Projeto olímpico da escalada se aproxima de data decisiva
Para todos aqueles que sonham em ver a escalada nos jogos olímpicos de 2020 é hora de cruzar os dedos. No próximo dia 29 de Maio a o comitê executivo do COI vai decidir quais os três esportes que continuam na disputa por apenas uma vaga nas Olimpíadas de 2020. O encontro acontecerá em São Petersburgo na Rússia, e vai ter todos os esportes candidatos reapresentando seus projetos para o COI. Caso a escalada passe por mais essa peneira a decisão final fica para a última reunião, em Setembro em Buenos Aires.
E pode até ser apenas coincidência, mas o dia 29 de Maio marca o sexagéssimo aniversário da conquista do Everest, que tem fortes ligações com as Olimpíadas. Em 1924, nas Olimpíadas de inverno, os membros da expedição britânica que haviam chegado a 500 metros do cume foram agraciados com medalhas olímpicas de ouro. Uma dessa medalhas hoje se encontra no cume do Everest, onde foi deixada pelo montanhista Kenton Cool, ano passado, numa promessa feita a um dos pioneiros da expedição de 1922. Nas palavras de Kenton “em 1894 o Barão Pierre de Coubertin reconstituiu os movimento olímpico moderno e fez uma escolha deliberada em incluir o esporte da escalada. Ele sentiu tanto a não inclusão que em 1924 ele pessoalmente entregou a primeira medalha olímpica de ouro para o montanhismo, e em 2012 eu cumpri a promessa feita pela Grã Bretanha ao Barão Pierre de Coubertin e ao COI de deixar uma das medalhas de 1924 no cume da montanha mais alta do mundo ‘para toda a humanidade’ “. Para Koton “a escalada é a própria essência de tudo que o Barão de Coubertin quis dizer quando escreveu o mote olímpico de “Mais alto, mais rápido, mais forte!”.
Com certeza não veremos ninguém correndo em direção ao cume do Everest nas Olimpíadas de 2020, caso a escalada entre nos jogos, mas a data é sem dúvida nenhuma bastante auspiciosa para os planos do IFSC. Agora é esperar e torcer!
Estilo x Ética
O assunto sobre a chapa extra na Lamúrias e vias esportivas expostas gerou bastante discussão aqui no blog. Opiniões das mais variadas foram postadas nos comentários, com vários pontos de vista. O que foi ótimo! Mas durante essa semana, acabei trombando com um ótimo artigo do Diretor do Acces Fund, Brady Robinson, onde ele fala com bastante propriedade sobre uma confusão bastante comum nas discussões mais acirradas da comunidade escaladora. Quando estamos falando sobre ética e quando estamos discutindo apenas estilo?
Quando terminei de ler não consegui parar de pensar que o texto de Brady era um ótimo complemento para a toda a discussão que tivemos. Até que ponto as idéias colocadas naquele assunto defendiam a manutenção ou não da ética local ou do estilo do escalador ou da área? Acabei pedindo autorização para traduzir o artigo no blog e aqui o publico para os que não tem domínio do inglês possam usufruir desse belo texto. Obrigado, Brady!
Estilo vs. Ética – por Brady Robinson
No último outono na conferência sobre o Futuro das Ancoragens Fixas ocorrido em Las Vegas, um escalador de Black Hills na Dakota do Sul me deu um pequeno retorno sobre a minha fala de abertura. Ele notou que eu usava as palavras “estilo” e “ética” como sinônimos, quando, de fato, elas têm significados diferentes.
Aparentemente eu não estou sozinho – na sua experiência, quando escaladores falam sobre ética, eles estão geralmente se referindo a questões de estilo. Em Black Hills, áreas de escalada tradicional (móvel) como Needles, convivem muito próximo de áreas de escalada esportiva perto de Rushmore e o Canyon de Spearfish. No seu ponto de vista, as diferenças entre os escaladores tradicionais e esportivos são de estilo e não se elevam ao plano ético do certo ou errado. Ao lembrar as pessoas que sobre o que elas estão falando diz respeito à diferenças de estilo, ele acha que pode facilitar discussões mais produtivas entre escaladores que podem nunca se encontrar cara a cara.
Isso realmente me deixou pensando. Na escalada, quais questões são estilísticas e quais são éticas? A ética lida com conceitos de certo ou errado, que têm uma certa qualidade atemporal. Estilo tem mais a ver com as preferências pessoas e as tendências vigentes.
Colocar uma chapa de cima é errado? Bem, isso depende. É completamente aceitável em algumas áreas de escalada, mas em um lugar como Needles na Dakota do Sul, onde chapas sempre foram colocadas à mão a partir de proteções naturais? Claro que muitas das regras governando determinada área podem ser definidas não pelos escaladores, mas por terceiros, como os donos da terra, que claramente pode ter definido o que é ou não permitido em sua propriedade.

Um desvio estilístico pode ser às vezes uma violação de ética quando há um consenso sobre o que é aceitável ao estilo em determinada área? De novo, isso depende. Estilos mudam com o tempo. Há não muitos anos atrás, usar top rope para trabalhar os movimentos em uma via era uma falta séria! Hoje ninguém se importa mais com isso. Por outro lado, alguns alpinistas estão dispostos a arriscar suas vidas para escalar leves e rápidos, e podem até mesmo vir a rejeitar outros estilos de ascensão como válidos. Então, onde traçar a linha? São esse tipo de perguntas que mantém filósofos ocupados e fazem muitos escaladores lavar as mãos e simplesmente ir escalar. Mas não devíamos desistir tão fácil.
Uma maneira de avaliar uma ação ou comportamento em particular, é imaginar o que aconteceria caso todo escalador seguisse a moda. E se todos os escaladores violassem os regulamentos dos parques, deixassem equipamento escondido em terras públicas, cortassem as trilhas estabelecidas, tratassem a natureza como a academia, e deixassem grandes marcas de magnésio marcando as agarras nas vias e boulders? Bem, isso seria ruim. Então esses problemas estão provavelmente mais para assuntos éticos do que questões de estilo.
Pense sobre as questões e talvez as polémicas existentes nas suas áreas de escalada. Sobre o que as pessoas estão falando? Eles estão falando sobre questões de estilo ou em termos de certo ou errado? E estariam eles confundindo um assunto com o outro?
Se nós escaladores não nos posicionarmos pelo que é certo, nós colocamos o acesso de nossas áreas de escalada em risco. Mas se manter rígido como uma rocha em questões de estilo é algumas vezes um erro. Pode significar que você está sendo um idiota.
Resenha: The Network
Essa semana foi lançado o mais novo filme do diretor Chuck Fryberger , The Network, e o Desce daí, doido! já adquiriu sua cópia e conferiu o filme.
Depois de uma estréia promissora com Pure, e em seguida ter conseguido emplacar um dos melhores filmes de escalada feitos até hoje com Core, fica difícil manter o pique e cumprir as expectativas. The Scene, apesar de ser um bom filme, não teve a mesma energia de Core. The Network também não tem, mas por outro motivo, bem mais compreensível.
The Network foi divulgado como uma parceria entre a Chuck Fryberger Films e a RedBull, mas assistindo ao filme fica claro se tratar mais de uma encomenda da empresa dos energéticos ao diretor do que outra coisa. Isso fica patente pelo estilo, que deixou de lado os takes “nonsense” e as piadas internas do mundo da escalada, presentes em seus filmes anteriores, sendo substituídos por uma abordagem mais contida, documental.
Mas o fato de o filme ter sido encomendado não diminui em nada a sua qualidade. Na verdade acrescenta qualidades que os outros não tinham, embora tire um pouco do caráter “get psyched” mais presente em filmes como Core e Pure. O filme ganhou uma cara mais de documentário, partindo do pressuposto de que quem está assistindo o filme não sabe nada de escalada e nem nunca ouviu falar daquelas pessoas e seus feitos incríveis. É uma abordagem bastante interessante e que acaba amarrando bem a história, guiada pelo conceito da rede de atletas que se interligam, tendo como ponto de partida Kilian Fischhuber.
Kilian é claramente o protagonista da história. Todos os elos da rede se ligam a Kilian de alguma forma, e a escolha de Kilian também é clara: ele é talvez o atleta de escalada mais destacado patrocinado pela RedBull. Isso de forma alguma é ruim, já que Kilian é um grande escalador, tanto em competições quanto na rocha, o que confere momentos bem diferentes para o filme. Acompanhamos Kilian durantes etapas da Copa do Mundo de Boulder e no Mundial, sendo superado pela esquadra russa. E seguimos com ele para picos de boulder como Rock Mountain National Park e os Grampians. Também podemos ver algo que não vemos com frequência. Kilian Fischhuber escalando vias esportivas! Intermediando as cenas de Kilian, vemos alguns outros grandes nomes da escalada mundial, como Sean McColl, Daniel Woods, Paul Robinson, Dave Graham e Nalle Hukkataival, garantindo alguns bons momentos ao filme, com cadenas de vulto com o FA do Meadowlark Lemon V15 por Paul Robinson, o FA do Mystic Stylez V15 por Daniel Woods e a cadena do Big Paw V15 por Sean McColl.
No aspecto técnico, The Network mantém o nível dos anteriores. Trabalho de câmera preciso, bela fotografia, edição fluida e dinâmica, e belos gráficos para completar o pacote. O único porém da parte técnica é o uso um pouco frequente do zoom digital (zoom na edição), que acaba criando cenas com qualidade de imagem bem inferior ao resto do filme, desfocadas e pixeladas. Deixa até a impressão de que as famosas câmeras RED de 4k de resolução não foram usadas aqui.
No geral, The Network é um bom filme, bem no estilão OFF Films, indicado até para a galera que não conhece nada de escalada. The Network está disponível em download HD pelo site iClimb ao preço de $19,95 (cerca de R$40).
Quando uma chapa faz falta
Hoje fiquei acompanhando de longe uma discussão que surgiu no Facebook. A polêmica toda surgiu quando um escalador perguntou ao conquistador de uma clássica via do Cipó se podia colocar uma chapa em um lance exposto da via, para evitar acidentes. Ia aqui tentar manter o suspense, mas acho que a maioria ai que já foi no Cipó já deve ter matado a charada. A via em questão é a Lamúrias de um Viciado, que na sua segunda enfiada tem um lance fácil, mas bastante exposto, que em caso de queda pode ter consequências não muito legais (um tornozelo quebrado é algo bem plausível). Obviamente, opiniões para os dois lados surgiram. Alguns defendiam que era uma boa, e outros justificavam que a via foi conquistada assim e assim devia ficar.
Embora concorde em parte com a opinião de que uma via deve ser mantida como foi conquistada, acredito também que parece ser comum esse tipo de situação na escalada brasileira, onde lances considerados mais fáceis são esticados, deixando-os expostos. Não vou mentir que às vezes me cago de medo de fazer um lance exposto, mesmo que fácil. Mas também gosto de me testar a passar um lance que é “mentalmente” desafiador. Eu já deixei de entrar na própria Lamúrias porque estava sem móvel e não me senti confiante de encarar o lance depois dos vários “é de boa, mas não pode cair”. Mesmo assim, até acho que no caso da Lamúrias a chapa pode até ser dispensada, já que lá existe a opção e a possibilidade de se usar uma proteção móvel, ficando portanto a cargo do escalador encarar ou não a exposição e a possível queda. Mas gostaria de aproveitar o mote pra explorar mais esse assunto de lances considerados fáceis ficarem sem proteção, que com certeza não é exclusividade da Lamúrias. Principalmente nos casos onde não existe possibilidade de se proteger com móvel.
Primeiro vou colocar alguns conceitos que considero importantes, de como enxergo o risco na escalada. Existem diversas modalidades de escalada, cada uma com seu grau de comprometimento, de “aventura”, de assunção de risco. Dentre estas a escalada esportiva é a que foi desenvolvida para ser a mais segura, para garantir que os escaladores se focassem somente no desafio físico de escalar uma via difícil. Já a escalada em móvel e as escaladas tradicionais e de grandes paredes, são as que alguns gostam de chamar de “escalada de aventura” (não, não gosto dessa definição, mas vai por falta de termo melhor). Levando em consideração essa diferença entre as modalidades, eu não teria problema nenhum em ver uma via de dificuldade técnica fácil ter lances expostos em uma via tradicional, muito menos em uma via em móvel, onde quem decide onde e o quanto proteger é o escalador, deixando 100% nas mãos dele o quanto de risco ele quer correr.

Quando eu quiser "brincar" de não cair, eu vou fazer uma dessas.
Numa tradicional de terceiro grau por exemplo, não tem porque colocar uma chapa a cada três metros, ainda mais quando a via vai ter mais de 200, 300, 500 metros. Imagina a quantidade de chapa e mão de obra que vai ser pra abrir um negócio desses. Aqui no Ceará mesmo tem uma via de mais de 500 metros, quase toda um rampão de terceiro grau, que basicamente só tem paradas. São esticões de 15, 20, até 30 metros, sem nenhuma chapeleta pra dizer se pelo menos você tá indo na direção certa. Mas fazer o que? São 500 metros, e é terceiro grau. Se o cara é iniciante e não tem psicológico pra ir guiando, vai de segundo e pronto. Mas quando essa lógica é usada na escalada esportiva é que eu acho que o caldo começa a entornar.
Primeiro porque via esportiva, diferente de via tradicional, geralmente não tem croqui. Tem só um traçado indicando por onde é a linha e quantas costuras são usadas, isso se tiver muita informação. Segundo, e mais importante, porque escalada esportiva foi feita pra ser segura! Tanto é, que não existe grau de exposição pra esportiva, já que em tese, toda esportiva é pra ser um E1.
Portanto pra mim não faz sentido um cara que escala oitavo grau conquistar uma via de quarto, que obviamente vai ser frequentada primordialmente por iniciantes, e num lance que ele considera fácil, esticar o lance ao ponto de deixar ele perigoso. Já vi muito isso, até aqui mesmo no estado, e já bati muita cabeça com a galera, recebendo sempre as mesmas respostas. A mais comum é o velho chavão: “Se não tem capacidade não entra!”. Mas vem cá? Uma via de quarto grau não devia ser feita pra ser escalada por quem escala quarto grau, ou uma de sexto por quem escala sexto?! Se for nessa lógica vou pedir pro Adam Ondra abrir um 10c e quando tiver um lance de 9c no meio dela ele esticar a proteção, meter uns 8 metros de exposição, com um platô esperando lá embaixo. Pra ele 9c é mamão com açúcar.
Resolvi esticar o negócio que é pra tentar mostrar que é a mesma lógica de se abrir um sexto e esticar a proteção no lance que é de quinto ou quarto. Só enxergo como aceitável esticar um lance mais fácil quando a queda for limpa, for tranquila. Ai sim é benéfico. Ajuda o escalador iniciante a trabalhar melhor o psicológico, enfrentando uma queda maior, mas que ele vai ver que não tem consequências.
Sou completamente contra a ditadura do “não pode cair” em vias esportivas. Esportiva é pra poder cair sim, tomar umas vacas e aprender com isso. No dia que eu quiser, como diz o meu amigo Alex, trabalhar o poder-do-cu-fechado, eu me meto numa via tradicional com exposição E4, ou vou fazer uma via em móvel sem saber se o micronut que eu meti na fenda vai segurar minha queda de 5 metros em cima dele. Até lá, quero continuar caindo seguramente nas vias esportivas, seja ela de terceiro ou de décimo grau.
Review: Chasing Winter
Chasing Winter é a quarta produção da Prak Media de Paul Robinson (The Schegen Files, Welcome to The Hood, On The Circuit) e com certeza o melhor até agora. Usando o título como ponto de partida do filme, Paul Robinson explica que para cada atleta existe um patamar de temperatura e clima para se obter a melhor performance. Para os boulderistas o ideal são os climas frios e secos, explicando o porque de viajarem o mundo “caçando invernos”. Mas essa explicação toda fica somente por ai (e no final do filme, numa tentativa de amarrar a história), sendo esquecida no restante da produção que se desenvolve como qualquer outro filme de boulder, com muitas cadenas e trilha sonora instigante.
Mas Chasing Winter consegue dar um passo a mais do que os filmes anteriores de Paul Robinson. Neste podemos pelo menos sentir o que é ir numa “trip” para o outro lado do mundo. Paul aproveita para colocar um pouco da cultura da África do Sul, com trechos onde eles visitam locais comuns de Cape Town, provando a comida típica do lugar, por exemplo. Estão no filme também os momentos de descontração em casa, nos dias de chuva. O cozinhar a própria comida (onde Carlos Traversi aparece como o “chef” da casa), e até mesmo praticar outras atividades como o surfe, onde tanto Paul Robinson quanto Carlo Traversi mostram que como surfistas são ótimos boulderistas.
Quanto à escalada no filme, essa é filmada e editada com precisão. Aparentando estar usando equipamento de primeira, Paul Robinson consegue capturar grandes cadenas em imagens nítidas e bem compostas, que são muito bem acompanhadas pela trilha sonora muito bem selecionada, fugindo um pouco do 100% eletrônico. Algo digno de nota no filme, é o fato de Paul Robinson claramente assumir mais a postura de produtor e deixar que os demais sejam os destaques. São de Carlo Traversi as duas cadenas mais fortes (Paranormal Activity V14 e Mirta V14), ambas primorosamente filmadas e editadas, com uma trilha de deixar você querendo ir escalar na mesma hora, formando o clímax da primeira parte.
O outro grande destaque do filme é a pequena Ashima, que domina a segunda metade da produção. Aqui podemos ver o quão realmente Ashima é impressionante. Desde o primeiro V11 flash feminino com o boulder Black Demon, até as cadenas dos boulders Fragile Steps e Steady Plums Direct, ambos V13. O filme deixa claro que Ashima só não escala mais forte por não ter alcance suficiente para a maioria dos boulders. Como diz Paul Robinson em determinado momento “quando ela ficar maior, não vai ter boulder que consiga pará-la”.
Com esse Chasing Winter, Paul Robinson se recupera depois do fraco On The Circuit e deixa de novo a esperança de grandes produções da Prak Media no futuro, ainda com muitos boulders fortes e cadenas incríveis, mas com espaço para um pouco mais de história.
Chasing Winter tem no total 55 minutos e está disponível em download HD (1,98 GB) pelo site 27Crags, pelo custo de $ 14,98 (aproximadamente R$ 30,00).
Resenha: Brasil Vertical
No começo da semana o escalador Felipe Camargo lançou o seu curta Brasil Vertical, que registrou algumas das suas cadenas durante o ano de 2012. O filme teve uma boa recepção pela comunidade escaladora, tanto daqui quanto de fora, e em poucos dias já ultrapassou a marca de 10mil visualizações no Youtube. Aproveitando esse sucesso todo, resolvi escrever uma pequena resenha sobre o que achei do filme.
Antes de tudo, vale ressaltar que essa resenha vai levar em conta que o filme é uma produção amadora, com poucos recursos, tendo centrada apenas em uma pessoa (o próprio Felipe) as tarefas de diretor, câmera, editor, designer e ainda por cima “marketeiro”, e mais importante ainda, que é a primeira experiência de Felipe Camargo com produção de vídeos. Dito isso, vamos ao que importa.

Felipe Camargo na Comando Vermelho 11a
Brasil Vertical (ok, o nome não saiu tão original quanto o planejado né, Felipe?) começa com Felipe falando sobre a sua oportunidade única de ter podido escalar fora com alguns dos melhores escaladores do mundo, e da sua motivação para fazer o vídeo, que era de mostrar a escalada brasileira (principalmente a escalada de vias difíceis) para os gringos. Depois dessa breve explicação o filme não perde tempo e já nos leva direto para São Bento do Sapucaí, onde vemos Felipe fazer a primeira ascensão de dois fortes boulders, Sal Bento V10 e Segundo Sol V13. Já dá pra ficar “psyched” só com a pressão que você vê ele fazer durante a cadena do Segundo Sol.
Deixando São Bento, Felipe entra pra falar um pouco da Serra do Cipó, de longe um dos melhores picos de escalada esportiva do Brasil. Aqui acompanhamos mais 3 FAs, das vias Hooligans 10c, Premonição 11b (a via mais difícil do Brasil na atualidade) e Comando Vermelho 11a; ganhando ainda o extra da via Poder Paralelo no Sítio do Rod, em Lagoa Santa. Aqui o claro destaque fica na cadena da Comando Vermelho, que percebe-se ter sido a que teve um maior material filmado, permitindo à Felipe chegar num ótimo resultado na edição, explorando as tentativas mal sucedidas, e os vários ângulos e closes da cadena, construindo assim muito bem a dificuldade da via.
De Minas vamos para o Rio de Janeiro, onde Felipe conta um pouco a história da Coquetel de Energia, via que foi por muito tempo a mais difícil do Brasil, e mais uma vez vemos um bom trabalho de filmagem e edição. Os ângulos foram muito bem escolhidos e os closes nos movimentos são precisos, chegando a causar aquela sensação esquisita quando ele aperta o reglete e se ouve (não sei se o som é disso mesmo, mas dá pra sentir) os dedos estralando. No final Felipe ainda inclui a tomada “real” da cadena, que por ter sido feita à noite não permitiu ser aproveitada para o filme.
No final das contas Brasil Vertical é um bom filme. O estilo escolhido, chamado pejorativamente de “climb porn”, caiu como uma luva para intenção de Felipe que era mostrar um pouco da escalada brasileira para os gringos e motivar os escaladores nacionais a escalar mais forte. As pausas na “ação” com os comentários ajudaram a quebrar o ritmo das cenas seguidas de escalada, renovando o interesse no que vem a seguir. Isso fica claro no final da sequência de Minas, onde mais uma via ali começaria a ficar maçante. Por ser o primeiro filme de Felipe nota-se que ele experimenta bastante na edição, nem sempre acertando, testando alguns recursos de correção de cor, como o “cut out” no final da Hooligans, e um recurso meio “picture-in-picture” para mostrar um “close”, que acabou não funcionando tão bem quanto um corte limpo teria funcionado. As imagens de arquivo poderiam ter sido melhor utilizadas, principalmente se tivesse usado o vídeo original da Coquetel de Energia e não a tela do Youtube, mas acabaram cumprindo o seu papel. No geral o filme foi bem filmado, com boas escolhas de ângulos e bom trabalho de câmera, feito em grande parte por amigos, e a edição de Felipe ficou muito boa, levando-se em consideração ser esse o seu primeiro trabalho. Obviamente nota-se alguns altos e baixos na parte técnica, tanto no vídeo quanto no áudio, mas que eram esperados devido aos poucos recursos do filme. Talvez a parte que ficou mais aquém do “conjunto geral da obra” foi o design gráfico dos títulos, que poderiam ter usado uma tipografia mais interessante e ter mantido um padrão nos tamanhos e efeitos, e terem sido melhor posicionados na tela. Mas como o Felipe não é designer, eu relevo, mas deixando a dica para chamar um designer pra ajudar na próxima (tamo aí, Felipe!).
Para uma primeira produção o resultado ficou bem acima da média, e creio que com mais experiência Felipe Camargo pode acabar ficando muito bom nessa “brincadeira”, seguindo o exemplo do escalador Paul Robinson, que além de escalar muito, tem se mostrado muito bom na produção de vídeos.
Resenha: Autana
Uma montanha proibida e sagrada no meio da amazônia venezuelana, Leo Holding e Sean Leary na expedição e Alaister Lee registrando tudo isso. A julgar pela mistura e pelo ótimo resultado do filme anterior de Alaister Lee, The Asgard Project, poderia se dizer que mais um grande filme de escalada estava chegando. Mas não é bem assim. Autana não alcança o mesmo resultado de The Asgard Project, nem mesmo em seus melhores momentos.
O novo filme do diretor Alaister Lee começa com o trio da expedição, Leo Houlding, Sean Leary e Jason Pickles conversando em uma praia do caribe venezuelano sobre as dificuldades que irão enfrentar para chegar até Autana. De cara já soa estranho eles estarem tendo uma conversa dessas naquele ambiente, e de forma tão descontraída. Mas o que incomoda mesmo é a sensação de cena completamente dirigida. Não se sente uma gota de espontaneidade, indicando que na verdade eles já sabiam tudo que iam fazer, estavam ali apenas explicando pra câmera. Daí o filme parte pra mostrar a jornada do trio até a montanha sagrada de Autana, atravessando rios, evitando os contrabandistas e a polícia, e tendo que participar de rituais xamânicos para conseguir a permissão de escalar a montanha, gerando uma sequência completamente dispensável de “livre interpretação visual” das viagens de Leo Houlding após tomar o famoso chá de Ayahuasca.
Desde essa primeira parte já começa a incomodar a falta de tensão no filme. Diferente de Asgard Project, onde a todo instante se temia pela continuidade da expedição, aqui mais parece que eles estão num passeio, apesar de estarem indo para uma montanha isolada no meio da selva. Nem mesmo a lesão nos pés adquirida por Leo Houlding, serve para acrescentar alguma dose de preocupação, tanto que ela é completamente esquecida no decorrer do filme e em nada interfere na escalada.
As cenas de escalada são sim muito boas. A parede é linda, e as imagens capturadas pela câmera de Alaister Lee continuam fantásticas. As cavernas gigantes que existem no meio da parede são algo realmente incrível e apresentadas com toda a grandiosidade que elas merecem. Mas fora isso, mais uma vez vemos uma escalada sem emoções, sem contratempos, sem perrenques, tudo que se esperaria de uma escalada dessa natureza. O filme termina e você fica com a impressão de que foi tudo muito fácil para eles, tudo saiu como planejado. E talvez tenha sido. Talvez a idéia de ir até Autana tenha sido de se meter em um grande perrengue que acabou não se concretizando, gerando um filme morno, e que não vai ficar na lista dos melhores filmes de escalada já feitos.
Autana está disponível em download HD através do site da Posing Productions e custa o equivalente a salgados R$ 44,00. Adquira a seu próprio risco.
Resenha: The Abyss
Nos últimos meses uma série de “teasers” virais da Louder Than Eleven fizeram um belo trabalho de levantar o “hype” da sua próxima produção: The Abyss. Pouco se sabia do que viria a ser o projeto, mas tendo por trás a incrível qualidade técnica da equipe, com certeza a vontade de que fosse logo lançado era grande. E essa semana finalmente o filme, mais uma vez liberado de forma gratuita, e é claro que eu tirei um tempo pra assistir e fazer uma pequena resenha.
O filme tem foco no desenvolvimento de um novo pico de boulder no Colorado, na região do Monte Evans, local onde os boulderistas americanos vão escalar quando chega o calor, devido a grande altitude do local, oferecendo assim temperaturas mais amenas. O nome do novo pico, é obviamente, The Abyss, um local que parecia escondido e que foi encontrado por acaso pelos escaladores Jon Glassberg e Rich Crowder. O pico era tão fantástico, que era praticamente impossível ninguém jamais ter estado ali.
Enquanto filme de boulder, The Abyss é muito bom. Como sempre, a equipe da LT11 consegue captar muito bem a prática do boulder, com belas tomadas, closes precisos nos movimentos chaves, e belas panorâmicas. O filme consegue deixar você “psyched” (na falta de palavra melhor no português) e isso é o que importa em um filme como esse. Se o filme fosse somente isso, seria quase perfeito.
Mas os caras quiseram inserir conteúdo na produção, e tenho que dizer que não deu muito certo. A tentativa de fazer uma discussão “ética” no filme, soou forçada e sem sentido, e em vários pontos, mais com uma justificativa ou tentativa de legitimar algo que fizeram. A “grande” discussão do filme é: manter ou não manter um pico novo em segredo? E para falar sobre isso o filme traz pequenos depoimentos de vários escaladores, incluindo ai Joe Kinder e Chris Sharma. No começo os depoimentos parecem apontar na direção de que não, não é legal manter um pico em segredo. Mas a medida que o filme avança fica clara a premissa de que não tem problema fazer isso, contanto que você esteja desenvolvendo o pico. Contudo, a impressão geral que fica é mesmo a de que os caras descobriram o pico, mantiveram entre eles o tempo que conseguiram por puro ego mesmo (fazer os melhores FAs), alguém reclamou, e eles usaram o “poder da mídia” pra trazer a comunidade de escaladores pro lado deles.
Minha opinião? Achar um novo pico, seja de boulder, esportiva, ou tradicional, e manter ele só pra você (e seus amigos mais próximos) mesmo que seja com o intuito de desenvolver o local, é atitude egoísta e ponto final.
Tirando isso, The Abyss é um bom filme, e vale a pena ter na coleção, ainda mais sendo de graça. Confira abaixo o filme na íntegra, e faça o download pelo site: http://abyss.lt11.com/
Resenha: Montanhistas Episódios 1 a 5
Finalmente eu consegui tirar o atraso e assistir aos episódios da nova série de escalada, produzida pela Ciranda Filmes para o canal Off. Como eu não tenho TV por assinatura em casa, o jeito foi pedir para o meu irmão gravar os episódios para eu ir assistir quando desse, e ontem foi esse dia. Tive como companhia o meu sobrinho de 3 anos, que quase não me deixava prestar atenção na TV, e que quando olhava pros caras escalando soltava logo um: “Ele vai cair!”; ao que eu respondia que não ia, e ele replicava dizendo que ia. Com certeza vai precisar ir escalar comigo mais tarde pra perder esse medo.

Episódio 1 – Totem
O primeiro episódio da temporada nos apresenta aos protagonistas da série, os escaladores Hugo Langel e Bernardo Rubim (Biê). A cena de abertura é de deixar qualquer escalador que não mora no Rio de Janeiro doido pra se mudar pra lá na mesma hora. Uma panorâmica do Rio com a narração de Hugo Langel dizendo o quanto ele é abençoado por morar no Rio e poder começar o dia cedinho com uma escalada e depois ir para o trabalho, um privilégio que só mesmo a cidade maravilhosa oferece. E essa vai ser a tônica da série até aqui, mostrar a escalada do Rio de Janeiro como algo único, que não se encontra em nenhum outro lugar do país ou do mundo. E eu tenho que concordar, realmente não existe.
Nesse primeiro episódio a ação se concentra na via Totem no Pão de Açúcar, uma das vias tradicionais mais difíceis e bonitas do Rio de Janeiro. Quem é escalador se identifica logo com a dinâmica da dupla quando eles entram em cena, afinal de contas estamos assistindo ali o que a maioria de nós faz todo final de semana. Chegando na base da via, as velhas e boas discussões sobre quem guia primeiro, quantas costuras levar, quais móveis levar, mas no meio dessa conversa entra uma tentativa de explicação de equipamentos, que fica parecendo meio fora de lugar, talvez pela tentativa de disfarçar a explicação como se fizesse parte da conversa normal de um escalador. Ficou parecendo um pouco quando os atores da globo fazem “merchan” de produtos nas novelas tentando inserir os mesmos na cena. Não encaixa.
Mas logo começa a escalada e ai somos agraciados com cenas de escalada que nada deixam a desejar para produções gringas. Bom trabalho de câmera, buscando quando possível ângulos inusitados (como uma tomada com a câmera dentro de um buraco). A edição faz muito bem seu trabalho (aqui fica os parabéns para um dos editores, meu amigo Caio Gomes), conferindo o ritmo necessário e mesclando bem as cenas da escalada com os depoimentos dos escaladores. Nesse momento é só curtir a via e o visual junto com o Hugo e o Bernardo.
Episódio 2 – Pedra da Gávea
No segundo episódio, Hugo e Bernardo convidam uma amiga, Adriana, para participar da escalada com eles, uma das mais clássicas do Rio de Janeiro, a Travessia dos Olhos na Pedra da Gávea. Logo de cara o que eu notei de diferente nesse episódio foi a abordagem completamente nova em relação às explicações. Acho que eles perceberam que no primeiro episódio ficou estranho e resolveram assumir o lado didático do programa. Pra mim ficou bem melhor assim. Ficou como se você estivesse numa escalada guiada com os caras, com eles dando os toques aqui e acolá. Nesse episódio algumas explicações sobre o Grigri e porque a sapatilha é apertada tiram as dúvidas dos “não iniciados”.
Como sempre, belíssimas tomadas da escalada. E nem poderia ser diferente, já que o visual da Pedra da Gávea é um dos mais fantásticos do Rio: de um lado Barra da Tijuca e Jacarepaguá, do outro a Zona Sul. A participação da Adriana deu uma dinâmica interessante. Os depoimentos dela contribuíram de forma bem orgânica para o episódio, servindo como um meio termo entre aqueles caras e a pessoa comum que nunca escalou (ela confessa ter medo de altura e medo de cair, mas escala). É dela um dos comentários que são praticamente um clichê na boca de qualquer escalador: “o escalador tem dois prazeres, chegar no final da via e tirar a sapatilha”. Mais autenticidade do que isso, impossível. Espero ver outros convidados em breve.
Episódio 3 – Highline na Pedra da Gávea
No terceiro episódio continuamos na Pedra da Gávea, e vamos acompanhar a dupla em uma das especialidades do Hugo Langel, o highline. Pra quem já assistiu a série First Ascent, ver o Hugo andando esse highline não é novidade, já que era ele quem acompanhava os escaladores americanos Sean Leary, Renan Ozturk e Cedar Wright no episódio em que o highline na Pedra da Gávea aparece. O que esse episódio entrega de novidade é como é armado o highline. Sabe aquela pergunta que sempre fazem: como é que eles passam a ponta pro outro lado? Pois é, aqui eles mostram, e não tem muito segredo. Com o highline armado, é mais uma vez um show de imagens de tirar o fôlego.
Depois do highline, é a vez do salto de wingsuit. Hugo explica o equipamento, o que é o wingsuit, quem foi o pioneiro da brincadeira na Pedra da Gávea, e se prepara para o seu salto. De cara se nota a diferença da abordagem sobre qualquer outra produção que mostra basejump que você tenha assistido. Aqui não é simplesmente se jogar , gritar “uhuuuu” e pronto. A edição faz questão de mostrar toda a concentração e tensão antes do salto. Mostra que o negócio não é brincadeira e nem é pra todo mundo.
De todos os episódios até aqui, talvez esse seja o que pecou mais em relação ao ritmo. Talvez por não ter muita coisa para mostrar e as cenas acabarem ficando meio repetitivas em alguns momentos. Mas ainda assim, um bom episódio.
Episódio 4 – Via Urbanóide
No quarto episódio a bola da vez é a via Urbanóide, no Morro do Cantagalo, cercado de prédios por todos os lados. Comprovando que a parte didática foi realmente assumida pela produção do programa, mais uma vez vemos os toques do Hugo e do Biê sobre equipamento, procedimento. Nesse eles falaram sobre o nó oito e o uso do capacete antes de partir pra via, com alguns comentários sobre exposição, paradas. Tudo bem básico, mas bem interessante. O legal desse episódio foi ver pela primeira vez os caras com cara de quem tavam “perrengando” na parede. Começa com o Hugo reclamando da primeira chapa alta, e automaticamente você sente aquele frio na barriga característico quando você se prepara pra encarar um lance exposto.
Eu não conhecia, nem nunca tinha ouvido falar da Urbanóides, e o episódio me deixou realmente com vontade de repetir a via. Escalar cercado de prédios deve ser uma sensação completamente diferente. Escutando as pessoas conversando em suas casas, como comenta o Hugo em determinado momento. Confesso que fiquei esperando alguém gritar de um prédio próximo: “Desce daí, doido!”, mas não foi dessa vez. Essa foi a primeira vez que vimos a dupla rapelar pra descer de uma via, embora sem muitas explicações sobre o procedimento. Mais um ótimo episódio!
Episódio 5 – K2
O último episódio que foi ao ar enfocou uma via super clássica do Rio de Janeiro, a K2 no Corcovado. Dessa vez a lógica se inverteu um pouco, e o Hugo que sempre guiava a primeira, deixou a saída por conta do Biê, que ficou fissurado pra guiar o diedro inicial. A escolha da dupla foi deixar de lado os grampos e proteger o diedro somente com móveis, o que render uma breve explicação do funcionamento do equipamento. O legal desse episódio pra mim foi (re)ver a via que eu cheguei a entrar, mas não continuei. Na minha última trip para o Rio o tempo não ajudou muito, e tive que abortar a escalada ainda no diedro inicial.
Pra quem nunca fez a via e tem vontade de fazer, é praticamente uma aula de como fazer a K2. Pontos que antes a gente só ouvia falar, como o famoso lance do palavrão (que eu achava que era logo depois do primeiro diedro), ficaram bem evidentes e não pareceram tão difíceis, mas vai saber né? Rola até uma “trolagem” do Hugo com o Biê, indicando o local onde ele vai bater se cair no lance. Deu pra dar umas boas risadas nesse episódio.Obviamente que o melhor da via, é o final. Chegar aos pés do Cristo Redentor escalando, é um privilégio que só nós temos.
Fazendo um balanço dos 5 episódios até aqui, a série Montanhistas tem mostrado muitos mais acertos do que erros. A abordagem a seguir pareceu meio indecisa no começo, mas agora para ter se firmado. Como escalador gostaria de ver algo realmente mais voltado para nós, com vias um pouco mais desafiantes, talvez um pouco mais de perrengue, mas de certa forma entendo a escolha por um caminho menos hermético, que do ponto de vista de difusão do esporte é bem mais eficiente. A qualidade técnica é incontestável, tanto no trabalho de direção e fotografia, a cargo do idealizador Seblen Montovani, quando a parte de edição a cargo da equipe da Ciranda Filmes. A série está se mostrando instrutiva e divertida, tanto pra quem escala, quanto pra quem nunca escalou na vida. Mas o grande destaque mesmo fica por conta da dupla escolhida pra protagonizar a série. Hugo e Biê esbanjam simpatia e bom humor durante todo o programa, sem contar que deixou transparecer o entrosamento e a amizade que fazem parte de qualquer parceria de escalada.
Hoje vai ao ar o sexto episódio da série, que vai sair agora da capital carioca e visitar a Pedra do Elefante, na região serrana do Rio, e vai ter como convidado o escalador Ralf Cortês. Fica ai então a dica, pra acompanhar os próximos episódios e conferir as reprises dos que já tiverem passado.
Por que a escalada deve estar nas Olimpíadas?
As Olimpíadas de Londres terminaram e agora o mundo volta os olhos para o Rio de Janeiro em 2016. Mas a comunidade de escaladores mundial olha um pouco mais longe, para 2020, ano em que a escalada pode ter a primeira chance de fazer parte dos jogos olímpicos, e segundo alguns, as possibilidades são boas e temos motivos para sermos otimistas.
O COI decide em Setembro de 2013, em Buenos Aires, quais os esportes entre Baseball, Softball, Karate, Squash, Wushu, esportes sobre rodas (patins e skate), Wakeboard, Futebol de praia e Escalada vão fazer parte dos jogos de 2020. O Baseball e o Softball tentam voltar aos jogos depois de saírem em Pequim 2008, alguns da lista já tentaram outras vezes sem sucesso, mas essa é a primeira vez da escalada tentando uma vaga, já que o esporte foi reconhecido oficialmente pelo COI somente em 2010. Isso com certeza pesa contra a escalada, mas em alguns outros quesitos nós com certeza levamos vantagem. Em artigo publicado ontem pelo site da revista americana Outside (cujo título eu tomei emprestado), um pouco do porque de a escalada ter demorado tanto para surgir como possível esporte olímpico e as chances que temos, são bem explicadas.
Segundo o artigo, o principal motivo para a escalada ter demorado tanto a surgir como potencial esporte olímpico, é cultural. Durante grande parte do século XX, quando a base das Olimpíadas foi estruturada, a escalada existia basicamente como escalada alpina, e envolvia mais logística e força de vontade. Quando a escalada em rocha surgiu nos anos 50 e 60, ela era essencialmente feita em artificial, e pouco tinha a ver com a escalada esportiva dos dias atuais. Foi nos anos 70 que essa história mudou, com o desenvolvimento da escalada em livre, onde os escaladores só usavam as mãos para segurar e se puxar nas agarras e assim progredir. O esporte evoluiu e hoje os escaladores são essencialmente atletas, que treinam em ginásios especializados, com equipamentos específicos, visando sempre aumentar seu nível. Os campeonatos estão cada vez mais organizados e atraindo um público a cada dia maior, sendo transmitidos ao vivo pela internet e pela televisão. Parece que o nosso momento chegou. Mas quais seriam as vantagens da escalada frente aos outros esportes candidatos?
Enquanto esporte a escalada se assemelha muito a modalidades como atletismo e natação, onde super-atletas desafiam as definições do que o corpo humano é capaz de fazer. A escalada também traz esse componente, de feitos sobrehumanos acontecendo na frente dos nossos olhos. Basta assistir um escalador participando de um Campeonato Mundial, se locomovendo em paredes incrivelmente inclinadas, “pendurados” em agarras que para pessoas comuns são virtualmente impossíveis de se segurar.

Adam Ondra terá 27 anos em 2020, e ainda poderá ter uma chance de participar das Olimpíadas.
A escalada é um esporte fácil de assistir, e empolgante de ver. Diferente de esportes como o Baseball e Softball, que você tem que conhecer as regras para pelo menos saber quem está ganhando, na escalada é bastante simples: quem for mais alto, está na frente. E ver os escaladores indo cada vez mais alto, é algo muito legal, até para pessoas que não praticam o esporte. Já presenciei pessoas que nunca haviam assistido uma competição de escalada antes, vibrar com um escalador fazendo um movimento e passando um trecho que já havia derrubado tantos outros.
A quantidade de jovens praticando escalada e competindo em nível profissional é muito grande. Caso a escalada consiga fazer parte dos jogos de 2020, com certeza veremos atletas com média de idade inferior aos 25 anos, e é sabido que o COI valoriza esse componente nos esportes. Outro fator favorável à escalada, e que impressionou observadores do COI, foi o modo como os atletas, competindo um contra o outro, trocavam informações sobre uma via antes de competir. Algo inusitado para esportes de competição, mas extremamente comum entre os escaladores. Se isso não é “espírito olímpico”, eu não sei o que mais é.
Contudo, o COI também tem algumas preocupações bem mais práticas, como faz questão de frisar o autor da revista Outside. Mais espectadores, dinheiro de patrocinadores e mais cobertura de mídia, na verdade são os elementos chave para levar um esporte às olimpíadas. Mas quanto a esses quesitos também não fazemos feio. A escalada tem praticantes apaixonados pelo esporte espalhados pelo mundo todo. As competições mais recentes tem atraído atletas de cada vez mais países e visto platéias com mais de 10 mil pessoas. Grandes marcas ligadas ao esporte já existem, como a Petzl e a Black Diamond, que com certeza despejariam mais dinheiro em um esporte olímpico. Mas nessa brincadeira também temos uma gigante, a Adidas, que tem investido pesado na escalada nos últimos anos, patrocinando atletas e promovendo suas próprias competições. A cobertura da mídia com certeza é o nosso quesito mais fraco desses três, mas nos últimos tempos a escalada tem recebido uma atenção maior da mídia, com aparições em publicações do calibre da revista People, programas de TV como 60 segundos, e matérias recorrentes na capa da seção de esportes de um dos maiores jornais do mundo, o The New York Times. Falta ainda a devida cobertura das competições.
Esse ano o Campeonato Mundial em Paris, a ser realizado em Setembro, é tido como o grande teste. Com certeza observadores do COI vão estar por lá acompanhando toda a competição e o IFSC vem se preparando a bastante tempo para isso, fazendo inclusive adaptações nas regras da modalidade dificuldade, de forma a minimizar os empates. No último Campeonato Mundial em Arco, a transmissão online foi realmente fantástica, e podemos esperar algo ainda melhor para esse ano. Essa é a chance da escalada deixar sua última boa impressão para o COI, com uma grande competição onde todos os melhores atletas do mundo vão estar competindo. Se tudo der certo, quem sabe em Setembro do ano que vem toda a comunidade de escaladores estará comemorando a escalada como esporte olímpico!










