Treinar de verdade
Já faz um tempo que eu queria colocar em prática uma verdadeira rotina de treinos. Quando eu falo verdadeira rotina de treinos, me refiro à visão errônea que muita gente ainda tem, de que treino de escalada é somente escalar. De que basta ir no muro ou boulder, todo santo dia, e ficar fazendo vias e mais vias até cansar.
Mas a verdade é que esse tipo de “treino”, apesar de dar resultados com o tempo, não é o mais eficiente. Um treino de verdade tem que ser seriado, ter trabalhos específicos pra cada coisa (força, resistência, potência) e também prever incrementos na intensidade a cada novo ciclo. Um treino de verdade também tem que vir acompanhado de uma boa alimentação, antes e depois dos treinos. E principalmente, um treino de verdade tem que prever dias de descanso. Claro que cada um, cada corpo, é um universo completamente diferente, e cada um vai responder diferente aos mesmos estímulos. Por isso o importante é achar seu modo de treinar, o que funciona pra você.
Essa semana vou começar a procurar esse meu caminho e vou tentar usar a abordagem do famoso livro “How to climb 5.12″, que consiste em ciclos de 10 semanas, focando em treinos específicos de resistência, força de pegada e resistência anaerobica durante esse tempo. O ciclo se inicia com uma fase de 4 semanas de resistência de base, onde o foco vai ser mais ou menos o que todo mundo faz: escalar, escalar e escalar; procurando manter a intensidade dos movimentos numa faixa intermediária e aproveitando também para prestar atenção na técnica. Nessa fase vou me concentrar em travessias nos negativos mais leves da Fábrica de Monstrinhos, tentando chegar nos intervalos e na intensidade ideal na primeira semana, e depois seguir o padrão nas próximas 3.
Depois dessas 4 semanas, vem 3 semanas de treino de força, basicamente força de pegada. Nesse ainda vou decidir qual vai ser o melhor método: boulder ou finger. Segundo o livro, o melhor método para treinar força de pegada é o HIT (HyperGravity Isolation Trainning) que consiste em uma série de agarras idênticas num negativo entre 45º e 50º onde você treina um tipo de pegada por vez. Mas como na Fábrica de Monstrinhos nós (ainda) não temos uma “HIT Wall”, vou ter que ficar com uma das duas opções, talvez o treino de finger mesmo, antecedido por um leve aquecimento. Talvez aproveite essas semanas também para iniciar treinos de tensão corporal.
A etapa seguinte são 2 semanas de resistência anaerobica o que alguns chamam de “power endurance”. Basicamente vai ser fazer séries de 3 a 5 minutos de movimentos fortes, no negativo de 45º com pequenos descansos entre cada série. Como nas semanas anteriores, vou tentar chegar na quantidade de séries, a intensidade e os intervalos de descanso na primeira semana e a última pra malhar de verdade. Segundo o Eric Horst, autor do livro, a chave é manter a intensidade alta o suficiente de forma que a falha muscular ocorra dentro do intervalo da série. Vou ver como isso funciona.
Ao final de tudo, existe uma semana de descanso. Nada de escalada por uma semana inteira, o que parece loucura pra muita gente, mas que é essencial para o corpo se recuperar e entrar no novo ciclo mais forte do que entrou no primeiro, e é ai que vai entrar os incrementos de intensidade, e onde você deve perceber a evolução.
Vou iniciar esse treino nessa terça-feira, e vou procurar postar aqui as dificuldades, os erros, os acertos, e compartilhar um pouco dessa nova busca com vocês. Meu objetivo de médio prazo é escalar meu primeiro 8c e V6 até o final do ano que vem, e no longo prazo, chegar ao 10º grau e nos V10 dentro de uns 4 anos, levando em conta que já ultrapassei a barreira dos 30 anos e o grau máximo que escalei até hoje foi um 7c. Vamos ver até onde os treinos me levam!
Se você estiver interessado em treinar de verdade também, um bom começo é se informar e ler bastante sobre o assunto (pra quem não tem escaladores mais experientes por perto, como é o meu caso). No site do Eric Horst tem uma série de artigos de treinamento bem interessantes, vale dar uma conferida.
A terra prometida dos boulders
Desde que comecei a escalar e que me apaixonei pelos boulders, que sonho em encontrar um pico de boulder aqui no Ceará. Enquanto a maioria está pilhada em escalar, ou abrir vias, eu ficava sonhando em encontrar um local com blocos a perder de vista, com pedra boa, e possibilidade de várias linhas. Nos últimos tempos, tenho começado a procurar por esse lugar, e achava que fosse demorar mais pra achar algo que chegasse perto, mas parece que os Deuses da escalada estava do nosso lado e possibilitaram encontrar essa tão sonhada terra prometida.
A trip desse final de semana tinha destino certo: Alcântaras, na Serra da Meruoca, 220km de Fortaleza. Eu já havia ido por lá uma vez e ficado abismado com a quantidade de pedra. Parecia o local tão sonhado. Blocos e mais blocos de granito, no topo da serra, onde o clima é um pouco mais ameno. Foram comigo os amigos Sávio Ribeiro e Alex Rodrigues, dois outros amantes de boulder. A estrada até a serra estava impraticável. Trechos esburacados misturados com trechos completamente sem asfalto, que segundo as placas, eram trechos em obra. Agora onde estavam as máquinas, eu não sei. Chegamos na serra 6 horas depois de ter saído de Fortaleza, num percurso que levaria a metade disso. Mas chegamos no lugar motivados a encontrar o primeiro verdadeiro pico de boulder do estado do Ceará. Alguém pode querer chiar, e dizer que o Ceará já tinha pico de boulder, mas por pico de boulder eu entendo um local com vários blocos juntos num pequeno raio, e não alguns poucos blocos espalhados aqui e acolá, que era tudo o que se tinha explorado até hoje aqui.
Começamos nossas incursões tentando descer até o vale onde havia a maior concentração de blocos, coisa de linda de se ver. Mas a medida que íamos descendo, íamos encontrando blocos no caminho e conferindo as possibilidades de linhas. Fomos então percebendo que o local parecia não oferecer o tipo de rocha ideal para escalada. Praticamente todas as rochas eram de um granito liso, arredondado, provavelmente devido a erosão por ação do vento. As agarras, quando apareciam, eram poucas, pequenas e distantes demais umas das outras. Isso foi baixando nosso entusiasmo, já que não enxergávamos uma linha sequer naquela quantidade imensa de blocos.

Incontáveis blocos no vale, mas nada de boulders. (Foto de Alex Rodrigues)
Passamos a primeira noite na serra tendo encontrado apenas uma linha em dezenas de blocos que olhamos. Resolvemos bivacar no topo da pedra do Talhado, um penhasco de pedra voltado para o sertão oeste cearense de onde, com o tempo limpo, pode se descortinar até o mar. Nunca havia visto céu tão estrelado quanto aquele. Naquele céu qualhado luzes, uma se destacou. Uma estrela cadente, cruzou o céu deixando um rastro imenso e causando um clarão quando sumiu. Seria um sinal?
No dia seguinte fomos atrás de outros setores, e tudo que achávamos era tão liso quanto as outras pedras que havíamos visto. Chegamos à rápida decisão de abortar a procura ali. Pela quantidade de rocha que havíamos visto, já dava para supor que tudo ali na região seria daquele jeito. Talvez ainda seja um local a ser explorado, mas não agora, não por nós. Quem sabe ali guarde os V altos do Ceará.
Resolvemos pegar a estrada de volta cedo, mas dessa vez pegando outra estrada, em melhor estado. Essa estrada passaria por Itapipoca (em tupi, Ita=Pedra e Pipoca =Estoura) e esperávamos lá encontrar alguma coisa. Mas os deuses da escalada parece que já haviam planejado algo para nós e mal sabíamos que toda a viagem faria sentido no momento onde achávamos que ela havia sido um desastre.
Cerca de 40 km da serra, estávamos nos aproximando da cidade de Santana do Acaraú. Ao longe, um daqueles vários serrotes que dominam a paisagem do interior cearense. Alguns afloramentos rochosos, mas não parecia nada demais. Até que começamos a contornar o serrote e o que surgiu por trás, foi o que você pode ver nesse vídeo (sem edição).
Fiquei embasbacado com o lugar. Uma parede incrível, com algo em torno de 40m de altura. Várias outras paredes menores, e a presença de rocha que parecia bastante interessante para boulders. O que chamava mais atenção, era não parecer granito, e sim um calcário, ou arenito. Resolvemos seguir um pouco até a cidade, almoçar e voltar para tentar ter acesso às rochas. No curto caminho até a cidade, algo em torno de 300 metros de onde estávamos, uma concentração de blocos chamou nossa atenção. Era o local que procurávamos, um campo de boulders! Na passagem identificamos os prováveis acessos e seguimos para almoçar. Voltamos por volta das duas e meia, e encontramos o caminho para as rochas em uma trilha bastante óbvia, e alguns poucos metros, cerca de 5 minutos de caminhada desde a estrada, estava lá. A terra prometida dos boulders no Ceará, e esse nome batizou o novo setor.

Terra prometida, primeiro setor do primeiro pico de boulder cearense.
Começamos a andar e conferir os blocos. A rocha era diferente de tudo que eu já havia visto. Alguma espécie de conglomerado sedimentar, com um agregante puxando pro arenito e várias pequenos seixos aflorando. Realmente bem diferente. Os blocos nesse setor não são tão altos, alguns poucos indo além dos 3, 4 metros de altura, mas as formações se mostraram muito interessantes e já fomos visualizando linhas à primeira vista.

Detalhe da rocha do setor Terra Prometida (foto de Alex Rodrigues)
Não tenho certeza de quantos blocos com linhas conseguimos identificar, mas com certeza ficou na faixa dos 10 blocos, apenas com uma olhada rápida. Resolvemos então enfrentar o calor e abrir as primeiras linhas. Sávio estava de longe o mais empolgado e já foi logo abrindo a primeira linha do local, que ele batizou de Xanadu. O nome surgiu da idéia de batizar os primeiros boulders com nomes de lugares místicos, lendários, que muitos procuraram, mas que ninguém jamais encontrou. Eu e o Alex entramos no boulder e demos a sugestão de grau: V0.


Na segunda ascensão do Xanadu
Daí foram saindo os outros. No mesmo bloco do primeiro saiu o Shangri-la, com sugestão de V1, FA também do Sávio. Ao lado dele eu iniciei um projeto, que deve ficar na casa do V3, mas não estava me sentindo bem, talvez pelo calor, e deixei pra outra oportunidade. O Sávio ainda abriu o Wonderland, que eu e o Alex também repetimos e sugerimos o V1 também pra ele. E esse foi o saldo dessa primeira incursão ao setor: 3 boulders e um projeto. Recolhemos as coisas e pegamos a estrada de volta. No caminho, um pouco depois da cidade, visualizamos outros blocos próximos a um pequeno açude e que pode ser um outro bom setor.


Alex tentando o projeto ao lado do Shangri-la


Sávio na cadena do Wonderland V1
Está inaugurado assim o primeiro pico de boulder do estado do Ceará. Devemos voltar lá em breve para abrir mais linhas, explorar outros setores e conferir o potencial do lugar também para a escalada esportiva. Eu acho que o local tem potencial para ser um pico de escalada completo, e que vai ser uma ótimo opção para os escaladores cearenses! Mas a busca ainda não terminou. Outros picos devem existir no estado, e vamos atrás deles!
Fábrica de Monstrinhos: a inauguração
Demorei mais de uma semana pra escrever esse post, mas agora vai! Sábado dia 14/10 rolou a festa de “inauguração” do novo espaço da Fábrica de Monstrinhos. Não tá tudo 100%, ainda faltam alguns detalhes pra finalizar, alguns acabamentos pra fazer, mas a galera tava na secura de voltar a treinar logo e por isso resolvemos botar o negócio pra funcionar. E pra apresentar o novo espaço nós fizemos uma pequena festa, onde rolou muita música, filme de escalada sendo projetado, cerveja, comida e claro, escalada! Compareceu bastante gente, quase 40 pessoas, que lotaram a Fábrica e fizeram o “test-drive” do boulder, ainda com poucas agarras colocadas, mas que já deu pra galera sentir o espaço e viajar nas possibilidades. Desce daí, doido! aproveitou o ensejo e sorteou entre os presentes alguns produtos 4Climb. Os sorteados além de levar pra casa um magnésio de qualidade, ainda ganhavam o direito de tirar uma foto comigo, e sem camisa!
Confiram algumas fotos da festa e o álbum completo no Facebook!

Bastante gente! (foto de Ricardo Damito)

Testando o negativo de 45º (foto de Ricardo Damito)

Força feminina! (foto de Ricardo Damito)

Galera nova! (foto de Ricardo Damito)

Até de tamanco foi! (foto de Ricardo Damito)

Magnésio 4Climb! (foto de Ricardo Damito)

Alexandre Ortiz, levou o Chalk Block! (foto de Ricardo Damito)

Matheus Carvalho levou o Chalk Ball e eu um banho de refrigerante... (foto de Ricardo Damito)

Alex Rodrigues levou o Super Chalk! (foto de Ricardo Damito)
De volta ao Rio de Janeiro
E ai pessoal, estou de volta da minha última viagem ao Rio de Janeiro, depois de 2 anos da minha primeira trip por lá. Apesar de não ter conseguido escalar muito, a trip foi muito boa, principalmente pela companhia.
A ida ao Rio, diferente da primeira vez, foi motivada principalmente pelo show de Eric Clapton na cidade maravilhosa, e claro que eu ia aproveitar pra escalar um pouco. Mas de antemão já sabia que ia ser difícil escalar todos os dias, visto que a segunda e a terça (10 e 11) era dia normal de trabalho pra todo mundo por lá e seria difícil conseguir parceria pra escalar. Mas tudo bem, me conformei com isso e resolvi aproveitar o máximo do tempo que tive.
Cheguei no Rio de Janeiro no sábado (08) de manhã e de lá peguei o ônibus até a casa do meu amigo Claudney, no Méier. Às 7:30 da manhã eu estava tocando a campainha dele, surpreendendo-o, pois ele achava que eu iria me enrolar pra chegar sozinho. Tenho que dizer quanto a isso, que um mês rodando sozinho na Europa me ensinou muito sobre me orientar sozinho numa cidade e me virar.
Tomamos um café rápido numa padaria próxima e pegamos o caminho da Urca, onde os planos era escalar algo no Morro da Babilônia pela manhã, enquanto no período da tarde eu deixaria o Claudney resolver outras coisas e me encontraria com o Caio Gomes para escalar alguns boulders.
Chegamos no morro da Babilônia por volta das 10hs da manhã, com um sol de rachar, o que desestimulou um pouco a Karla, namorada do Claudney e companheira inseparável de escaladas dele. Mas ainda assim encaramos entrar numa via fácil e bem protegida, a Luis Arnaud, o que eu achei bem vindo, já que não tenho muito traquejo com o estilo de escalada do Rio.

Na base da via Luis Arnaud
Me equipei com os brinquedinhos do Claudney, mosquetões minúsculos da Petzl, que mais pareciam chaveiros, e entrei na primeira enfiada da via, com uma saidinha bem técnica e esquisita, mas que passei sem muitos problemas. Fui progredindo, protegendo bem no começo, até que me senti um pouco mais confiante e pulei algumas proteções pra agilizar. Chegando na parada, armei a segurança para o Claudney e a Karla. Era a primeira vez que eu escalava no morro da Babilônia e achei fantástica a vista lá de cima, com uma visão privilegiada da Urca, Praia Vermelha e a enseada de Botafogo no fundo.

Guiando a primeira enfiada da via
O calor estava matando, e a Karla resolveu ficar pela primeira parada e descer, e eu toquei pra cima junto com o Claudney. Da segunda cordada já dava pra ver o onipresente Cristo Redentor acompanhando a nossa escalada. Uma paradinha rápida pra umas fotos e tocamos pra cima de novo. Com corda suficiente, passei direto na terceira parada, deixando de proteger com costuras longas em alguns pontos e complicando um pouco minha vida, mas nada demais. Chegando perto da quarta parada foi que eu vi o bicho pegar. Não conseguia achar por onde seguir para alcançar o agarrão claro mais em cima. Cisquei pra um lado, cisquei pra o outro, desescalei um pouco, e mantive a calma. Até que achei a sequencia certa e toquei pra cima, com um grande alívio. Dali pra cima acho que ainda havia mais duas cordadas, mas estava pra lá de quente, e resolvemos descer.

Com a Karla e Claudney na P1, e o Pão de Açúcar ao fundo.

Tocando pra cima até a quarta parada
Ficamos ali na Praia Vermelha, onde tomamos uma cerveja e comemos um cachorro quente para esperar o Caio, que viria acompanhado do irmão, Pedro, e o pai, Jorge. Enquanto esperávamos na sombra, com uma brisa pra lá de agradável soprando do mar, víamos os escaladores irem chegando depois da manhã de escalada. Encontramos alguns amigos do Claudney e conversamos um pouco. Por volta das 14:30 avisto os crashs do Caio e Pedro se aproximando. Muito bom rever os dois depois de Ubatuba, onde os conheci pessoalmente. Junto com eles o Jorge e a Luana Riscado.

Vida difícil essa de escalador...
Pegamos a pista Claudio Coutinho e fomos atrás dos boulders de um novo setor da Urca, o setor do Gomes. E não, o setor não tem esse nome por algum capricho narcisista da família Gomes. O nome se deve ao local ter sido a casa de um sem-teto chamado, obviamente, Gomes. Chegamos por lá e encontramos já uma galera escalando, entre eles o Raphael Gibara, que eu já havia conhecido também em Ubatuba. Pra mim foi uma surpresa, pois achei que ele estivesse morando em São Bento. Sem muita conversa, caímos nos boulders. O primeiro teste foi um problema bem técnico, que exigia um trabalho de pés preciso. Vi o Pedro Gomes ser derrubado duas vezes nele e pensei que talvez fosse forte demais pra mim, mas ainda assim resolvi tentar. Dei alguns pegas mas não consegui dominar a pinça mais em cima e trabalhar os pés pra bater no topo do boulder e fazer a virada. Resolvi dar um tempo e ver o que os outros estavam fazendo.
Acompanhei um pouco as tentativas do Gibara e do Pedro em um outro boulder, num bloco que formava uma pequena cave. Só a saída já era bastante forte. Tentei entrar, mas mal consegui tirar os pés do chão. O primeiro a mandar o boulder foi o Gibara, com certa facilidade até. E depois de algumas tentativas, o Pedro também conseguiu a cadena.
Fiquei tentando achar o que fazer, já que tudo parecia muito forte. Me juntei então ao Jorge na tentativa de uma linha quase na aresta do bloco principal do setor. Essa saiu fácil, de primeira. Acho que deve ficar na casa do V1. Depois desse, resolvi voltar para o primeiro problema. Usei um beta do Gibara, os movs encaixaram com perfeição e saiu a cadena. Depois de alguma deliberação, o pessoal chegou no consenso de que um V3 pra linha ficaria de bom tamanho. Eu concordei.
Saímos dali e descemos um pouco mais na pista porque o Pedro queria tentar o Mandrake, mas como a base não permitia muita gente lá embaixo, ficamos alguns conversando sentados nos crashs. Eu, Gibara, Jorge e o Felipe Assad, falando de pães, e conquistas do Jorge no Pão de Açúcar. A luz acabou e tivemos que ir embora sem o Pedro conseguir a cadena. Saímos de lá combinados de ir tomar uma cerveja na Lapa!
Eu admito, já estava acabado. Foram apenas umas 3 horas de sono no voo para o Rio de Janeiro, o dia inteiro escalando e ainda assim ir curtir a noite carioca. Mas a empolgação tava maior e fomos pra Lapa, que ficou às escuras antes de chegarmos lá, e ficamos num lugarzinho chamado Adega Flor de Coimbra. Sentamos por lá, pedimos uma cerveja e ficamos esperando o Caio, Pedro e Gibara que chegaram depois e se juntaram à conversa. Foi o final perfeito, pra um dia perfeito!

Galera reunida na Lapa
Domingo acordei tarde, e já sabia que não ia rolar escalar. Tudo que eu fiz foi almoçar, vendo todos os rubro-negros do Rio se preparando para o jogo do Flamengo, e pegar o caminho para o HSBC Arena, onde eu iria ver a lenda da guitarra, Eric Clapton, ao vivo. O Fla x Flu ficou pra uma outra oportunidade. Sem muito o que dizer aqui, a não ser de que o show foi sensacional e inesquecível. Depois de ver Paul McCartney, agora ver Eric Clapton, quase posso dizer que agora morreria feliz.
A segunda e a terça iam obviamente ser dias de descanso forçado. Apesar das diversas mensagens via Facebook procurando parceiro, não consegui nenhum. O jeito foi turistar um pouco no Rio e procurar outras coisas pra fazer. A segunda tirei pra dar uma volta pelo aterro do Flamengo, um pulo no shopping Leblon pra conhecer a nova loja da The North Face, e uma ida na sede do Flamengo, algo que não tinha feito em 2009. De lá o destino foi a Lechen, loja de equipamento de montanhismo na galeria River, no Arpoador. Meu objetivo era comprar uma outra sapatilha modelo Defy, da Evolv, só que meio número menor. Mas infelizmente não tinha o número que eu queria. Como o objetivo de usar uma sapa menor era deixá-la mais esportiva, resolvi mudar logo de estilo e fui aceitando as sugestões do pessoal da Lechen, a Thais e o Franklin, que me atenderam super bem. Testei a Es Pontas Lace, a Optimus Prime e por último a Talon, que foi a que achei ter caído melhor e acabei me decidindo por ela. Fica ai a dica então pra quem precisar comprar equipos no Rio de Janeiro.

Lechen Montanhismo
Terça feira o objetivo era apenas um: fazer a trilha da pedra da Gávea. O tempo estava meio estranho, chuviscando, e quase desisto de ir, mas resolvi pegar o ônibus e ver no que dava. Cheguei na entrada da trilha, deixei meu nome com os guardas, e fiquei sabendo que eu era o único maluco a estar entrando na trilha naquele dia. Também pudera, havia chovido bastante de noite e o tempo ainda estava fechado. Comecei a subir a trilha por volta das 11hs da manhã, e coloquei no marcador do celular o tempo de 2h e 30 min, que era o tempo máximo que eu esperava gastar na trilha.

Começo da trilha da Pedra da Gávea
O início é bastante tranquilo, mas sempre subindo, a unica dificuldade era realmente o chão molhado e escorregadio. Com uns 45 minutos de trilha alcancei o que eu achei ser a pedra do Navio, e logo depois o primeiro trepa-pedra. Ainda bem que o negócio tinha uns degraus de metal na pedra, caso o contrário eu teria que voltar devido a pedra estar muito molhada. Toquei pra cima, e depois de mais um pouco de trilha normal outro trepa-pedra, dessa vez mais fácil e sem degraus. Continuei subindo até chegar num platô amplo de onde pude avistar a cabeça do Imperador pela primeira vez.

Cabeça do "Imperador"
Dali foi uma trilha bem íngreme até o local onde começa a Carrasqueira, um trecho de “escalaminhada”, visualmente fácil, mas que por eu nunca ter feito, a pedra estar molhada e o tempo estar bastante fechado, ainda ameaçando chuva, resolvi deixar pra uma outra oportunidade. Acabei me contentando com a vista da Barra da Tijuca e de Jacarepaguá, o que já foi fantástico. Depois de tomar um pouco de isotônico e comer algo, comecei a descida, e em mais 40 minutos estava na saída da trilha. Pena que não deu pra ir até o final e descortinar o Rio inteiro lá de cima, mas de uma próxima vez eu completo a trilha.

Visual desde a carrasqueira
Quarta-feira chegou, meu último dia no Rio de Janeiro. Os planos eram ir para Niterói e conhecer a pracinha de Itacoatiara junto com a família Gomes. Sai da casa do Claudney por volta das 9 horas da manhã, rumo a praça XV de onde pegaria a barca pra Niterói. Consegui pegar a barca de 10h30 e depois de 20 minutos de travessia, estava nas áreas da família Buscapedra.

A caminho de Niterói
O Caio Gomes já estava me esperando de carro, e de lá fomos para a casa dele, onde por insistência da matriarca da família, dona Jussara, ficamos para o almoço. Nesse meio tempo fui apresentado à história da família, vendo os vários álbuns de fotografias das escaladas do clã Gomes. Fotos da década de 70 e 80, com o Jorge escalando e conquistando ao lado de gente como Sérgio Tartari, passando pelas fotos do Caio e Pedro dando os primeiros passos na rocha, até se tornarem os dois ótimos escaladores que são hoje. Muito legal ter podido compartilhar dessa história.
Depois do almoço, o destino foi a pracinha. Já estava ansioso pra conhecer o pico, que só havia visto por foto e alguns vídeos do Caio. A primeira impressão que eu tinha, de que era perto da casa dos Gomes, foi por água abaixo. O negócio é longe, e levamos uns 30 minutos pra chegar lá. A segunda diferença, o setor é bem menor do que eu tinha imaginado. Itacoatiara é um bairro abastado de Niterói e a pracinha fica encravada no meio de vários casarões. Mas apesar de estar em área nobre, a praça é mal cuidada, o que deixa os escaladores locais indignados, pois apesar de tentarem ajeitar as coisas, tem sempre suas tentativas barradas por alguns moradores que se sentem incomodados com a presença dos mesmos. Engraçado é que eles não parecem se incomodar com os beberrões que deixam latas e garrafas na praça e com os despachos deixados ao ar livre pelos praticantes da Umbanda.
Mas enfim, estávamos ali para escalar, e o Caio Gomes foi fazendo o tour pela praça, mostrando os principais blocos. E eu fui ficando surpreso, pois apesar de pequeno, o setor guarda muitas linhas bonitas e fortes. Quase todo bloco no lugar dá bons boulders, um aproveitamento fantástico!
Mas o tempo estava passando e resolvi começar a brincadeira. Entrei primeiro em uma aresta (ou seria uma fenda) que pareceu bem fácil e no ponto pra dar uma esquentada. Entrei no boulder e consegui mandar sem problemas, sem precisar usar os betas que o Jorge me deu. Depois desse, tentei algo um pouco mais difícil, o Bailarina V3. Saída baixa, com pegas invertidas, pra depois ir seguindo por pequenos regletes no topo da aresta. O boulder quase sai de segunda, mas na hora do domínio, alguma agarra de pé que eu estava usando quebrou e eu vazei. Dei um tempo e entrei mais uma vez, dessa vez usando o beta do Pedro, o que facilitou mais ainda minha vida. Minha primeira cadena na Pracinha.
Depois desse, não me restava muita opção a não ser entrar no Rising from the Vala, V4 clássico de Itacoatiara. O boulder segue uma linha negativa, de pegas boas, mas com um domínio em agarras abauladas. No primeiro pega já consegui bater no abaulado em cima, mas não consegui trabalhar os pés para fazer a virada. E isso acabou sendo o crux, já que tentei umas 5 vezes o boulder e em todas, apesar de em algumas ir melhor do que em outras, eu não consegui fazer o domínio. A rocha abrasiva comeu a pele dos dedos rápido e resolvi deixar para uma outra vez a cadena do Rising. Enquanto isso, fiquei acompanhando o Caio Gomes dar uns pegas num antigo projeto seu, que deve ficar na casa do V12/13, e se empolgar de novo em encadenar o problema.

A família buscapedra: Jorge Gomes, Caio Gomes e Pedro Gomes
A energia acabou, e fomos beber e comer algo num quiosque na beira do mar, onde rolou uma conversa sobre o desenvolvimento da escalada no Brasil, a falta de incentivo para o surgimento de novos escaladores, principalmente escaladores de parede. E conversa vai, conversa vem, chegou a hora de voltar pra casa. E voltamos pra casa apenas para tomar um baita susto! Entramos no elevador, eu, Caio e Pedro, e logo de cara o Caio percebeu uma goteira dentro do elevador. Achamos estranho mas deixamos de lado. O Caio havia esquecido de apertar o botão do andar do apartamento deles e o elevador começou a descer, mas quando chegou perto do térreo, um solavanco e um estrondo deu o maior susto na gente. Quando o Pedro abriu a porta do elevador, estávamos uns 40cm abaixo do piso do térreo. Conclusão óbvia: o elevador havia despencado com a gente dentro! Graças a Deus despencou de um local baixo, creio eu, e ninguém se machucou. Apenas o Caio e o Pedro ficaram bastante assustados, já que moram ali praticamente a vida inteira e nada do tipo havia acontecido antes. Depois do susto, foi só brincadeira.
Mais uma vez desfrutei da fantástica hospitalidade da família Gomes, que me fez sentir em casa, e aguardei a hora de ir para o aeroporto. A ideia era ir de Táxi, que se mostrou muito caro, e logo mudei para o ônibus. Mas quando se aproximou a hora de ir pegar o transporte para o aeroporto, o Jorge se levantou e disse: Vamo lá, a gente deixa ele! Fiquei sem acreditar, era longe pra caramba, e ainda assim ele se dispôs a me deixar no aeroporto. Me despedi da Dona Jussara, e fui para o aeroporto acompanhado do Jorge e do Caio. Me despedi dos dois como se estivesse me despedindo de membros da família e fui para o saguão do aeroporto já sentindo a saudade chegar. Mal espero a hora de voltar, ou de reencontrar meus irmãos das pedras por ai! Até a próxima pessoal e obrigado por tudo!
Boulders de um domingo à tarde
Era domingão, os planos eram ficar em casa e quem sabe dar um pulo na Fábrica de Monstrinhos de tarde pra ir adiantando algo das obras. Mas acabou que não ia ter nada pra fazer na Fábrica e ai resolvi dar o toque no Sávio pra gente dar um pulo no Garrote, espécie de campo-escola que fica na Caucaia, a cerca de 20 km de Fortaleza. A ideia era fazer apenas um bate e volta rapidão à tarde. Demos o toque no Alex também e ficou fechado o bonde. Mochila pronta com todos os equipos, olhei pro Crash Pad e pensei: Porque não?! Levei o crash pra qualquer coisa dar uns pegas em alguns blocos que vi na trilha até a pedra.
Chegamos lá por volta das 2 da tarde e subimos a trilha acelerado, avistando logo o primeiro bloco. Parei pra mostrar pro Sávio e o Alex a linha que eu tinha visualizado nele. Alex pilhou logo pra entrar no boulder, o Sávio entrou na vibe, e os planos de escalar com corda foram pro espaço.
O primeiro bloco, modesto pra quem já escalou nos blocos de Ubatuba, tinha essa aresta meio abaulada que parecia bem interessante. A ideia da linha era sair bem do começo mesmo, ainda sentado, e seguir a aresta até o “bico” do bloco e fazer a virada lá. Jogamos o crash no chão e começamos os pegas. Logo de cara deu pra sacar que o boulder ia precisar de muito posicionamento, não tinha onde segurar na aresta, era só grudar a mão mesmo, jogar o corpo pro lado e esperar ficar. Pouco a pouco fomos progredindo um pouco mais nela, cada um tentando um novo beta. O primeiro a chegar perto foi o Alex, mas na hora de se posicionar pra entrar nos movimentos finais ele foi praticamente ejetado do boulder, tamanha pressão que ele tava fazendo. E com isso o projeto já ganhou nome: Eject! Ainda tentamos mais um pouco e eu cheguei mais perto ainda de encadenar. Fiz a aresta inteira, mas não consegui achar posição e agarras pra subir mais e fazer a virada.

Sávio e eu analisando a linha do projeto Eject
Resolvemos deixar o Ejetct um pouco de lado e procurar mais blocos. Indo pra direita do bloco do Eject, passando uma cerda, encontramos outro bloco. Esse mais altinho, mais vertical, mas com base horrível. Mas ainda assim resolvemos encarar. Alex visualizou uma linha, que saia em duas agarras boas, e ia fazer meio que uma travessia pra esquerda. Mas as agarras depois da saída eram pequenas e machuquentas e praticamente não tinha agarra de pé. Mudamos pra outra linha, mais pra esquerda do bloco, que tinha agarras e pés melhores. Tentei uma vez pra ver qual era, e quando cheguei lá em cima não vi como continuar. Olhei pra baixo, pra base duvidosa e resolvi não tentar subir mais. Depois de mais alguns pegas e um beta do Alex, entrei de novo. Dessa vez achei uma agarra muito boa, e toquei pra cima, com uma viradinha meio tensa, sem ter muito onde segurar. Primeiro boulder do Garrote. Sávio foi em seguida e também mandou. Acho que esse deve ficar na casa do V0.
Saímos de lá e fomos atrás de outro bloco, agora pra esquerda do bloco do Eject. E encontramos um interessante, próximo a uma árvore morta. A linha mais óbvia o Sávio tentou logo, e mandou sem muitos problemas, abrindo o que talvez seja outro V0. Também fui entrar nele, e num movimento desastrado bati o cotovelo com força na pedra, batizando o boulder: Dor de cotovelo! Mas voltei nele e mandei também, assim como o Alex.
Nesse bloco ainda achamos outra linha, que seria de poucos movs, mas bem interessante. O problema saia com as duas mão em um batente meio escorrido, que só pra ficar nele já era fazendo força, e dali tinha que ir catar uma agarra bem pra direita, pra depois cruzar numa agarra melhor e fazer a virada. Tentamos sair com os pés embaixo, mas o que tinha de pé ficava horrível pra sair. O jeito foi sair somente com o pé esquerdo, e fazer o flag com a perna direita, o que deixou a saída do boulder muito bonita. O que não era bonito era o formigueiro que ficava bem embaixo do crash, e fazia com que cada tentativa fosse bem rápida. Foi por causa disso, de duas belas ferroadas que o Sávio levou e da explosão que o boulder precisava, que ele ganhou o nome de Formiga Atômica.

Saídinha do Formiga Atômica V3
Iniciamos as tentativas, e experimentamos algumas alternativas pra chegar na outra agarra, sem muito sucesso. Até que o Alex descobriu o beta, que era bem direto: dinâmico com a direita, tapa na agarra e ficar! Simples assim. Ele foi lá e mandou o boulder! Movimento realmente bem forte e bonito! E ai foi minha vez de tentar. Tentei uma, tentei duas, tentei 3 vezes e nada de conseguir ficar na agarra. Os dedos estavam queimando e já querendo abrir, mas eu tinha que tentar mais uma vez. Foquei no movimento e bati certinho na agarra, grudando com os 3 dedos abertos nela. Fechei o reglete, posicionei o pé direito e cruzei pro agarrão. Boulder mandado, e discutindo com o Alex, achamos que a brincadeira ficou com cara de V3.

Alex e eu travando na agarra depois do dinâmico
E foi o fim da pequena sessão de boulder no Garrote. Saldo de 3 boulders abertos e um projeto, que deve ficar também na casa do V3. Próxima vez por lá é procurar mais alguns blocos e ver o que dá pra tirar ainda ali. Mas o certo é que a empolgação ficou, e já ficamos meio que combinados de ir atrás de um verdadeiro campo de boulder no Ceará, e eu já tenho um pico em potencial: Serra da Meruoca em Sobral. Mas essa vai ser uma outra história!
Escalada no feriado pra conhecer o novo setor de Redenção!
Essa segunda-feira foi feriado aqui em Fortaleza, e depois de não ter ido escalar no final de semana por conta do dia dos Pais, essa folga de começo de semana foi uma benção, então tinha que aproveitar. Já fazia mais de um mês que eu não ia na rocha, ocupado com o projeto e outros assuntos relacionados ao novo muro da Fábrica de Monstrinhos, então a fissura tava grande pra escalar de novo. Fechei o bonde com o Tiago Minhoka, Alex, novo membro dos Monstrinhos vindo diretamente do Paraná, e o Feijó, que ainda tá começando mas com uma vontade de louca de estar na rocha sempre que pode.
Saímos de Fortaleza com destino a Redenção, mas dessa vez o dia de escalada não ia ser no tradicional setor do Assombrado, e sim em um novo setor, batizado de Pitombeira! A promessa dos outros membros dos Monstrinhos que já tinham iniciado os trabalhos de conquista no setor, era de paredes de mais de 150 metros, com vias de mais de 5 enfiadas, transformando Redenção em um pico quase completo de escalada, faltando apenas os boulders. E a promessa se converteu em realidade!
Chegando na frente da pedra, ainda com a trilha inteira pra caminhar, a impressão é de uma pedra muito suja, sem possibilidades de vias, mas quando se chega na base da pedra se percebe o imenso potencial do local. Paredes gigantescas de granito, em pelo menos 3 faces, com potencial para algumas dezenas de vias clássicas, de todos os níveis. Claro, a pedra não é completamente limpa de vegetação, mas a que existe é bastante espaçada, formando moitas em alguns pontos. O resto é pedra limpa, esperando por novas vias!

Feijó de segundo e eu guiando a terceira enfiada.
Depois de uns 20 minutos de trilha cansativa, chegamos na base das vias, até agora duas. Tiago que participou do começo dos trabalhos nos mostrou um projeto, numa face vertical da pedra, até agora com 3 enfiadas na casa do 7º grau. Mas nosso objetivo não era esse, e sim escalar a via mais longa do local, um provável 4º V de 6 ou 7 enfiadas. Não sabíamos se a conquista tinha sido completada no dia anterior, pelo Mario e o Damito, mas as chances eram grandes de que estivesse pronta.
Começamos a subida por volta das 10 da manhã, comigo e o Minhoka guiando a primeira enfiada e o Alex e Feijó vindo de segundo. No começo da primeira enfiada, não tendo prestado atenção por onde o Minhoka e o Alex tinham seguido, acabei indo pelo lado errado e encarando uma aderência sinistra! Acho que a única coisa que me fez passar esse longo trecho (acabei pulando uma chapa nessa brincadeira) foi a certeza absoluta de que eles tinham ido por ali. Então já que eles passaram, eu tinha que passar também. O que o orgulho não faz né? Fazendo lance fiquei receoso pelo Feijó, porque achei que ele não conseguiria passar por ali, mas ainda bem que era o caminho errado, e o certo era bem mais fácil. Prestar atenção da próxima vez!

Ainda precisando de algumas paradas duplas!
Passamos direto da primeira parada e seguimos direto pra segunda, enfrentando o primeiro crux da via, um lance que deve ficar na faixa do 5º grau, mas bastante tenso pra fazer guiando. Nessa parada troquei de dupla com o Alex, e ele guiou pro Feijó e eu para o Minhoka. A terceira parada fica alguns metros abaixo de um teto que segue pela esquerda, mas a via continuava por um diedro pela direita, que o Minhoka guiou primeiro, descobrindo que essa enfiada tinha lances em móvel, e fazendo uso das peças que ele tinha levado. Feijó foi em seguida, com o Alex guiando logo atrás e eu seguindo de segundo. Com certeza essa enfiada foi a mais legal de se fazer da via. Os lances em móvel eram em agarras boas, mas de movimentação bem interessante, com pegas de lado e uso do pé bem alto.

Galera reunida na P5
A próxima parada devia ser a quarta, mas o Feijó percebeu que o Minhoka tinha pulado uma parada antes dos lances em móvel. Então estávamos na parada 5 da via, e ainda com mais coisa pra subir! Dessa vez o Alex foi quem se animou de guiar primeiro, e acabou passando um aperto umas 3 chapas pra cima, em lances com lacas podres e poucas opções de pés. Ele abortou a tentativa, e o Minhoka escalou até ele de segundo e tentou guiar o restante, passando maus bocados também, mas conseguindo chegar na próxima parada. Eu e o Feijó ficamos na P5, e eles rapelaram de lá, Minhoka tinha ido até a última parada, mas mais uma vez tinha pulado uma antes. Então no total a via ficou com 7 enfiadas, algumas mais curtas, outras mais longas, que deve dar algo em torno dos 120 200 metros de via, creio eu. Ótima via, e grande opção de escalada clássica agora mais perto de Fortaleza. Parabéns aos conquistadores Mario Carvalho, Ricardo Damito, Jorginho Mascena e Paulo Joca!
Lá de cima, contemplando o visual da “serra” de Redenção, consegue-se avistar algumas outras paredes, que podem guardar ainda mais potencial para a escalada na região. Fiquei com a sensação que agora é que começamos a descobrir a ponta do iceberg, e que ainda tem muita pedra pra achar e conquistar por ali.
Começamos nossa descida, com o Alex e o Feijó rapelando sozinhos, e eu e o Minhoka rapelando em simultâneo usando Grigris, algo que eu nunca tinha feito na vida. A opção pelos Grigris foi por não termos um ATC extra para o Feijó que ainda não tem o equipamento básico e foi pra lá meio sem saber o que o esperava. Na verdade, nem eu sabia o que me esperava. No final das contas correu tudo tranquilo, chegamos na base sem problemas ou contratempos, e pegamos o caminho de volta! Parada básica no posto para a tradicional Coca gelada com Doritos, completamente destruídos, mas totalmente felizes com mais um dia irado de escalada! Até a próxima galera!

Visu da P5, com alguns picos em potencial no fundo!
Ubatuboulder, uma trip quase perfeita!
Parece coisa de maluco, sair daqui de Fortaleza, viajar sei lá quantos mil quilômetros, pra passar praticamente só um dia escalando. Mas foi só porque foi pouco tempo que essa trip não foi perfeita, porque por todo o resto, não sei como poderia ser melhor: um pico fantástico, com um visual incrível, uma galera irada, e todos numa energia fenomenal! Foi realmente muito bom! Mas pra vocês entenderem eu tenho que contar, vai ficar longo, mas tenham paciência.
Ubatuba foi minha primeira trip de boulder. Nunca antes na vida desse escalador uma trip tinha sido dedicada apenas à essa atividades que alguns preferem fazer num dia de descanso. Mas a escolha pra começar essa história foi Ubatuba e foi acertada.
Saimos de Fortaleza, eu e Daniel Mamede, na sexta meio dia. Enfrentamos três horas e meia de voo até São Paulo, pra de lá pegar mais uma hora e meia de estrada, de ônibus, até São José dos Campos, onde fizemos uma pequena visita ao muro do Purga, pra pegar algumas idéias para a nova Fábrica de Monstrinhos. Dormimos por lá, na casa do André Braga, primo do Daniel, e seguimos com ele no dia seguinte para Ubatuba! Dos 3, só eu ainda não conhecia o tão falado pontão da praia da fortaleza!

Chegamos por volta das 9:30 da manhã e seguimos direto pros boulders! Não tinhamos tempo a perder! Dez horas já estávamos dando início aos trabalhos, entrando na primeira brincadeira do dia: Ferro de Passar V3. De cara já achei esse V3 mais forte do que o único que eu tinha escalado até hoje, o Charlie Brown no Grajaú. Mas trabalhei um pouco, achei o beta, e encadenei. Daniel também mandou o boulder um pouco depois.
Saímos dali e fomos entrar no Dorotéia, que dizia o André, era outro V3. Trabalhamos um pouco os lances e o Daniel mandou sem muito esforço. Eu mandei em seguida. Mas depois acabamos descobrindo que o Dorotéia, segundo o croqui, era um V5, mas que não terminava por onde a gente terminou, tinha mais alguns movimentos antes de fazer a virada. No final das contas eu nem sei o que foi que eu mandei, mas ficou com cara de V3 também.

Nesse meio tempo já tava escalando com a gente o Bruno, amigo do André, e se juntou o Ian Munoz, que tava por ali sozinho e a gente chamou pra dar uns pegas no Pro Abaulado V2. Esse foi mais dentro das expectativas. Errei na tentativa em flash, mas na segunda saiu a cadena. Daniel também mandou com bastante facilidade.
Saímos de lá e fomos tentar um dos grandes clássicos de Ubatuba: Van der Walls, outro V3. André mostrou como era o problema, mandando fácil, logo de primeira. E ai começaram as tentativas. Várias! Mas sem muito progresso. Até que nos deram o beta de travar com o joelho em uma das agarras, ai o negócio começou a ficar mais perto. Mas ainda assim, dominar o reglete mais em cima tava difícil. Parecia estar faltando o posicionamento correto. Já estava no que eu considerava meu último pega no boulder e cai mais uma vez, mas nessa tentativa deu o estalo do que eu devia fazer pra dominar a agarra. Resolvi dar mais uma chance e fui pra mais uma tentativa. Saiu tudo perfeito! Mordi o reglete e abri mais a perna direita pra ficar na agarra quase de oposição. Era o que precisava. Cruzei pra agarra melhor mais em cima e ai eu já sabia que tinha mandado, foi só manter a calma e fazer a virada. Clássico de Ubatuba no bolso, pra voltar pra casa satisfeito. Ótima a sensação de virar um boulder que você já tentou bastante e já ia desistir.
No meio dessas nossas tentativas pelos boulders do pontão eu fiquei de olho na galera que ia chegando, já que fomos os primeiros a chegar por lá de manhã. A galera da 4Climb chegou um pouco depois. O Felipe Alvares “Kbeça”, que a gente já tinha encontrado na frente da casa onde iríamos ficar, e o Daniel Mendes “Tiodan” que chegou depois.
Mas eu estava mesmo era a espera do Caio Gomes, que já tinha se tornado amigo pela internet e que agora ia ter a oportunidade de conhecer pessoalmente. E por volta do meio dia, aparece aquele carioca meio com cara de marrento, óculos escuros, fone de ouvido, completamente na dele. Mas foi só chegar e cumprimentar pra confirmar que o cara é realmente gente fina demais. Até parecia um velho amigo que tava reencontrando e não vendo ali pela primeira vez. Junto com ele o caçula da família Buscapedra, Pedro Gomes, da mesma vibe do irmão.
Outra galera que eu já conhecia pela internet foi chegando depois também, como o Gibara e o Linha. Conheci também o jovem talento da escalada brasileira, Rafael Takahace, e o pai, Mauro, que demonstra o apoio incondicional que tem pela paixão do filho de 15 anos, acompanhando nas trips e registrando tudo. Muito bonito de se ver!

Apareceu também gente que eu já tinha conhecido em outras trips pelo Brasil, como o Carlos, que eu conheci na primeira vez que fui no Cipó, e o Eric, que eu conheci da segunda trip no Cipó. Muito legal rever essa galera!
E claro que essa galera chegou pra escalar também, e encadenar. E eu fiquei por ali assistindo, vendo os monstros escalar. No meio disso presenciei a cadena dupla do Cracolândia V12, pelo Beto de Campinas e o Esteban do Rio. Justo o boulder que o Caio Gomes estava tentando e que parecia engasgado. Vendo a cadena dos 2, ele entrou duas vezes tentando encadenar e não conseguiu. Dava pra ver que aquilo tava mexendo com a cabeça dele, e apesar de estar ali tentando passar a vibe, nessa hora eu nem sabia o que dizer. Mas ele se aprontou pra uma terceira entrada, depois de repassar o beta que ele já sabia que era o certo pra ele. Foi lá, e com determinação e a vibe da galera embaixo, saiu a cadena tão esperada. Segundo V12 do Caio! E como eu tinha falado pra ele antes, eu ia tá lá pra presenciar. Fiquei com fama de pé quente! Um grande momento do Ubatuboulder!

Por volta das 15hs o André teve que ir embora, e eu e o Daniel acompanhamos para tirar as mochilas do carro e deixar na casa alugada pelo pessoal da 4Climb. Aproveitamos pra descansar um pouquinho a pele, que já tava reclamando um pouco. A combinação rocha abrasiva e pele fina por falta de treino e escalada não foi das melhores! Fomos comer alguma coisa e voltamos para o pontão pra uma nova rodada de tentativas em novos boulders!
Vimos o Carlos entrando em outro V3, Curta Metragem, que pareceu interessante e resolvemos tentar também. Junto também estava a Roberta, escaladora de Belo Horizonte, se não me engano. Dos 3, ela foi a única que mandou o boulder. Na escalada é assim, sem espaço pra machismos bestas, porque a mulherada escala forte pra caramba por aqueles lados. Ficamos ali tentando várias vezes, mas pra mim o boulder parecia não estar encaixando direito e deixei de lado.
Vi uma movimentação em frente ao Van der Walls, e resolvi checar. Era o Daniel Tiodan dando um estímulo pras cadenas. Quem encadenasse o Van der Walls, ou o Wanderléia V4, ou o Jantar V4, levava um brinde. Como eu já tinha mandado o Van der Walls, resolvi entrar na brincadeira com o Wanderléia. Me juntei ao Gibara, ao Eric e ao Hugo, de BH, nas tentativas. O crux do boulder era juntar as mãos na aresta, saindo de um crucifixo. Ou seja, segura a porteira! Foi tentado de tudo, calcanhar, toe hook, mas nada tava jeito. Até que o Hugo encaixou o toe hook certinho e conseguiu juntar, mas na hora de soltar o pé o pêndulo era grande demais pra ficar. Enquanto a gente se matava no Wanderléia, o Pedro Gomes brigava com o Jantar, já bastante cansado depois de ter mandado 2 V7.

A noite chegou, os boulders iluminados pelos holofotes e as headlamps, mas a disposição não diminuiu. Galera continuou escalando, embalada pela vibe da música eletrônica. Depois de desistir do Wanderléia, acabei aceitando o desafio do Felipe Alvares e fui tentar um V6: Cérebro! Saída esquisita, com o calcanhar já bem alto e dois regletes nojentos, um deles, segundo o Hugo, carnívoro! E lá fomos nós: Eu, Daniel, Hugo, Eric e Roberta. Negócio era difícil, e com o cansaço, o corpo começou a reclamar. Numa das tentativas a panturrilha pediu penico, e a câimbra veio. Ainda tentei mais uma vez, mas vi que não rolava mais tentar o Cérebro, com aquela puxada de calcanhar logo na saída.

Mas como tava todo mundo escalando ainda, e a vibe tava legal, ignorei um pouco os sinais do corpo e resolvi dar uns pegas no Pézinho V4, já que tinha uma galera tentando. Me resumi a tentar isolar o crux do boulder: um belo de um dinâmico de lado, num lance de teto, pra um agarrão irado! Preciso dizer que era longe? Cai várias vezes e não consegui nem segurar de verdade na agarra. Era o sinal pra tirar as sapatilhas e parar de escalar. Afinal de contas foram quase 10 horas de escalada, praticamente non-stop, num pico de boulder de rocha abrasiva! Uma hora tinha que acabar a pilha e a pele, e não teve superbonder que desse jeito. De tão cansado, acabei perdendo o night climb que rolou até 4:30 da manhã no pontão, com muita música, vinho e cerveja. Cerveja que eu desisti de esperar por volta da s 21h da noite, achando que o tiozinho do barco tinha dado o xexo na galera.
O domingo ia ser curto. Só tínhamos a manhã se quiséssemos escalar mais alguma coisa. E voltamos pra lá por volta das 10hs pra acabar com o resto de pele. Os músculos das costas e dos braços já começavam a reclamar, mas ainda dava pra gastar um pouquinho mais. O escolhido foi o Sertão V3. Outro conhecido de trips passadas, o Alex, estava por lá tentando com uma galera, e resolvemos nos juntar a eles. Daniel deu só um pega e mandou o bendito. Ele já tinha mandado em outra trip e disse que era por causa disso, só pra poder continuar dizendo que estava fraco. Eu ainda dei uns 3 pegas no boulder, sem sucesso. Parecia faltar gás pra explodir na agarra final e fazer a virada. Mas como diz o velho ditado repetido à exaustão na trip: “O sofrimento é passageiro, desistir é para sempre”; lá fui eu pra mais uma tentativa, com o mesmo espírito do último pega no Van der Walls. Consegui achar força onde não tinha mais e explodi certinho na agarra. Demorei pra achar posição pra virada, mas consegui e mandei. Mais um V3 pra colocar no 8a.
Ainda tentamos escalar alguma outra coisa mais fácil, mas o tempo já tava curto demais. Deixamos o pontão e fomos almoçar antes de enfrentar as 5 horas de viagem até São Paulo, e de lá mais 3 ate Fortaleza. Fiquei feliz de ainda ter encontrado com o Caio e o Pedro, pra poder me despedir, deixando com eles um presente bem cearense: rapadura! Nos despedimos também da galera da 4Climb, e pegamos o caminho de volta.

Hoje estou aqui, escrevendo esse relato e ainda sentindo dores musculares. Mas em nenhum momento me arrependo de ter ido. Como bem disse o Caio no blog dele, foi o melhor Ubatuboulder da história e foi meu primeiro. Primeiro de muitos!
ps: Queria terminar esse post completamente pra cima, mas aqui tenho que dizer algo não tão legal, mas pra gente daqui do Ceará. Durante o evento acabou surgindo a pergunta inevitável: e o encontro?! Mais uma vez, como muitos dos outros escaladores do Ceará interpelado nos picos de escalada pelo Brasil, eu tive que responder a única coisa que eu podia: que não sabia. Queria poder dizer que o encontro vai ser fantástico, que eles tem que aparecer por lá em novembro, mas não vou dizer algo que eu não sei se vai se concretizar. Uma pena! Fica o toque pra organização trabalhar melhor e divulgar como andam os preparativos para o evento.
Apresentando a escalada para (futuros) novos praticantes
Esse domingo eu tirei para levar uns amigos, que nunca tinham escalado em rocha na vida, para conhecer a escalada. O local escolhido foi a Pedra do Garrote, em Caucaia, por ter uma quantidade legal de vias bem acessíveis, ideal pra quem tá iniciando.
Tinha combinado com o Paulo Joca, que já é iniciado no esporte mas tem ido pouco à pedra, e ele fechou a ida com o Feijó Júnior, que tinha ido apenas 2 vezes na rocha anteriormente. Da minha parte, levei 4 pessoas: o André, que já escalava antes e estava parado; Lucas e o pai dele, seu Messias; e o Paulo Ricardo. Todos os 3 nunca tinham escalado antes.
Saímos de Fortaleza por volta das 9 da manhã, chegando no estacionamento por volta das 10, dando início à subida da trilha, que é bem inclinada e puxada pra quem não tá acostumado. E dos novatos, o Lucas foi quem acabou sofrendo mais, já que estava levando peso extra na mochila, e acabou sentindo um pequeno mal estar na subida. Mas nada demais, em pouco tempo tava recuperado e chegamos na base da pedra. Lá já estavam esperando o Paulo Joca e o Feijó, acompanhado da namorada Jéssica, que ficou só de espectadora e fotógrafa.

Demos início ao trabalho de montar os “topropes” pra o pessoal sofrer se divertir um pouco. Montei o top primeiro na Sem querer querendo um quarto grau curtinho. Daí o pessoal foi entrando em sequencia: Paulo Ricardo, Lucas, André, Feijó e seu Messias. (acho que foi isso)
O Paulo Ricardo me surpreendeu e foi bem, muito bem, chegando no final da via sem muitas dificuldades. Lucas sentiu mais dificuldade, talvez por estar com as mãos furadas de espinhos, presentinho que ele ganhou da trilha, e não chegou no fim da via. André também não teve dificuldades pra chegar no fim, assim como o Feijó, que já tinha ido bem nas outras vezes e repetiu a dose nesse quarto grau. Seu Messias é que deu um show, mesmo não chegando no final da via. No alto dos seus 50 anos, mostrou persistência e determinação de garoto, só parando mesmo quando não tinha mais braço.


Com todo mundo satisfeito, montei outro top na via do lado, Pagando Promessa um 4sup, com uma passadinha um pouco mais exigente pra vencer uma barriguinha. A ordem mudou um pouco, e o desempenho também. Nessa o único a chegar no final foi o Feijó, que levou um tempo pra decifrar o lance mas conseguiu passar sem muitos problemas. O restante acabou ficando no crux, mas não sem tentar bastante e ficar com os braços bombados. Seu Messias abdicou de entrar nessa.
Todo mundo morto, chegou a hora do Paulo Joca escalar, já que ele só tinha feito seg e tava se poupando pra entrar na Bala Perdida 6sup. Desmontei os 2 tops, e subi pra equipar a via pro Paulo. Fui seguindo sem problemas até chegar no lance do crux, quando uma nuvem de maribondo subiu ao meu redor. Não tinha visto que havia 3 casas na parte de baixo do diedrinho, onde se faz a oposição pra chegar na quinta chapa. A única solução foi bater asa e voar! Esperei os bichinhos se acalmarem e subi na corda até o ponto onde estava antes. Com receio de ir pro lado dos bichos de novo, acabei tocando pela linha das chapas, coisa que ninguém que escala a via faz. Achei um beta e passei sem grandes dificuldades. O negócio agora era: como o Paulo ia fazer a via? Eu não quis encarar os marimbas mais uma vez, encaro uma vaca grande, mas maribondo não é comigo. Desci e o Paulo resolveu subir e espantar os bichinhos com fogo. Resolvido o contratempo, o Paulo entrou na via, ficando no crux, e descendo bombado.
Só que ai surgiu outro pequeno problema. A corda tava na quarta chapa, e o Feijó também queria tentar a via. Mas ele ainda não sabe guiar, então não poderia ir além dali, mesmo que quisesse. E lá fui eu de novo. Fiz a via pelo diedro da direita, agora sem maribondos, e montei o top. Mais uma vez o Feijó mandou muito bem. Não passou o crux, mas mostrou que sabe pensar na via e encontrou soluções diferentes para alguns lances. Esse vai mandar bem com mais treino!

Hora do Paulo tentar de novo. Mais uma luta com o crux. Mesmo com os braços bombados ele ainda conseguiu vencer o lance, mas chegou na quinta chapa completamente pedrado e não conseguiu costurar. Resultado: vaaaaca!! Completamente esgotado, não deu pra ele desequipar a via. E lá fui eu de novo, terceira entrada na Bala Perdida. Mas não pense que eu tô reclamando não, adorei ter entrado tanto na via. Achei que ia escalar praticamente nada, e acabei escalando mais que todo mundo!
O que importa foi que no final todo mundo estava satisfeito. Todo mundo curtiu o dia, e ficou com vontade de voltar outra vez. O Feijó e o André eu creio que vão realmente continuar a dar as caras pela pedra, principalmente o Feijó, que tá muito empolgado. Já os novos escaladores, só o tempo vai dizer. Mas uma coisa é certa, quando o bichinho da escalada te pega, não tem mais volta! E eu espero que esse bichinho tenha aparecido por lá ontem e picado algum deles!
Novas vias e falta de treino
Esse final de semana acabei indo mais uma vez escalar em Redenção. Eu já tinha desistido de ir, por que ninguém com carro tinha aparecido, mas às 7 horas da manhã um telefonema do Damito me acorda dizendo: “Tamo chegando!” Só deu tempo de jogar uma água pra espantar o sono, jogar tudo na mochila e mastigar alguma coisa rapidão.
A ideia do dia era entrar nas vias novas que o pessoal do Rio Grande do Norte abriu na parede do lado esquerdo da Pedra Vermelha. A trilha estava bem marcada, graças também aos esforços do pessoal do RN, que na vontade de conhecer a pedra, abriu o caminho até lá, que estava tomado pelo mato alto e fechado.
Hora de escalar, duas vias: Um palmo em pé, proposta de 6sup em móvel, e É moreno em francês, proposta de 7a. Mário foi na frente, fazendo as honras na Um palmo em pé. Apenas dois móveis foram suficientes pra garantir a segurança na via, que é curtinha. Mario levou um tempinho pra achar o beta pra passar o crux, mas passou sem problemas, mesmo com a parte de cima da via um pouco suja. Damito foi em seguida, mandou em flash, e ai foi minha vez, conseguindo também mandar em flash, mas sem sacar as peças, vou deixar isso pra uma outra oportunidade. Sugestão de grau foi um consenso entre os 3, um sexto, que fica com cara de 6sup por conta da adrenada extra de estar guiando em móvel.

Depois foi a vez da É moreno em francês. Saidinha meio boulder, em agarras boas mas um pouco distantes, rolando até uma dominada pra um platôzinho, onde começa a via mesmo. Tô bem enferrujado em graduação de boulder, mas esse lance não seria mais do que V1, creio eu. O lance mais difícil fica realmente mais em cima. Damito guiou na frente dessa vez, e também levou um tempinho pra descobrir a passada do crux, um lance envolvendo equilíbrio e um pouco de aderência. Mas mais uma vez a via foi vencida na primeira tentativa. O mesmo acontecendo com o Mario e eu. Sugestão de grau? 6sup foi o consenso. No geral as vias ficaram bem legais, e numa graduação mais acessível na Pedra Vermelha, que tinha como grau mais fácil um 7c, pena serem curtas.
O legal de entrar nessas vias foi constatar que mesmo sem treinar, a base de grau que você escalava não se altera muito. Os 6sups à vista e 7as em flash ainda continuam saindo do mesmo jeito de antes. O negócio pega quando chega no topo da pirâmide, que no meu caso era 7c. E isso ficou patente na hora de dar uns pegas na Orelha de porco 7c. Foi incrível perceber o quanto eu realmente perdi de força e resistência por conta da falta de treino. Antes chegava bem pra atacar o crux, agora mal tinha força pra clipar a costura antes do crux. Acabou que saímos da vermelha sem mandar a Orelha e descemos pro Assombrado pro Mario dar um pega na Busão, que ele acabou mandando com uma queda. Mas não é pra menos, a via é um 7a de equilíbrio, com alguns lances de aderência, e de leitura pouco óbvio, o que realmente complica avistar a via. Como a chuva tava armando, só deu tempo mesmo de o Mario desequipar a via e nós pegarmos a trilha de volta.

Esse feriado a galera debanda pra outros cantos do país (Rio pra Mario e Damito e Cipó pro Daniel) e eu fico por aqui, tentando arrumar parceiro pra ir escalar pelo menos um dia. Alguém se habilita!?
Sábado de visita no Assombrado
Esse sábado foi movimentado no Assombrado, que recebeu a visita de 5 escaladores de fora do estado. Convencidos pelo Claudio Tapié, de São Paulo, com quem eu já tinha escalado uma vez por aqui, o pessoal do Rio Grande do Norte resolveu descer de serra e conhecer os “quintinhos” cearenses. Da galera que veio eu só conhecia mesmo o Denn, que foi quem recepcionou os monstrinhos na trip em Serra Caiada ano passado. Junto com ele vieram Iraê, Leo “boulder” e Ari.

O pessoal de RN veio de carro e foi direto pra Redenção, chegando de madruga e ficando acampados no Balneário Lage que fica em frente à pedra. O Claudio veio de avião e chegou por Fortaleza de noite, caiu aqui por casa pra dormir e se juntou ao bonde dos monstrinhos no sábado de manhã pra lá.
Chegamos por lá por volta das 10 da manhã e fomos encontrar a galera do RN ajeitando as coisas no carro, com uma vista fantástica da pedra a partir do balneário. Mas sem muito papo furado, pegamos as coisas e subimos pra pedra. Resolvemos começar os trabalhos no trecho próximo a Iokiko 7a/b, que era um local onde só havia essa via, mas agora já tem mais 3: Busão, Rapsódia e Tenda Doida, na ordem que aparecem na pedra. A dica pra galera era entrar na Iokiko, 7a já clássico do Assombrado, bem constante e forte. Enquanto isso eu e o Daniel fomos experimentar o novo trabalho da dupla Mario e Damito, a via Busão!
A via é ótima! Bem grampeada e protegida, você não sente nenhuma receio de encarar os lances na ponta da corda. E são lances bem diferentes do tradicional de Redenção. A via é um pouco positiva, mas sem muitas agarras, então o negócio é realmente se posicionar direito, confiar na sapatilha e tocar pra cima. Uma pintura! A primeira ascensão ficou a cargo do criador Damito, seguido pelo Daniel, Leo boulder e eu.

A Iokiko já deu um pouco mais de trabalho pra o pessoal e só o Leo saiu da pedra com a cadena da via, fazendo bom uso da sua envergadura para vencer alguns dos lances mais difíceis. Denn deixou pro domingo pra encadenar esse “quintinho” de Redenção.
A Tenda Doida também teve cadena do Leo boulder, e também não saiu de graça. O crux, logo depois da segunda chapa é bem exigente, uma oposição num reglete pra bater numa agarra abaulada com a esquerda e daí tentar subir o pé e fazer uma pequena travessia pra direita por uma sequencia de batentes abaulados. Eu acho que a via fica na casa do 7a. O único porém da via, é a primeira chapa muito alta, com um lance de saída que não é fácil, e a posição da chapa que protege o crux, que poderia estar mais acima, deixando o lance menos exposto. Mas ainda assim, uma linha legal!


Com a nossa hora chegando, resolvemos descer e mostrar o caminho da Pedra Vermelha pra o pessoal. Mas o mato estava muito alto e não houve condições de chegar perto da pedra. Foi o jeito abortar a tentativa, pegar os facões e voltar depois.
Deixamos a galera por lá, onde ainda vão escalar e abrir via nesse domingo, e voltamos pra casa. Valeu galera do RN, Denn, Leo, Iraê, Ari, valeu Claudio! Voltem sempre, e vamos marcar a trip pra conhecer outro pico cearense: Tejuçuoca!








