadeira festa! Apesar de organizado com pouca antecedência, sem muita divulgação, o evento foi fantástico. Cerca de 20 atletas estiveram presentes participando do festival de boulder e sofrendo nos problemas propostos pelo routesetter Alex Rodrigues.

A brincadeira começou por volta das 4 horas da tarde, ainda com pouco gente, mas com o festival rolando o pessoal foi chegando. As linhas propostas tinham 3 dificuldades: fáceis, intermediárias e difíceis; e escalando os boulders, 3 categorias: master, iniciante e feminino. Pra evitar que a categoria master ficasse muito esvaziada por conta do routesetter ser um dos que participaria caso não estivesse  com a tarefa de criar os problemas, achou-se por bem que ele poderia participar, com uma condição: nenhum boulder encadenado por ele teria pontuação à vista.

A fábrica e o festival rolando. (Foto de Ricardo Damito)

Jessica mandando um dos boulders fáceis do festival (Foto de Ricardo Damito)

Vocês agora ai devem estar se perguntado, e o grande-campeão-brasileiro-amador-categoria-adulto-B? Ganhou o Fest Monstro, né? Nops. Ficou em terceiro. Mandei todos os fáceis à vista, e mais um dos “intermediários” (entre aspas porque não estavam tão intermediários assim), também à vista, somando 8600 pontos. Mas não consegui mandar mas nenhum intermediário, e nenhum difícil.

Quem levou a contenda foi o Tiago Reis (Minhoka), que inspirado mandou um boulder difícil, com um longo bote pra trás. O segundo, mesmo sem os pontos à vista, foi o Alex Rodrigues. No iniciante, quem levou foi veterano Alexandre Ortiz, com o Sérgio Morais em segundo e o Valberto Porto em terceiro. No feminino, a potiguara Ariane Mourão levou a melhor e ficou em primeiro, em segundo a canadense Jessica Wiersma e em terceiro, as escaladoras do RN, Eveline Sousa e Janaína Figueredo, empatadas!

Eu, apertando tudo em um dos "intermediários" (Foto de Ricardo Damito)

Vou aproveitar esse espaço para repassar o agradecimento do pessoal da Fábrica de Monstrinhos à Plurágua, que de última hora forneceu toda a água que a galera precisou pra se rehidratar durante a competição.

Depois do festival, rolou uma sessão de filme de escalada. Tivemos a projeção do filme Progression, regada a muita carne e cerveja, pra fechar com chave de ouro um dia incrível! Ano que vem com certeza vamos organizar o segundo Fest Monstro, mas dessa vez com mais antecedência, e muito mais organizado, pra trazer ainda mais gente pra participar! Confiram outras fotos no álbum do facebook!

 

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XI Encontro de Escaladores do Nordeste – Serra Caiada

11
Sep

Valeu muito a pena! É esse o sentimento que ficou depois que eu voltei de Serra Caiada, onde aconteceu a 11ª edição do Encontro de Escaladores do Nordeste (EENe). Começando pelo o pico, que eu já conhecia e é realmente um dos melhores pico de escalada do Nordeste, quanto pela a organização do evento que entregou um encontro bem estruturado, com boas atrações (palestras e oficinas) e garantiu a interação dos mais de 200 escaladores que compareceram ao encontro. Houve sim alguns pequenos contratempos, mas nada que tirasse o brilho de todo o evento que teve momentos marcantes e emocionantes.

A Fábrica de Monstrinhos se fez presente no encontro com um bom número de escaladores. Nosso bonde tinha dois carros, com 4 pessoas em cada: eu, Ricardo Damito, Jorginho Damasceno (Quixadá), Alexandre Ortiz (Alê), Tiago Reis (Minhoka), Valberto Porto, Flavio Lobo e o Bruno Ginelli. Saímos de Fortaleza à 1 da manhã da quinta-feira, dirigindo a noite toda e chegando em Serra Caiada por volta das 7 da manhã. Chegando por lá encontramos a escola que serviria de alojamento já com várias barracas armadas, e o credenciamento dos escaladores rolando. O café da manhã já estava saindo também, então resolvemos comer alguma coisa antes de partir para a pedra. O café oferecido estava bem servido: pão, cuzcuz, ovo, salsicha, café, suco, fruta; tudo com fartura e com opções que dava tanto pra quem comia pouco, quanto para aqueles que devoram uma montanha logo de manhã. De “bucho” forrado, pegamos os equipos e partimos para a pedra.

O primeiro dia não foi muito produtivo para a gente, porque estávamos realmente cansados da viagem, mas ainda assim escalamos um pouco. Começamos pela face oeste do boulder principal, onde armamos uns “top ropes” pra galera iniciante escalar um pouco. O Jorginho e o Minhoka queriam escalar algo maior e eu fui junto. No caminho percebemos o cuidado da organização com as trilhas, bem sinalizadas e melhoradas para garantir um pouco mais de segurança. Escolhemos uma via no chute mesmo. Jorginho olhou a cara da linha e disse: vamo nessa! E fomos, sem pensar duas vezes. Jorginho guiou a primeira, eu fui no meio da corda, e o Minhoka veio recolhendo. Na saída da P1 o lance era complicadinho, delicado. Cisquei um pouco pra encontrar o caminho, mas saiu. Toquei pra cima e me juntei ao Minhoka que havia guiado a segunda. Completamos a via, rapelamos, e voltamos para o boulder principal.

Enquanto o pessoal escalava nos “top ropes” eu dei a volta pra ver o que estava rolando no outro lado. Bastante gente escalando, incluindo o convidado do evento, o escalador paulista Cesar Grosso. Ele estava tentando um projeto antigo de Serra (até as chapas denunciam a idade) chamado Mestre das Ilusões. Fazendo a seg estava o Júlio Pimentel (Francês), grande amigo agora morando no Rio Grande do Norte. Cesinha desceu da via sem isolar o mov lá de cima, e comentou que a via deveria ficar na casa do 10º grau. Troquei uma ideia rápida com ele e depois segui com a galera para um novo setor de Serra Caiada, a caverninha.

Setor da Caverninha lotado! (Foto de Pedro Caminha)

O setor da caverninha estava bastante lotado, muito gente escalando ali. Mas também não era pra menos. O lugar além de ter ótimas vias, de graus variados, ainda é muito agradável no final da tarde. Ali havia uma via que estava na minha “ticklist” para o encontro, a Arcuzinho do Francês, um 6sup. Chegamos na hora que uma turma estava desequipando a via e entramos nela em seguida. Minhoka, Jorginho, Damito e depois eu. Todos mandando a via de flash, e deixando o top armado pra o resto da galera tentar. Enquanto estávamos lá, conhecemos uma das boas ideias do encontro: um kit de primeiros socorros itinerante. Uma equipe ficava passeando pelos setores com o kit, caso houvesse alguém necessitando de algum curativo, remédio, ou cuidados. Bem legal a iniciativa.

Terminados os trabalhos na caverninha e tomamos o rumo da escola. Eu, Flavio, Valberto e Alê fomos na frente, e tomamos banho antes de ir jantar. Encontramos o restante do pessoal no restaurante, comemos e voltamos para a escola, onde ia rolar a palestra do Cesinha. Chegando lá o resto da galera descobriu que estava faltando água na escola. Um pequeno imprevisto de primeiro dia de evento, mas que foi sanado rápido e nos outros dias tudo rolou sem problemas.

Antes da palestra ainda rolou a entrega de alguns brindes que já haviam sido sorteados, e para a minha supresa, eu era um dos premiados. Meu prêmio? Um kit cadena da 4Climb. Engraçado como a marca mineira não me larga nem nos sorteios. O Menger fez questão de tirar onda dizendo que eu não precisava, que devia doar. E na verdade eu doei uma parte do kit entre os amigos da trip.

Cesinha falando de suas experiências na rocha e em competições (Foto de Ricardo Damito)

Cesinha falou um pouco da experiência dele na rocha e nas competições, mostrando imagens fantásticas dos picos europeus que visitou e dos campeonatos de que participou. Palestra bem legal de um dos melhores escaladores do Brasil! Logo após a palestra, eu mal conseguia manter os olhos abertos. Cai no saco de dormir e apaguei.

O segundo dia era pra gastar os dedos e os braços, já que estávamos todos bem descansados. Comecei participando de uma aulinha de Yoga que rolou na quadra da escola, o que deu pra dar uma bela de uma acordada no corpo antes de partir para a pedra. Tomamos o café e partimos. Dessa vez se juntou ao grupo o Karel, que morava em Fortaleza e treinava com a gente, mas agora está morando em Salvador.  Então estávamos em 9 e resolvemos fazer 3 trios e encarar algumas tradicionais. Nos trios ficaram Damito, Alê e Flavio; eu, Valberto e Karel; e Jorginho, Minhoka e Bruno. Os primeiros ficaram com a Los Manos (a via que nós havíamos escalado no dia anterior no chute), eu fiquei com a Aplysia e o terceiro trio com a Os Pioneiros. Guiei as duas enfiadas da Aplysia para o Valberto (que veio no meio da corda) e o Karel.

Face leste de Serra Caiada lotada!

Normalmente eu fico meio tenso fazendo parede, mas nessa eu estava realmente tranquilo, executando os procedimentos sem pressa, e escalando com calma e tranquilidade. Terminamos a via bem depois dos outros, já que o nosso trio era bem menos experiente, mas correu tudo bem, mesmo com um contratempo da corda prendendo no grampo durante o primeiro rapel, mas que o Valberto soube contornar sem se desesperar. Pontos pra ele! O Flavio na primeira parede da vida dele também mandou muito bem e completou a via passando o lance perrengoso depois da P1 e tomando algumas quedinhas pra apimentar o negócio. O Bruno acabou não completando a primeira via com o Jorginho e o Minhoka, mas depois entrou com eles na Gênesis, e foi devidamente “descabaçado” em vias longas!

Depois dali eu estava com vontade mesmo era de destruir os dedos em alguma esportiva. Enquanto estávamos ali na base da Gênesis e Malu de Andrade, o Juan Alves acompanhado do Cesinha passaram rumo ao setor das Falésias. Era a deixa que eu precisava. Dei o toque na galera e fomos pra lá. Objetivo do dia: tirar uma via da lista de pendências! A via em questão era a Ressureição do Stick, o 7a mais  nojento que eu já entrei na vida, e do qual apanhei na primeira vez que fui em Serra Caiada. Enquanto eu me preparava pra entrar nela, o Cesinha estava entrando na Retorno de Jedi 9a. É incrível ver a facilidade e a fluidez com que ele se move na rocha. Ele equipou a via e depois encadenou, sem muitos problemas. Eu também fiz o mesmo no meu 7a. Entrei equipando e relembrando os  betas, e depois fui pra cadena. Bem dentro do que eu esperava.

Nesse meio tempo, a galera da organização apareceu por lá. Jalon e Menger vieram para organizar um desafio de escalada que ia dar uma bota da Snake para o vencedor. Recrutaram os participantes ali mesmo, para escalar à vista a via Transmento de Pensaferência, um 8b. Eu mesmo tendo acabado de escalar a Ressureição do Stick e estar com os dedos moídos pelos regletinhos dela, resolvi entrar na brincadeira. No total foram 7 pessoas participando, mas uma delas era o Cauí, o que tira toda a diversão da brincadeira. Cauí foi o penúltimo a entrar na via e quase encadena a maldita. Eu entrei por último, já com a organização tirando a foto do campeão, pra vocês verem a confiança que era depositada na minha pessoa. Mas tudo bem, eu não passei da segunda costura mesmo…

Participantes do desafio Snake

Descemos a trilha já no escuro, e encontramos o resto da galera lá embaixo. Voltamos para a escola, tomamos aquele banho e fomos comer. O restaurante estava lotado de escaladores, o que era algo realmente muito bom de se ver. O encontro deu uma bela movimentada na economia local durante esses 3 dias. A dona do restaurante mesmo comentou que gostaria que tivesse encontro todo ano!

Voltamos para a escola para acompanhar a palestra da Kika Bradford. Depois de apresentar os resultados da Semana Brasileira de Montanhismo, ela iniciou o relato da sua escalada no Fitz Roy acompanhada de Bernardo Collares. A medida que a história foi se aproximando do seu desfecho, o clima de descontração cedeu espaço para emoção e silêncio. Todos ficaram atentos e calados enquanto Kika narrava os últimos momentos do amigo. Um momento realmente muito emocionante e um dos pontos altos do encontro, que terminou com uma salva de palmas com todos de pé.

Um outro momento emocionante e marcante desse final de dia foi o depoimento de Menger, ao relembrar o começo de tudo e se emocionar em ver o a quantidade de escaladores presentes ali, concretizando algo que ele havia idealizado há muito tempo. Ele não conseguiu conter as lágrimas, e muitos dos presentes também não.

Depoimento emocionado de Menger no "encerramento" (Foto de Ricardo Damito)

Depois dali praticamente todo mundo foi para um dos “points” da noite Serra Caiadense, a Acapulco Dance. A maioria ficou do lado de fora, tomando uma cerveja, comendo alguma coisa e jogando conversa fora naquela última noite de encontro. O clima estava realmente bem legal, e os escaladores eram praticamente a maioria ali, todos trocando ideia e confraternizando.

Chegou o domingo, e era dia de partir, mas não sem antes dar mais uma escaladinha. Acordamos cedo, e pouco depois das 7 já estávamos na pedra. Fiquei no boulder principal com a galera mais iniciante, enquanto Jorginho, Damito e Minhoka foram fazer a Malu de Andrade. Armei o “top rope” na Tiranovaca 5sup, e logo depois na Grampeleta 6sup, o que foi o suficiente para a galera escalar e acabar com o resto dos braços. Quando o resto dos escaladores estavam chegando para a escalada do domingo, nós estávamos saindo. Ainda tínhamos mais de 6 horas de estrada pela frente. Arrumamos as tralhas, nos despedimos do pessoal e partimos.

Foi um belo encontro. Organização quase impecável, bastante gente escalando, convidados de peso, boas palestras, boas oficinas. Realmente um trabalho muito bem feito que merece os parabéns. Jalon, Menger, Dandara, Léo Paulista, Debora, Carol, Júlio, Denn, Ary, e todos que fazem parte da AERN, obrigado por esse grande encontro! Que os próximos EENe possam retomar o ritmo a partir de agora, e que possamos desfrutar de mais momentos memoráveis como esse, ano que vem na Paraíba!

Os "montrinhos" e Serra Caiada (Foto de Ricardo Damito)

 

 

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Domingão com caras novas na rocha

5
Jun

Esse final de semana, depois de exato um mês desde que toquei na rocha no Rio de Janeiro, conseguiu finalmente voltar ao habitat natural. O destino desse domingo foi a já conhecida Pedra do Garrote na Caucaia, que oferece boas opções para os iniciantes, e agora também tem algumas vias mais fortes, com proposta até de 8a.

Depois de uma noite de sábado com filme de escalada, churrasco e uma quantidade razoável de bebida, ainda houve 8 bravos que toparam ir na rocha no domingo. Acabaram indo eu, Damito, Alex, Jorginho (que estava em Fortaleza no fim de semana), e a primeira safra de novos monstrinhos que tem treinado no muro: Karel, Davi, Bruno e Leandro. Desses, apenas o Bruno ainda não tinha ido na rocha, e era a segunda vez do Davi escalando fora do muro.

O primeiro bonde chegou mais cedo, com eu, Damito, Jorginho, Leandro e Bruno. Chegamos por lá e encontramos já gente na pedra, o Sérgio com a namorada Janaína, e o figura do Júnior Maia. Estávamos prontos pra escalar, mas São Pedro parecia não querer colaborar. O tempo fechava e abria. Chovia um pouco e parava. Até que uma hora resolveu firmar e o sol apareceu com força.

Começados os trabalhos, e armei o primeiro “top rope” num quarto grau para que o Bruno finalmente pudesse estrear na rocha. E para a primeira vez, ele foi muito bem, assim como já tinha ido bem no muro. Leandro teve de se contentar em ficar só olhando e tirando foto, já que está com uma lesão no ombro e por ordens médicas ficou de fora. O Davi, mesmo com apenas 4 meses treinando no muro já está mandando muito bem. Quarto grau pro cara já é moleza. De “top” ele mandou até o 5sup da Trilhas sem rumos, uma via completamente vertical e bem técnica. Ele ainda encarou dar uns pegas num 7a que espancou todo mundo por lá. O Karel, que já escalava antes de entrar na Fábrica, também foi muito bem, entrando guiando em sexto e fazendo as outras vias de “top” com facilidade.

Davi, novo garoto propaganda da Petzl (Foto: Leandro Livramento)

Bruno no final da primeira via na rocha, com formiga e tudo (Foto: Ricardo Damito)

Karel guiando a Bala Perdida 6/6sup (Foto: Ricardo Damito)

Eu acabei nem escalando muito, tanto na quantidade quanto na qualidade. Levei um verdadeiro espanco do 7a da Vala Louca sem conseguir ler a sequência direito. Acabei terminando a via com algumas quedas no segundo pega, depois de algumas várias agarras quebrarem, mas acho que já sai na próxima vez. Mas só ter ido por lá e ter presenciado a Fábrica de Monstrinhos finalmente dando frutos,  trazendo novas pessoas pro esporte e recebendo a galera que já escalava e não queria ficar parado, já valeu a pena.

Galera reunida no final do dia. (Foto: Ricardo Damito)

A Fábrica já tem hoje quase 20 frequentadores assíduos, desde a galera mais “velha” e experiente que construiu o muro, até os novatos no esporte, incluindo aí dois garotos de 15 anos. Agora é manter o ritmo, e quem sabe não chegamos no EENE com uma delegação própria da Fábrica? Talvez ainda seja cedo, mas acho que uma verdadeira fase de renovação na escalada cearense está se iniciando, e um futuro próspero nos espera.

 

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Campeonato Brasileiro de Boulder – Primeira Etapa

4
May

No final de semana passado rolou no Rio de Janeiro a primeira etapa do Campeonato Brasileiro de Boulder, organizado pela Adrena com o apoio da CBME. Como não devia deixar de ser, fui lá conferir a competição e também entrei pra participar. No total foram mais de 100 atletas inscritos nas mais diversas categorias, o que garantiu um espetáculo bonito pra quem passou pela praça General Tibúrcio na Urca. O muro montado pela Adrena estava fantástico, com seus 4,5 metros de parede com a base muito bem protegida por colchões. Negócio tava gringo!

O muro do campeonato brasileiro, a galera aguardando e o Pão de Açucar ao fundo.

No sábado rolaram as categorias amadoras, da qual participei. Eram cerca de 40 atletas no masculino e feminino, divididos em 5 categorias: Adulto A, Adulto B, Sênior, Infantil e a Paraclimbing. Eu participei na Adulto B, juntamente com mais 6 escaladores.

Cheguei pra competir ainda com receio de me machucar novamente, então não estava com grandes pretensões de conseguir qualquer resultado importante. Minha ideia era de escalar sem pressa, testando os boulders que não piorassem a lesão. Mas meio que por milagre, no dia da competição eu não senti absolutamente nada, e escalei quase como se estivesse 100%. Os problemas estavam divididos em 4 categorias: brancos (valendo até 1.000 pontos), os amarelos (valendo até 5.000), os azuis (até 10.000) e os pretos (até 20.000 pontos).

De início resolvi aquecer em alguns brancos, que estavam aparentemente na faixa do V1/V2. Fiz o primeiro com facilidade e ia aquecer em mais um ou dois, mas com a minha torcida do lado de fora gritando pra eu “escalar de verdade”, acabei pilhando e entrando em seguida em um dos amarelos. O primeiro tinha uma passagem de pinças pequenas bem nojenta, mas que consegui dominar logo na primeira tentativa, caindo na próxima agarra por não ter visto uma agarra de pé. Tentei mais uma vez esse e mandei. Me senti bem, e resolvi realmente ficar nos amarelos. O próximo também mandei de segunda, mas já com o gostinho amargo de não ter mandado em flash. O mesmo acontecendo com o terceiro, mais uma vez por negligenciar uma agarra de pé. Já tinha 3 amarelos no bolso, somando perto dos 10.000 pontos.

Entrei para tentar o amarelo que parecia ser o mais difícil, na parede que tinha uma dominada (mas que pediam pra não dominar). Entrei umas 4 vezes nele, caindo sempre no mesmo lugar. A essa altura já tinha tentado 5 dos 6 amarelos e mandado 3. Resolvi entrar no último que me restava com a intensão de mandar de flash. Fui bem confiante e sólido nos movs e saiu meu único boulder amarelo flash. Com 4 boulders amarelos anotados, ainda faltava algo de pontuação maior pra fechar as 5 maiores pontuações. Eu queria tirar aquele branco dali. As opções eram o amarelo mais difícil, que eu já tinha tentado demais, um outro amarelo que terminava num bote imenso, e um azul, que parecia ser o mais mandável de todos, principalmente depois do beta encontrado pela galera de fazer um “figure four” no agarrão. Resolvi tentar a sorte no azul.

O mais difícil dos boulders amarelos. Cai sempre nesse lance...

O único que saiu de flash...

Logo na primeira tentativa acertei o  bote no agarrão, e fiz bem o “figure four”, chegando na penúltima agarra. Só faltava o bote pra agarra final. Primeira tentativa e chão. Mas ter chegado tão perto de mandar e a ótima pontuação do boulder, me fizeram continuar tentando. Tentei mais umas 4 ou 5 vezes, todas indo no chão na hora do bote. Uma das vezes cai até de cara, beijando os colchões e atestando a qualidade da proteção (aprovado galera!). Não senti nada! O fiscal do boulder ao lado já tava de saco cheio de me ver caindo ali do lado dele o tempo inteiro. Fui pra mais uma tentativa e dessa fez fiz diferente. Mudei a pegada da agarra lá em cima e consegui esticar e fazer o mov estático. Azulzinho no bolso, mais 6000 pontos pra cartela. Com esse eu já estava satisfeito com a minha pontuação, mais ainda assim resolvi tentar o amarelo do bote. Deu umas 4, 5 pegas nele e apesar de achar que poderia mandar, resolvi deixar pra lá e ficar com o que tinha conseguido: 18.200 pontos, achando que isso podia me dar até o primeiro lugar na minha categoria.

Durante a minha participação no amador, observei bastante a galera escalando, e era bonito só de assistir. O Raphael Nishimura, único participante da categoria Paraclimbing, deu um show a parte. Fez todos os boulders que o Belê tinha preparado pra ele e em seguida partiu para os brancos e foi mandando. Sempre com a torcida da galera. Ver também a pequena Julia, aluna do Centro de Escalada Jacarepaguá, escalando era muito inspirador. Ela mandou muito bem nos boulders que entrou, com uma movimentação de fazer inveja a muito escalador mais velho. Acabou levando um susto no final, quando caiu do final do boulder de costas nos colchões, mas não foi nada demais. Outra figurinha que me chamou a atenção, foi o participante mais jovem, que tinha 7 anos de idade. Um garotinho lorinho, que chegou acompanhado da mãe. Depois do primeiro boulder dele, que ele não conseguiu mandar, ele sentou e frustrado, começou a chorar. Tirou as sapatilhas e não quis mais participar. Fiquei com dó dele, e quase chego pra conversar com ele e dar uma força, mas não fiz isso. Acho que só faltou isso pra ele, um escalador falar pra ele que cair era normal, que todo mundo cai.

Uma hora depois do final do festival, saiu o resultado, e quase como esperado, fiquei em segundo, 1200 pontos atrás do primeiro colocado da Adulto B. Em terceiro ficou o Léo (Paulista) Medeiros, que mora no Rio Grande do Norte, o que deixou o podium da Adulto B quase todo do nordeste. O Adulto B feminino teve a escaladora Debora Hashiguchi em primeiro e Anaceli Vieira em segundo, as duas vindo do Rio Grande do Norte. No geral, contabilizando todas as categorias, eu teria terminado em 12º lugar. Nada mal dentro de um total de 32 escaladores competindo. Mas sai de lá com a certeza que dava pra ter ido melhor, e vou tentar isso em uma próxima etapa, provavelmente a etapa em Belo Horizonte.

O pódium da categoria Amador Adulto B (Foto de Debora Hashiguchi)

Pódium Feminino do Amador Adulto B

No domingo foi a vez dos profissionais  nas categorias master. Não dá nem pra contabilizar a quantidade de gente forte participando, vou citar apenas os favoritos. No masculino, os óbvios favoritos eram  Felipe Camargo e Cesar Grosso, Jean Ouriques bem próximo dos dois. No feminino os dois maiores nomes eram Thais Makino e Anna Shaw, com a Thais como grande favorita. Felipinho estava saindo de uma lesão no dedo, mas ainda assim não encontrou muita dificuldade pra passar pra final, algo que foi menos difícil ainda para Cesar Grosso. Depois de mandar apenas 5 boulders, todos na maior pontuação, ele deu por terminada a sua participação no festival e foi aguardar o resultado e descansar para a final. Uma das grandes atrações da competição foi o jovem Rafael Takahace, de 16 anos, que não ficou atrás dos melhores e acabou garantindo passagem para as finais. Depois de 4 horas de festival, os finalistas foram os seguintes:  Cesar Grosso, Felipe Camargo, Jean Ouriques, Beto Ferragut, Rafael Takahace, Pedro Rafael, Pedro Nicolosso e Marcelo Balesteros  no masculino;  Thais Makino, Anna Shaw, Luana Riscado, Bianca Castro, Flor Kessling e Tatiana Caloi no feminino.

Felipe Camargo durante o festival.

Rafinha Takahace mandando bem e garantindo a vaga na final

Cesar Grosso perto de finalizar mais um boulder

Thais Makino passeando nos boulders

Luana Riscado perto do top durante o festival.

As finais foram emocionantes, principalmente o feminino. Eram quatro boulders, 30 minutos para tentar todos em sequência. Depois de ir tentar o próximo boulder, não podia mais voltar para o anterior. No feminino Thais Makino deu um show. Encadenou todos os boulders da final, com destaque para o último, com um bote de lado muito bonito. Quase no fim Anna Shaw também quase manda esse boulder, depois de muitos pedidos da torcida para mais uma tentativa. Luana Riscado fechou a participação na final com um top, garantindo o terceiro lugar.

No masculino Belê pegou pesado, e todos os boulders estavam extremamente difíceis. Tanto que uma agarra bônus virava automaticamente vantagem e muitos passavam pro próximo boulder logo depois de dominar uma agarra bônus. O primeiro boulder não viu nenhum top. Muito menos o segundo, que viu poucos avançarem mais de duas agarras. Felipinho foi o primeiro a tentar o terceiro boulder, que parecia bem a sua cara: bidedos e monodedos. Ele entrou muito bem, e logo na primeira tentativa tocou a agarra final. Foi o suficiente pra todos virem tentar o boulder também. Cesinha e Jean Ouriques também foram muito bem nesse boulder, quase fazendo top. Felipinho voltou para a segunda tentativa e depois de dominar a agarra final com uma das mãos, caiu quando tocou com a segunda. Apreensão geral pra saber se ele tinha feito ou não o top, que acabou sendo validado pelos fiscais, para o azar de Cesinha, que até ali estava sendo o campeão pelo resultado do festival. Todos correram para o último boulder quando Beto Ferragut foi bem na primeira tentativa, mesmo com a costela trincada. Mas o tempo estava curto, e ninguém conseguiu encadenar, ficando assim a vitória da primeira etapa com Felipe Camargo, sob protestos (justos) de Cesar Grosso.

Felipe Camargo quase dominando a agarra final. (Foto: Caio Pimentel)

Final masculina - Master

Beto Ferragut no último boulder da final (Foto: Caio Pimentel)

Pódium do Master Masculino

Pódium Master Feminino (Foto: 4Climb)

O resultado final de todas as categorias ficou assim.

Master Masculino

1. Felipe Camargo

2. Cesar Grosso

3. Jean Ouriques

Master Feminino

1. Thais Makino

2. Anna Shaw

3. Luana Riscado

Juvenil A

1. Yan Kalapothakis

2. Lucas Groenner

Juvenil B

1. Vitor Fujita

Adulto A Masculino

1. Tiago Rodrigues

2. Rafael Rebello

3. Lucas Sá

Adulto B Masculino

1. Guilherme Ferraz

2. Neudson Aquino

3. Léo Medeiros

Adulto A Feminino

1. Daniela Grassi e Glauce Ibraim

3. Alessandra Dias

Adulto B Feminino

1. Debora Hashiguchi

2. Anaceli Vieira

3. Graziela de Oliveira

Sênior

1. Brady Robinson

2. André  (Godoffe) Monteiro

3. Goro Shiraiwa

Paraclimbing

1. Raphael Nishimura

Infantil (sub-13)

1. Julia Dias

Fazendo agora uma reflexão sobre o campeonato, o saldo foi bastante positivo. O muro ficou de uma qualidade incrível e as vias criadas pelo Belê também. Gostei do modelo festival e realmente fica bem interessante, e mais dinâmico, mas ainda gostaria de ver finais no estilo IFSC, um boulder e um atleta de cada vez, em todas as categorias, quando o número de atletas permitisse. Senti falta de alguma premiação na competição, além da medalha. No amador qualquer coisa já seria válida. Na minha opinião motiva mais os atletas a participarem. Quem duvida que uma das motivações do master são as passagens para Paris? Eu não. Achei que a categoria infantil deveria ter boulders próprios, assim como a Paraclimbing, para evitar a frustração de alguns jovens atletas, como o garotinho que citei ali em cima. Em termos de divulgação senti a falta da cobertura de algum veículo de imprensa. Não me lembro de ter visto nem uma rede de televisão fazendo matérias durante a competição (se houve, me corrijam). E pra fechar, faltou uma festa! Campeonato de escalada combina com festa de encerramento. No mais tudo foi bem, e a competição tende a crescer e ficar cada vez melhor! Parabéns a todos os envolvidos, principalmente ao Pedro Leite da Adrena, que assumiu a frente de tudo e fez o negócio acontecer.

Em junho tem a segunda etapa em São Bento do Sapucaí, e a temporada do Brasileiro fecha em Agosto, com a terceira etapa em Belo Horizonte, que quero muito estar presente.

 

 

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Copa RN

2
Apr

E ai galera, cheguei hoje de manhã de Natal depois de participar da minha primeira competição de boulder, a Copa RN, que rolou no sábado no Centro de Treinamento Pium, e a primeira coisa que eu tenho pra dizer é que estou destruído. Competir cansa demais. Eram muitos boulders, e pra pontuar você acaba se puxando pra tentar fazer os mais fortes, e acaba completamente drenado de energias. Mas foi muito bom!

Cheguei em Natal no sábado de manhã bem cedo, liguei para o Júlio e fiquei aguardando ele na rodoviária. Conheci o lugar onde ele está morando em Parnamirim, uma vila bem legal, que faz você parecer estar morando no interior, mas ainda estando pertinho da cidade. Saímos pra conhecer a praia enquanto esperávamos o Otto chegar e dar a hora da competição, marcada para 13hs.

O Otto chegou já quase meio dia, e aproveitamos para ir comer antes de competir, afinal de contas escalador de buxo vazio não sobe nada. O lugar escolhido foi o Bar do Cação, onde comemos um peixe frito delicioso e servido com uma rapidez fenomenal. De lá fomos direto para o CT Pium, onde iria rolar a competição.

Vilinha onde o Júlio mora com a Carol

Galera fazendo os últimos preparativos pra Copa

A estrutura CT Pium é modesta, mas isso não impediu que o route setter Leo Paulista criasse boulders interessantes nos mais diversos graus de dificuldade. A classificatória da Copa rolou em estilo festival. Vários  boulders com pontuações que variavam de 100 a 4000 pontos, e todo mundo entrando no que queria, os mesmos boulders para homens e mulheres. Não cheguei a contabilizar, mas creio que eram uns 15 homens e 1o mulheres competindo.

Ficha com os boulders do festival

Tenho que admitir  no começo bateu um nervosismo antes  de entrar no primeiro boulder, mas comecei pelos mais fáceis e fui relaxando e escalando melhor.  Eu já entrei pra escalar sabendo que os 3 primeiros lugares estava garantidos e esses eram de Caui Vieira, Júlio Pimental e Adilson Otto. Ficavam então as outras 3 vagas para a final em disputa.

Fui entrando nos boulders mais fáceis e conseguindo fazer todos de primeira tentativa. Alguns de forma não tão sólida. Mas conseguir ir somando os pontos cheios foi me dando confiança, que foi importante pra quando sobraram apenas os boulder mais difíceis. No total eu consegui encadenar 8 boulders, sendo um deles em 3 tentativas. Esse era um boulder na aresta do muro externo, que eu acabei escorregando 2 vezes e só encaixei na terceira, já pensando na disputa por uma vaga na final.

No meio da competição, um susto. A escalada Janine Falcão da Paraíba, desceu de mal jeito de um dos boulders e acabou torcendo o joelho. A preocupação foi grande na hora, mas aparentemente não foi nada sério e ela voltou pra casa ainda no sábado.

Ao final das 4 horas saiu o resultado do festival: Caui em primeiro, Júlio Pimental em segundo, Otto em terceiro (nenhuma surpresa até aqui) eu em quarto, Jalon Barbosa em quinto e Leo Boulder em sexto. Na pontuação final os 4 últimos ficaram muito próximos e a disputa pelo terceiro lugar ia ser interessante. Fiquei surpreso de ter ficado em quarto no festival, e por mim estava de bom tamanho. Mas ainda faltava a final e eu sabia que ia mais ter que lutar pra manter o quarto do que conseguir o terceiro. No feminino não houve final, e a classificação ficou sendo a do festival, que teve Debora Hashiguchi em primeiro, Anaceli Vieira em segundo e Dandara Queiroga em terceiro.

Saímos todos para comer algo enquanto o route setter montava os problemas da final. Eu já estava me sentindo completamente destruído pela mais de 3 horas de escalada contínua e sabia que ia ser foda tirar mais energia pra escalar dois novos boulders que com certeza iriam estar muito difíceis.

Voltamos e ficamos os 6 finalistas no isolamento aguardando a hora de sermos chamados. Primeiro foi Leo Boulder, em seguida Jalon Barbosa e eu seria o terceiro a entrar. Quando cheguei para entrar no primeiro boulder, já sabia que Leo e Jalon haviam ido bem, embora não tivessem encadenado o problema. Só não sabia que a saída do boulder era tão difícil.  Tentei várias vezes e não consegui travar na segunda agarra depois da saída. A saída era difícil mas a leitura do boulder era bastante óbvia, e eu sabia que quem tivesse conseguido ficar na segunda agarra, avançava pelo menos mais umas 3. Ia ser difícil manter o quarto lugar, mas o pior era a sensação de não ter saído do canto. Mas isso melhorou um pouco quando Otto chegou pra escalar e eu o vi tentar umas 4 vezes a saída até encaixar.  Realmente o negócio estava difícil. Tão difícil que o único a fazer a saída de primeira foi o Caui. Que não só fez a saída de primeira, como o boulder inteiro. Um verdadeiro passeio.

Entrei no segundo querendo pelo menos ir mais longe. E logo na primeira tentativa consegui avançar bastante no problema. Mas o boulder era também difícil e de leitura bem mais complicada que o primeiro. Fiz várias tentativas mas não consegui achar o beta para chegar mais longe que a primeira entrada. Foi o jeito sentar e aguardar os próximos. Otto foi bem e pra mim parecia ter garantido o terceiro lugar. Então entrou o Júlio e com algumas tentativas bem diferentes conseguiu avançar bastante e quase travar na penúltima agarra. Mas ai entrou o Caui que mostrou realmente estar numa forma incrível, e apesar de não ter encadenado o boulder, deixou todos de queixo caído com a solidez com que fez os movimentos, e a força demonstrada no mov para chegar na penúltima agarra.

E o resultado final, que não foi surpresa pra ninguém, foi Caui em primeiro e Júlio em segundo. O terceiro lugar acabou ficando com Leo Boulder, numa recuperação incrível, o quarto com Otto, Jalon em quinto e eu terminei na sexta posição. Poderia ter terminado melhor, mas competição é assim mesmo, e essa foi minha primeira. Talvez se eu tivesse me desgastado menos no festival, tivesse ficado melhor para a final, mas isso é algo pra se pensar na próxima competição que é o brasileiro,  e até lá eu tenho um mês pra treinar.

No final sai de lá com uma ótima impressão da competição, que apesar de utilizar uma estrutura modesta conseguiu se mostrar divertida para os mais iniciantes e instigante para aqueles que estavam disputando posições. O modelo festival é bem democrático e acho que vai ser o modelo utilizado mais na frente em alguma competição na Fábrica.

Mas eu ainda tinha o domingo, e combinamos de ir para Serra Caiada acabar com o que restou de braço. Fomos eu, Júlio, Carol, Anaceli e um mineiro gente boa demais que estava por lá, Bernardo. Eu já tinha tirado completamente da cabeça a idéia de qualquer cadena, já que estava muito cansado e dolorido. Até o bíceps doía. Chegamos em Serra depois do meio-dia, quando a sombra já estava na parede. Júlio aqueceu na Invasão de Privacidade e eu aqueci na Grampeleta. Não consegui mandar ela inteira, mas dado o meu estado, e sendo minha primeira entrada do dia, achei até boa minha performance. Do boulder principal subimos para as paredes, onde o Júlio foi entrar no novo projeto de Serra, aberto por ele, ainda sem cadena e ainda sem  nome (ele aceita sugestões). Segundo o Júlio a via deve ficar na faixa de 8c/9a, ainda mais depois de duas agarras que ele quebrou tentando.

Julio no seu projeto sem nome em Serra

Eu fiquei por ali, tentando me decidir no que entrar, e acabei entrando na Coronel e o pescador, um 7a. Entrei sem nenhuma pretensão, só queria chegar no final pra desequipar. As primeiras chapas é uma escaladinha bem fácil, um 5sup talvez, mas mais acima você chega numa barriguinha, que é onde fica o crux de 7a.  Já tinha visto o Otto fazendo e tinha uma idéia de como fazer, e resolvi tentar com tudo pra ver se saia com a cadena em flash. Entrei no crux e consegui fazer o lance, mas perdi tempo para costurar e achar a próxima agarra e acabei bombando. De qualquer forma gostei. Se eu estivesse bem descansado ali com certeza a via sairia de flash, talvez até à vista, deu pra sentir isso. Será o treinamento fazendo efeito?

De qualquer forma o fim de semana valeu muito a pena. A Copa RN, bem organizada, divertida e instigante, e a escaladinha em Serra no dia seguinte. Pena pro pessoal da Fábrica que desistiu de ir. Mas outras oportunidades virão.

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Boulders de um domingo à tarde

23
Aug

Era domingão, os planos eram ficar em casa e quem sabe dar um pulo na Fábrica de Monstrinhos de tarde pra ir adiantando algo das obras. Mas acabou que não ia ter nada pra fazer na Fábrica e ai resolvi dar o toque no Sávio pra gente dar um pulo no Garrote, espécie de campo-escola que fica na Caucaia, a cerca de 20 km de Fortaleza. A ideia era fazer apenas um bate e volta rapidão à tarde. Demos o toque no Alex também e ficou fechado o bonde. Mochila pronta com todos os equipos, olhei pro Crash Pad e pensei: Porque não?! Levei o crash pra qualquer coisa dar uns pegas em alguns blocos que vi na trilha até a pedra.

Chegamos lá por volta das 2 da tarde e subimos a trilha acelerado, avistando logo o primeiro bloco. Parei pra mostrar pro Sávio e o Alex a linha que eu tinha visualizado nele. Alex pilhou logo pra entrar no boulder, o Sávio entrou na vibe, e os planos de escalar com corda foram pro espaço.

O primeiro bloco, modesto pra quem já escalou nos blocos de Ubatuba, tinha essa aresta meio abaulada que parecia bem interessante. A ideia da linha era sair bem do começo mesmo, ainda sentado, e seguir a aresta até o “bico” do bloco e fazer a virada lá. Jogamos o crash no chão e começamos os pegas. Logo de cara deu pra sacar que o boulder ia precisar de muito posicionamento, não tinha onde segurar na aresta, era só grudar a mão mesmo, jogar o corpo pro lado e esperar ficar. Pouco a pouco fomos progredindo um pouco mais nela, cada um tentando um novo beta. O primeiro a chegar perto foi o Alex, mas na hora de se posicionar pra entrar nos movimentos finais ele foi praticamente ejetado do boulder, tamanha pressão que ele tava fazendo. E com isso o projeto já ganhou nome: Eject! Ainda tentamos mais um pouco e eu cheguei mais perto ainda de encadenar. Fiz a aresta inteira, mas não consegui achar posição e agarras pra subir mais e fazer a virada.

Sávio e eu analisando a linha do projeto Eject

Resolvemos deixar o Ejetct um pouco de lado e procurar mais blocos. Indo pra direita do bloco do Eject, passando uma cerda, encontramos outro bloco. Esse mais altinho, mais vertical, mas com base horrível. Mas ainda assim resolvemos encarar. Alex visualizou uma linha, que saia em duas agarras boas, e ia fazer meio que uma travessia pra esquerda. Mas as agarras depois da saída eram pequenas e machuquentas e praticamente não tinha agarra de pé. Mudamos pra outra linha, mais pra esquerda do bloco, que tinha agarras e pés melhores. Tentei uma vez pra ver qual era, e quando cheguei lá em cima não vi como continuar. Olhei pra baixo, pra base duvidosa e resolvi não tentar subir mais. Depois de mais alguns pegas e um beta do Alex, entrei de novo. Dessa vez achei uma agarra muito boa, e toquei pra cima, com uma viradinha meio tensa, sem ter muito onde segurar. Primeiro boulder do Garrote. Sávio foi em seguida e também mandou. Acho que esse deve ficar na casa do V0.

Saímos de lá e fomos atrás de outro bloco, agora pra esquerda do bloco do Eject. E encontramos um interessante, próximo a uma árvore morta. A linha mais óbvia o Sávio tentou logo, e mandou sem muitos problemas, abrindo o que talvez seja outro V0. Também fui entrar nele, e num movimento desastrado bati o cotovelo com força na pedra, batizando o boulder: Dor de cotovelo! Mas voltei nele e mandei também, assim como o Alex.

Nesse bloco ainda achamos outra linha, que seria de poucos movs, mas bem interessante. O problema saia com as duas mão em um batente meio escorrido, que só pra ficar nele já era fazendo força, e dali tinha que ir catar uma agarra bem pra direita, pra depois cruzar numa agarra melhor e fazer a virada. Tentamos sair com os pés embaixo, mas o que tinha de pé ficava horrível pra sair. O jeito foi sair somente com o pé esquerdo, e fazer o flag com a perna direita, o que deixou a saída do boulder muito bonita. O que não era bonito era o formigueiro que ficava bem embaixo do crash, e fazia com que cada tentativa fosse bem rápida. Foi por causa disso, de duas belas ferroadas que o Sávio levou e da explosão que o boulder precisava, que ele ganhou o nome de Formiga Atômica.

Saídinha do Formiga Atômica V3

Saídinha do Formiga Atômica V3

Iniciamos as tentativas, e experimentamos  algumas alternativas pra chegar na outra agarra, sem muito sucesso. Até que o Alex descobriu o beta, que era bem direto: dinâmico com a direita, tapa na agarra e ficar! Simples assim. Ele foi lá e mandou o boulder! Movimento realmente bem forte e bonito! E ai foi minha vez de tentar. Tentei uma, tentei duas, tentei 3 vezes e nada de conseguir ficar na agarra. Os dedos estavam queimando e já querendo abrir, mas eu tinha que tentar mais uma vez. Foquei no movimento e bati certinho na agarra, grudando com os 3 dedos abertos nela. Fechei o reglete, posicionei o pé direito e cruzei pro agarrão. Boulder mandado, e discutindo com o Alex, achamos que a brincadeira ficou com cara de V3.

Alex e eu travando na agarra depois do dinâmico

Alex e eu travando na agarra depois do dinâmico

E foi o fim da pequena sessão de boulder no Garrote. Saldo de 3 boulders abertos e um projeto, que deve ficar também na casa do V3. Próxima vez por lá é procurar mais alguns blocos e ver o que dá pra tirar ainda ali. Mas o certo é que a empolgação ficou, e já ficamos meio que combinados de ir atrás de um verdadeiro campo de boulder no Ceará, e eu já tenho um pico em potencial: Serra da Meruoca em Sobral. Mas essa vai ser uma outra história!

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Escalada no feriado pra conhecer o novo setor de Redenção!

16
Aug

Essa segunda-feira foi feriado aqui em Fortaleza, e depois de não ter ido escalar no final de semana por conta do dia dos Pais, essa folga de começo de semana foi uma benção, então tinha que aproveitar. Já fazia mais de um mês que eu não ia na rocha, ocupado com o projeto e outros assuntos relacionados ao novo muro da Fábrica de Monstrinhos, então a fissura tava grande pra escalar de novo. Fechei o bonde com o Tiago Minhoka, Alex, novo membro dos Monstrinhos vindo diretamente do Paraná, e o Feijó, que ainda tá começando mas com uma vontade de louca de estar na rocha sempre que pode.

Saímos de Fortaleza com destino a Redenção, mas dessa vez o dia de escalada não ia ser no tradicional setor do Assombrado, e sim em um novo setor, batizado de Pitombeira! A promessa dos outros membros dos Monstrinhos que já tinham iniciado os trabalhos de conquista no setor, era de paredes de mais de 150 metros, com vias de mais de 5 enfiadas, transformando Redenção em um pico quase completo de escalada, faltando apenas os boulders. E a promessa se converteu em realidade!

Chegando na frente da pedra, ainda com a trilha inteira pra caminhar, a impressão é de uma pedra muito suja, sem possibilidades de vias, mas quando se chega na base da pedra se percebe o imenso potencial do local. Paredes gigantescas de granito, em pelo menos 3 faces, com potencial para algumas dezenas de vias clássicas, de todos os níveis. Claro, a pedra não é completamente limpa de vegetação, mas a que existe é bastante espaçada, formando moitas em alguns pontos. O resto é pedra limpa, esperando por novas vias!

Feijó de segundo e eu guiando a terceira enfiada.

Feijó de segundo e eu guiando a terceira enfiada.

Depois de uns 20 minutos de trilha cansativa, chegamos na base das vias, até agora duas. Tiago que participou do começo dos trabalhos nos mostrou um projeto, numa face vertical da pedra, até agora com 3 enfiadas na casa do 7º grau. Mas nosso objetivo não era esse, e sim escalar a via mais longa do local, um provável 4º V de 6 ou 7 enfiadas. Não sabíamos se a conquista tinha sido completada no dia anterior, pelo Mario e o Damito, mas as chances eram grandes de que estivesse pronta.

Começamos a subida por volta das 10 da manhã, comigo e o Minhoka guiando a primeira enfiada e o Alex e Feijó vindo de segundo. No começo da primeira enfiada, não tendo prestado atenção por onde o Minhoka e o Alex tinham seguido, acabei indo pelo lado errado e encarando uma aderência sinistra! Acho que a única coisa que me fez passar esse longo trecho (acabei pulando uma chapa nessa brincadeira) foi a certeza absoluta de que eles tinham ido por ali. Então já que eles passaram, eu tinha que passar também. O que o orgulho não faz né? Fazendo lance fiquei receoso pelo Feijó, porque achei que ele não conseguiria passar por ali, mas ainda bem que era o caminho errado, e o certo era bem mais fácil. Prestar atenção da próxima vez!

Ainda precisando de algumas paradas duplas!

Ainda precisando de algumas paradas duplas!

Passamos direto da primeira parada e seguimos direto pra segunda, enfrentando o primeiro crux da via, um lance que deve ficar na faixa do 5º grau, mas bastante tenso pra fazer guiando. Nessa parada troquei de dupla com o Alex, e ele guiou pro Feijó e eu para o Minhoka.  A terceira parada fica alguns metros abaixo de um teto que segue pela esquerda, mas a via continuava por um diedro pela direita, que o Minhoka guiou primeiro, descobrindo que essa enfiada tinha lances em móvel, e fazendo uso das peças que ele tinha levado. Feijó foi em seguida, com o Alex guiando logo atrás e eu seguindo de segundo. Com certeza essa enfiada foi a mais legal de se fazer da via. Os lances em móvel eram em agarras boas, mas de movimentação bem interessante, com pegas de lado e uso do pé bem alto.

Galera reunida na P5

Galera reunida na P5

A próxima parada devia ser a quarta, mas o Feijó percebeu que o Minhoka tinha pulado uma parada antes dos lances em móvel. Então estávamos na parada 5 da via, e ainda com mais coisa pra subir! Dessa vez o Alex foi quem se animou de guiar primeiro, e acabou passando um aperto umas 3 chapas pra cima, em lances com lacas podres e poucas opções de pés.  Ele abortou a tentativa, e o Minhoka escalou até ele de segundo e tentou guiar o restante, passando maus bocados também, mas conseguindo chegar na próxima parada. Eu e o Feijó ficamos na P5, e eles rapelaram de lá, Minhoka tinha ido até a última parada, mas mais uma vez tinha pulado uma antes. Então no total a via ficou com 7 enfiadas, algumas mais curtas, outras mais longas, que deve dar algo em torno dos 120 200 metros de via, creio eu. Ótima via, e grande opção de escalada clássica agora mais perto de Fortaleza. Parabéns aos conquistadores Mario Carvalho, Ricardo Damito, Jorginho Mascena e Paulo Joca!

Lá de cima, contemplando o visual da “serra” de Redenção, consegue-se avistar algumas outras paredes, que podem guardar ainda mais potencial para a escalada na região. Fiquei com a sensação que agora é que começamos a descobrir a ponta do iceberg, e que ainda tem muita pedra pra achar e conquistar por ali.

Começamos nossa descida, com o Alex e o Feijó rapelando sozinhos, e eu e o Minhoka rapelando em simultâneo usando Grigris, algo que eu nunca tinha feito na vida. A opção pelos Grigris foi por não termos um ATC extra para o Feijó que ainda não tem o equipamento básico e foi pra lá meio sem saber o que o esperava. Na verdade, nem eu sabia o que me esperava. No final das contas correu tudo tranquilo, chegamos na base sem problemas ou contratempos, e pegamos o caminho de volta! Parada básica no posto para a tradicional Coca gelada com Doritos, completamente destruídos, mas totalmente felizes com mais um dia irado de escalada! Até a próxima galera!

Visu da P5, com alguns picos em potencial no fundo!

Visu da P5, com alguns picos em potencial no fundo!

Postado por admin em : Pessoal, Relato

Ubatuboulder, uma trip quase perfeita!

12
Jul

Parece coisa de maluco, sair daqui de Fortaleza, viajar sei lá quantos mil quilômetros, pra passar praticamente só um dia escalando. Mas foi só porque foi pouco tempo que essa trip não foi perfeita, porque por todo o resto, não sei como poderia ser melhor: um pico fantástico, com um visual incrível, uma galera irada, e todos numa energia fenomenal! Foi realmente muito bom! Mas pra vocês entenderem eu tenho que contar, vai ficar longo, mas tenham paciência.

Ubatuba foi minha primeira trip de boulder. Nunca antes na vida desse escalador uma trip tinha sido dedicada apenas à essa atividades que alguns preferem fazer num dia de descanso. Mas a escolha pra começar essa história foi Ubatuba e foi acertada.

Saimos de Fortaleza, eu e Daniel Mamede, na sexta meio dia. Enfrentamos três horas e meia de voo até São Paulo, pra de lá pegar mais uma hora e meia de estrada, de ônibus, até São José dos Campos, onde fizemos uma pequena visita ao muro do Purga, pra pegar algumas idéias para a nova Fábrica de Monstrinhos. Dormimos por lá, na casa do André Braga, primo do Daniel, e seguimos com ele no dia seguinte para Ubatuba! Dos 3, só eu ainda não conhecia o tão falado pontão da praia da fortaleza!

Chegamos por volta das 9:30 da manhã e seguimos direto pros boulders! Não tinhamos tempo a perder! Dez horas já estávamos dando início aos trabalhos, entrando na primeira brincadeira do dia: Ferro de Passar V3. De cara  já achei esse V3 mais forte do que o único que eu tinha escalado até hoje, o Charlie Brown no Grajaú. Mas trabalhei um pouco, achei o beta, e encadenei. Daniel também mandou o boulder um pouco depois.

Saímos dali e fomos entrar no Dorotéia, que dizia o André, era outro V3. Trabalhamos um pouco os lances e o Daniel mandou sem muito esforço. Eu mandei em seguida. Mas depois acabamos descobrindo que o Dorotéia, segundo o croqui, era um V5, mas que não terminava por onde a gente terminou, tinha mais alguns movimentos antes de fazer a virada. No final das contas eu nem sei o que foi que eu mandei, mas ficou com cara de V3 também.

Nesse meio tempo já tava escalando com a gente o Bruno, amigo do André, e se juntou o Ian Munoz, que tava por ali sozinho e a gente chamou pra dar uns pegas no Pro Abaulado V2. Esse foi mais dentro das expectativas. Errei na tentativa em flash, mas na segunda saiu a cadena. Daniel também mandou com bastante facilidade.

Saímos de lá e fomos tentar um dos grandes clássicos de Ubatuba: Van der Walls, outro V3. André mostrou como era o problema, mandando fácil, logo de primeira. E ai começaram as tentativas. Várias! Mas sem muito progresso. Até que nos deram o beta de travar com o joelho em uma das agarras, ai o negócio começou a ficar mais perto. Mas ainda assim, dominar o reglete mais em cima tava difícil. Parecia estar faltando o posicionamento correto. Já estava no que eu considerava meu último pega no boulder e cai mais uma vez, mas nessa tentativa deu o estalo do que eu devia fazer pra dominar a agarra. Resolvi dar mais uma chance e fui pra mais uma tentativa. Saiu tudo perfeito! Mordi o reglete e abri mais a perna direita pra ficar na agarra quase de oposição. Era o que precisava. Cruzei pra agarra melhor mais em cima e ai eu já sabia que tinha mandado, foi só manter a calma e fazer a virada. Clássico de Ubatuba no bolso, pra voltar pra casa satisfeito. Ótima a sensação de virar um boulder que você já tentou bastante e já ia desistir.

No meio dessas nossas tentativas pelos boulders do pontão eu fiquei de olho na galera que ia chegando, já que fomos os primeiros a chegar por lá de manhã. A galera da 4Climb chegou um pouco depois. O Felipe Alvares “Kbeça”, que a gente já tinha encontrado na frente da casa onde iríamos ficar, e o Daniel Mendes “Tiodan” que chegou depois.

Mas eu estava mesmo era a espera do Caio Gomes, que já tinha se tornado amigo pela internet e que agora ia ter a oportunidade de conhecer pessoalmente. E por volta do meio dia, aparece aquele carioca meio com cara de marrento, óculos escuros, fone de ouvido, completamente na dele. Mas foi só chegar e cumprimentar pra confirmar que o cara é realmente gente fina demais. Até parecia um velho amigo que tava reencontrando e não vendo ali pela primeira vez. Junto com ele o caçula da família Buscapedra, Pedro Gomes, da mesma vibe do irmão.

Outra galera que eu já conhecia pela internet foi chegando depois também, como o Gibara e o Linha. Conheci também o  jovem talento da escalada brasileira, Rafael Takahace, e o pai, Mauro,  que demonstra o apoio incondicional que tem pela paixão do filho de 15 anos, acompanhando nas trips e registrando tudo. Muito bonito de se ver!

Apareceu também gente que eu já tinha conhecido em outras trips pelo Brasil, como o Carlos, que eu conheci na primeira vez que fui no Cipó, e o Eric, que eu conheci da segunda trip no Cipó. Muito legal rever essa galera!

E claro que essa galera chegou pra escalar também, e encadenar. E eu fiquei por ali assistindo, vendo os monstros escalar. No meio disso presenciei a cadena dupla do Cracolândia V12, pelo Beto de Campinas e o Esteban do Rio. Justo o boulder que o Caio Gomes estava tentando e que parecia engasgado. Vendo a cadena dos 2, ele entrou duas vezes tentando encadenar e não conseguiu. Dava pra ver que aquilo tava mexendo com a cabeça dele, e apesar de estar ali tentando passar a vibe, nessa hora eu nem sabia o que dizer. Mas ele se aprontou pra uma terceira entrada, depois de repassar o beta que ele já sabia que era o certo pra ele. Foi lá, e com determinação e a vibe da galera embaixo, saiu a cadena tão esperada. Segundo V12 do Caio! E como eu tinha falado pra ele antes, eu ia tá lá pra presenciar. Fiquei com fama de pé quente! Um grande momento do Ubatuboulder!

Por volta das 15hs o André teve que ir embora, e eu e o Daniel acompanhamos para tirar as mochilas do carro e deixar na casa alugada pelo pessoal da 4Climb. Aproveitamos pra descansar um pouquinho a pele, que já tava reclamando um pouco. A combinação rocha abrasiva e pele fina por falta de treino e escalada não foi das melhores! Fomos comer alguma coisa e voltamos para o pontão pra uma nova rodada de tentativas em novos boulders!

Vimos o Carlos entrando em outro V3, Curta Metragem, que pareceu interessante e resolvemos tentar também. Junto também estava a Roberta, escaladora de Belo Horizonte, se não me engano. Dos 3, ela foi a única que mandou o boulder. Na escalada é assim, sem espaço pra machismos bestas, porque a mulherada escala forte pra caramba por aqueles lados.  Ficamos ali tentando várias vezes, mas pra mim o boulder parecia não estar encaixando direito e deixei de lado.

Vi uma movimentação em frente ao Van der Walls, e resolvi checar. Era o Daniel Tiodan dando um estímulo pras cadenas. Quem encadenasse o Van der Walls, ou o Wanderléia V4, ou o Jantar V4, levava um brinde. Como eu já tinha mandado o Van der Walls, resolvi entrar na brincadeira com o Wanderléia. Me juntei ao Gibara, ao Eric e ao Hugo, de BH, nas tentativas. O crux do boulder era juntar as mãos na aresta, saindo de um crucifixo. Ou seja, segura a porteira! Foi tentado de tudo, calcanhar, toe hook, mas nada tava jeito. Até que o Hugo encaixou o toe hook certinho e conseguiu juntar, mas na hora de soltar o pé o pêndulo era grande demais pra ficar. Enquanto a gente se matava no Wanderléia, o Pedro Gomes brigava com o Jantar, já bastante cansado depois de ter mandado 2 V7.

A noite chegou, os boulders iluminados pelos holofotes e as headlamps, mas a disposição não diminuiu. Galera continuou escalando, embalada pela vibe da música eletrônica. Depois de desistir do Wanderléia, acabei aceitando o desafio do Felipe Alvares e fui tentar um V6: Cérebro! Saída esquisita, com o calcanhar já bem alto e dois regletes nojentos, um deles, segundo o Hugo, carnívoro! E lá fomos nós: Eu, Daniel, Hugo, Eric e Roberta. Negócio era difícil, e com o cansaço, o corpo começou a reclamar. Numa das tentativas a panturrilha pediu penico, e a câimbra veio. Ainda tentei mais uma vez, mas vi que não rolava mais tentar o Cérebro, com aquela puxada de calcanhar logo na saída.

Mas como tava todo mundo escalando ainda, e a vibe tava legal, ignorei um pouco os sinais do corpo e resolvi dar uns pegas no Pézinho V4, já que tinha uma galera tentando. Me resumi a tentar isolar o crux do boulder: um belo de um dinâmico de lado, num lance de teto, pra um agarrão irado! Preciso dizer que era longe? Cai várias vezes e não consegui nem segurar de verdade na agarra. Era o sinal pra tirar as sapatilhas e parar de escalar. Afinal de contas foram quase 10 horas de escalada, praticamente non-stop, num pico de boulder de rocha abrasiva! Uma hora tinha que acabar a pilha e a pele, e não teve superbonder que desse jeito. De tão cansado, acabei perdendo o night climb que rolou até 4:30 da manhã  no pontão, com muita música, vinho e cerveja. Cerveja que eu desisti de esperar por volta da s 21h da noite, achando que o tiozinho do barco tinha dado o xexo na galera.

O domingo ia ser curto. Só tínhamos a manhã se quiséssemos  escalar mais alguma coisa. E voltamos pra lá por volta das 10hs pra acabar com o resto de pele. Os músculos das costas e dos braços já começavam a reclamar, mas ainda dava pra gastar um pouquinho mais. O escolhido foi o Sertão V3. Outro conhecido de trips passadas, o Alex, estava por lá tentando com uma galera, e resolvemos nos juntar a eles. Daniel deu só um pega e mandou o bendito. Ele já tinha mandado em outra trip e disse que era por causa disso, só pra poder continuar dizendo que estava fraco. Eu ainda dei uns 3 pegas no boulder, sem sucesso. Parecia faltar gás pra explodir na agarra final e fazer a virada. Mas como diz o velho ditado repetido à exaustão na trip: “O sofrimento é passageiro, desistir é para sempre”; lá fui eu pra mais uma tentativa, com o mesmo espírito do último pega no Van der Walls. Consegui achar força onde não tinha mais e explodi certinho na agarra. Demorei pra achar posição pra virada, mas consegui e mandei. Mais um V3 pra colocar no 8a.

Ainda tentamos escalar alguma outra coisa mais fácil, mas o tempo já tava curto demais. Deixamos o pontão e fomos almoçar antes de enfrentar as 5 horas de viagem até São Paulo, e de lá mais 3 ate Fortaleza. Fiquei feliz de ainda ter encontrado com o Caio e o Pedro, pra poder me despedir, deixando com eles um presente bem cearense: rapadura! Nos despedimos também da galera da 4Climb, e pegamos o caminho de volta.

Hoje estou aqui, escrevendo esse relato e ainda sentindo dores musculares. Mas em nenhum momento me arrependo de ter ido. Como bem disse o Caio  no blog dele, foi o melhor Ubatuboulder da história e foi meu primeiro. Primeiro de muitos!

ps: Queria terminar esse post completamente pra cima, mas aqui tenho que dizer algo não tão legal, mas pra gente daqui do Ceará. Durante o evento acabou surgindo a pergunta inevitável: e o encontro?! Mais uma vez, como muitos dos outros escaladores do Ceará interpelado nos picos de escalada pelo Brasil, eu tive que responder a única coisa que eu podia: que  não sabia. Queria poder dizer que o encontro vai ser fantástico, que eles tem que aparecer por lá em novembro, mas não vou dizer algo que eu não sei se vai se concretizar. Uma pena! Fica o toque pra organização trabalhar melhor e divulgar como andam os preparativos para o evento.

Postado por Neudson em : Relato