Ondra bicampeão, Narasaki, Klingler e Garnbret vencem pela primeira vez

Esse final de semana se encerrou mais uma edição do Campeonato Mundial de Escalada. Acompanhei as finais em todas as categorias, e elas foram bastante disputadas, com as vias e boulders montados pelos route setters garantindo um verdadeiro espetáculo para o público presente no AccorHotels Arena, em Paris.

No final, Adam Ondra não conseguiu repetir o feito do ano passado, onde se sagrou campeão de boulder e dificuldade. Restou para o tcheco “apenas” o título de dificuldade e o segundo lugar no boulder. O japonês Tomoa Narasaki foi o campeão no boulder masculino, Petra Klingler ficou com o título no boulder feminino e Janja Garnbret confirmou a boa fase vencendo a dificuldade feminina. Sean McColl ficou com o título geral (overall), levando em conta todas as 3 modalidades.

 

Tomoa Narasaki se consagra no boulder

Pódium do boulder masculino: Tomoa Narasaki, Adam Ondra e Manuel Cornu
Pódium do boulder masculino: Tomoa Narasaki, Adam Ondra e Manuel Cornu

A final masculina do boulder foi a primeira a acontecer em Paris. A expectativa era gigante para saber se Adam Ondra ia conseguir mais uma vez o título mundial, e iniciar ali sua busca para repetir o título duplo da dificuldade e boulder de 2014. Mas a final prometia ser bastante disputada, com a presença do campeão da Copa do Mundo, o japonês Tomoa Narasaki, que por pouco não passa das semis. Além dos dois grandes favoritos, a final também contou com nomes menos conhecidos, como os franceses Manuel Cornu e Mickael Mawem, que acabaram deixando de fora gente do quilate de Alexsey Rubtsov, vice campeão da Copa do Mundo, Sean McColl, entre outros. Completando os seis finalistas estavam o francês Jeremy Bonder e o japonês Tsukuru Hori.

Logo no primeiro boulder Narasaki mostrou a que veio, conseguindo o top de forma rápida e eficiente. Ondra precisou de mais tentativas para encadenar, mas o fez com estilo. Enquanto todos foram de forma dinâmica, Ondra usou toda sua envergadura e passou o lance quase estático. Bonito de ver.

O segundo boulder, mais técnico não viu tops nem de Narasaki nem de Ondra, o que permitiu que o francês Cornu assumisse provisoriamente a liderança. Mas no terceiro boulder a coisa começou a ficar mais clara. Ondra e Narasaki mais uma vez conseguiram o top, o japonês mais uma vez com menos tentativas, e a decisão ficou para o último boulder. Narasaki não quis dar bola para o azar, e mostrando muita técnica e força conseguiu o flash, não podendo ser mais alcançado por Ondra e garantindo a vitória. Cornu, que brigava pelo segundo lugar, não conseguiu top no último e abriu espaço para Ondra. O tcheco cumpriu com seu dever e conseguiu o top, sem comemorações, pois já sabia ser tarde demais.

Com o título, Tomoa Narasaki encerra uma temporada perfeita, com títulos tanto da Copa do Mundo e do Campeonato Mundial, os primeiros para o japonês. Assista abaixo o replay da final.

 

Janja Garnbret confirma o favoritismo

A segunda final a acontecer foi a da dificuldade feminina. A expectativa era de que Janja Garnbret confirmasse a boa fase que vem demonstrando na Copa do Mundo, e garantisse o título. Mas para fazer isso Janja teria que sobrepujar nomes como Mina Markovic, Anak Verhoeven e Jain Kim, todas presentes na final.

Podium dificuldade feminino: Janja Garnbret, Anak Verhoeven e Mina Markovic
Podium dificuldade feminino: Janja Garnbret, Anak Verhoeven e Mina Markovic

O crux da via, segundo o route setter chefe, era uma sequência de compressão exatamente no meio da parede. E de fato a primeira atleta a escalar, Alina Ring da suiça, ficou por ali. Claire Buhrfeind dos EUA, conseguiu ir mais longe, mas caiu logo depois dessa sequência, alcançando apenas a agarra 23. A austríaca Magdalena Röck ficou na mesma agarra que Buhrfeind, e a francesa Julia Chanourdie foi um pouco mais longe.

A primeira a realmente puxar o nível foi a austríaca Jessica Pilz, que caiu na sequência final, a apenas 2 movimentos da agarra final. Jain Kim e Mina Markovic também ficaram no mesmo ponto. Mas foi a belga Anak Verhoeven quem colocou pressão em Garnbret, ao conseguir o primeiro top da via. Para ser campeã, Garnbret precisava do top. E escalando de forma fluída, Janja Garnbret flutuou pela sequência final da via e passou a corda na última costura, garantindo o top e o seu primeiro título mundial com apenas 17 anos. Confira abaixo o replay completo da final.

 

Petra Klingler conquista vitória emocionante

No domingo foi dia de final do Boulder feminino. Essa era uma disputa sem francas favoritas, com o título podendo tanto ir para Akyo Noguchi, quanto para Anna Stöhr ou Miho Nonaka. A suiça Petra Klingler corria por fora, e com certeza não estava entre as mais cotadas, ao lado da russa Elena Krasovskaia e a americana Megan Mascarenas.

Podium boulder feminino: Petra Klingler, Miho Nonaka e Akyo Noguchi
Podium boulder feminino: Petra Klingler, Miho Nonaka e Akyo Noguchi

Mas foram justo Mascarenas e Klinger quem começaram demonstrando que queriam brigar pelo título, iniciando com um flash do boulder 1. Noguchi não ficou atrás e também conseguiu o flash. O segundo boulder não viu top por nenhuma das competidores, apesar das várias tentativas. No terceiro boulder mais uma vez Klingler, Mascarenas e Noguchi conseguiram o flash, e parecia que o podium iria ficar com as 3. Mas ainda faltava mais um boulder para definir tudo. Mascarenas tentou, mas acabou não conseguindo o top, abrindo espaço para Miho Nonaka completar o boulder e roubar seu lugar no pódium. Petra Klingler conseguiu achar rápido o beta da linha e conseguiu o top em apenas duas tentativas, e terminou sua participação emocionada, sabendo que aquele top poderia lhe render o título.

Mas Akyo Noguchi ainda podia roubar o título de Klingler. Para isso ela precisava mandar o boulder em até duas tentativas. Não foi o que aconteceu. Akyo precisou de 4 tentivas para fazer top e acabou com a terceira posição. Klingler conseguiu assim seu primeiro título mundial, e entregou um dos momentos mais emocionantes desse mundial. Assista abaixo o replay completo.

 

Adam Ondra Bicampeão de Dificuldade

Mas o mundial ainda não havia terminado. Faltava a grande final masculina da dificuldade. Iria Adam Ondra mais uma vez não repetir seu feito do último mundial? Com certeza a via montada pelos route setters ia colocar à prova não só as habilidades de Ondra, como de todos os demais finalistas. A linha tinha uma sequência bastante dinâmica, com botes e movimentos de campus, e um final extramente técnico.

Podium dificuldade masculino: Adam Ondra, Jakob Schubert e Gautier Supper
Podium dificuldade masculino: Adam Ondra, Jakob Schubert e Gautier Supper

Depois do primeiro escalador, Keichiiro Korinaga, entrar na via, uma coisa ficou clara: Ramon Julian iria ter trabalho. O escalador espanhol, que já conquistou a Copa do Mundo de Dificuldade e o Mundial, tem sofrido com o novo estilo de vias das competições IFSC, que em nada se adequam a sua altura de 1,58m. Com lances esticados e dinâmicos, era quase certo que Ramon Julian não iria bem, e de fato não foi. Ele foi o que caiu mais cedo na via, amargando um decepcionante nono lugar.

Tirando caso de Ramon Julian, a via conseguiu dividir muito bem os escaladores. A cada novo competidor que entrava, se chegava um pouco mais alto na via. O primeiro a alcançar o trecho final de travessia extremamente técnica foi o austríaco Jakob Schubert, que assumiu a liderança. O francês Gautier Supper veio depois, com o apoio da torcida, mas não conseguiu superar Schubert, caindo uma agarra antes. Domen Skofic, que era tido com um dos favoritos, foi o penúltimo a escalar, e não conseguiu ir além de Schubert nem Supper, ficando com a quarta colocação.

Então foi a vez de Ondra escalar, e o que os presentes no AccorHotel Arena presenciaram foi uma verdadeira demonstração de uma escalada perfeita! Escalando com confiança e relaxado, Ondra passou por todos os crux aparentemente sem fazer força. Aproveitando bem os poucos descansos da via, ele chegou no trecho final claramente inteiro, e também não teve problemas em completar a travessia. Ele alcançou a penúltima agarra consciente da vitória, e ainda tirou um tempo para se recompor e pedir o apoio da torcida, que empurrou Ondra para a última agarra e o top, conquistando o bicampeonato com estilo! Assista o replay completo abaixo. A disputa da dificuldade inicia com 40 minutos de vídeo.

 

Sean McColl fica com o bicampeonato geral

O canadense Sean McColl ficou mais uma vez com o título mundial geral, que leva em conta as 3 modalidades oficiais IFSC em disputa: Boulder, Dificuldade e Velocidade. O segundo lugar ficou com o francês Manuel Cornu e o terceiro com o alemão David Firnenburg. O resultado geral do Campeonato Mundial é o que se tem de mais parecido com o que deve ser o modelo de disputa olímpico de 2020, o que já coloca Sean McColl como um dos favoritos. É interessante notar, contudo, que os três primeiros colocados são atletas de boulder e dificuldade, e competem na velocidade apenas para serem elegíveis ao título geral.

 

O Brasil no Mundial

Para os representantes brasileiros no mundial, Janine Cardoso, Pedro Nicoloso e Camila Macedo, restou apenas a chance de assistir as finais de suas categorias. Janine terminou em 69º na dificuldade feminina, Pedro Nicoloso em 87º no boulder masculino, e Camila Macedo em 71º no boulder feminino. Foram posições dentro da realidade brasileira quando comparado ao nível mundial, muito acima do nosso. O importante é os brasileiros se manterem participando das competições internacionais, e ganhando mais “know how” com o estilo das vias e boulders.

 

Melhor sul americana no mundial

O grande destaque sul americano na competição foi a argentina Valentina Aguado, que competindo no boulder, conseguiu a vaga nas semifinais, mas acabou sendo desclassificada.  Valentina não poderia estar competindo no mundial por não completar 16 anos em 2016, mas por um erro do IFSC acabou conseguindo se inscrever. Quando os oficiais perceberam o erro Valentina já havia competido nas eliminatórias e conseguido ficar entre as 20 primeiras, mas ainda assim o IFSC resolveu desclassificar a argentina. Uma pena, já que o erro foi do IFSC e não de Valentina. O mais justo teria sido deixar a jovem competir nas semis. Mas o futuro de Valentina é promissor, e com certeza a veremos se destacando em competições internacionais.

 

Campeonato Mundial de Escalada 2016

Boulder Masculino

1. Tomoa Narasaki (JAP)

2. Adam Ondra (CHE)

3. Manuel Cornu (FRA)

87. Pedro Nicoloso (BRA)

Boulder Feminino

1. Petra Klingler (SUI)

2. Miho Nonaka (JAP)

3. Akyo Noguchi (JAP)

71. Camila Macedo (BRA)

Dificuldade Masculino 

1. Adam Ondra (CHE)

2. Jakob Schubert (AUT)

3. Gautier Supper (FRA)

Dificuldade Feminino

1. Janja Garnbret (ESL)

2. Anak Verhoeven (BEL)

3. Mina Markovic (ESL)

69. Janine Cardoso (BRA)

Overall (Boulder, Lead e Velocidade)

1. Sean McColl (CAN)

2. Manuel Cornu (FRA)

3. David Firnenburg (ALE)

Para os resultados completos do Campeonato Mundial de Escalada 2016, incluindo velocidade e Paraclimbing, acesse o site do IFSC.

 

 

 

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