E o encontro?!

Acho que essa deve ter sido a pergunta que mais me fizeram durante esse ano. Não só a mim, mas a vários outros escaladores daqui do Ceará. A todo instante alguém pergunta sobre a realização do X Encontro de Escaladores do Nordeste, agendado para acontecer entre os dias 12 e 15 de novembro, em Redenção. E sinceramente, eu cansei de responder o decepcionante: “Eu não sei!”. Primeiro porque quem deveria estar respondendo essa pergunta era a organização do encontro, mas acho que ou ela se esconde demais, ou ninguém tem coragem de perguntar. Segundo, porque eu gostaria de responder algo legal, motivar a galera pra vir para o encontro e curtir esse pico de escalada cearense, que eu gosto muito, e confraternizar com outros escaladores, mas infelizmente não posso. E terceiro, e último motivo, porque a verdade é que eu sei sim do encontro, ou pelo menos tenho uma boa ideia sobre ele e como ele vai ser, e toda vez que eu digo “Eu não sei!”, eu estou me omitindo.

Mas afinal de contas, e o encontro? Até onde eu sei, ele vai acontecer. Mas o modo como ele vai acontecer é que me deixa seriamente preocupado. Essa preocupação teve sua semente plantada lá no começo de 2010, nas primeiras reuniões que participei sobre a organização do encontro, quando os dois principais grupos de escaladores daqui não conseguiam se entender. Um lado era representado pela FEMECE (Federação de Montanhismo e Escalada do Ceará) e o outro pelo que hoje é a Fábrica de Monstrinhos. Não é segredo nenhum que participo do segundo grupo. No desentendimento inicial havia 2 principais motivos: não se concordava no papel que cada “entidade” deveria ter no evento; e não se chegava a uma decisão de local para receber o evento.

No primeiro motivo, houve um desentendimento com relação a qual entidade deveria realmente figurar como organizadora do evento. A Fábrica de Monstrinhos, que na época ainda não existia de fato, defendia que a ACEME (Associação Cearense de Montanhismo e Escalada) deveria ser a organizadora do encontro, com a FEMECE dando o seu aval institucional, figurando assim como a realizadora do evento. Os demais clubes membros da FEMECE seriam apoiadores do encontro.

Por que dessa proposta? Pelo obvio motivo que a ACEME era a única entidade de escalada que existia no estado. Os demais clubes da FEMECE são clubes de Escotismo e Corrida de Orientação, que por mais que tenham em seus quadros pessoas que escalem ocasionalmente, carecem da experiência da prática constante da escalada, que na minha opinião, era de vital importância para organizar bem o evento. A FEMECE não concordava sob hipótese alguma com essa proposta. Queria ela entrar como organizadora, e os clubes, ACEME incluso, seriam apoiadores do evento. No final das contas, a FEMECE firmou o pé na ideia de que se estava tentando excluir os outros clubes do evento, e foi em frente com o seu modelo de “organização” do encontro!

Já no segundo motivo, que pra mim foi o decisivo para haver o “racha” entre os grupos, a Fábrica de Monstrinhos defendia, desde o começo de 2010, a escolha de Redenção como a sede. Na época eu ainda pensava em algo mais ambicioso, usar o encontro para criar um pico de escalada completamente novo para o estado. Mas com o tempo de organização começando a encurtar, logo me alinhei com a proposta de Redenção, que já tinha parte do trabalho feito. A FEMECE não endossava a proposta de Redenção à época, mas também não colocava nenhuma proposta de local na mesa de discussões. Pra acabar com a discussão, a FEMECE lançou uma “Carta Normativa” que criava uma comissão de encontro, empossava um diretor e dava um prazo de duas semanas para qualquer proposta de evento fosse entregue a ela em forma de projeto, com prazos, custos, etc. Se não surgisse qualquer proposta, a FEMECE se colocava no direito de fazer ela a escolha do local e tomar as demais decisões do encontro e apenas informar aos clubes. Obviamente interpretamos isso como um modo de “calar a boca” do pessoal que não concordava com eles e fazer o evento à sua maneira. Então deixou-se a decisão por conta deles, e a Fábrica de Monstrinhos ficou completamente de fora da organização do encontro. Íamos agora somente esperar o evento acontecer!

O tempo foi passando e qual não foi minha surpresa, quando no final de 2010, depois do encontro de Brejo, a FEMECE, já sem o apoio da Fábrica de Monstrinhos, decidiu pela cidade de Redenção como sede do encontro. Levaram praticamente um ano para chegar na mesma escolha que já vinha sendo proposta desde o começo do ano. Ou seja, um ano que poderia ter sido usado no trabalho de equipagem das vias e outros afazeres, foi jogado no lixo. E isso, com toda certeza, vai comprometer na qualidade desse encontro.

Quando eu ainda pensava em idéias para o evento, e vislumbrava um grande encontro aqui no Ceará, eu tentava sempre me basear nos modelos de Itatim e Brejo, que apesar de não ter ido para esses encontros, fiquei sabendo terem sido muito bem organizados. Eu imaginava que o encontro no Ceará devia manter o nível crescente destas edições anteriores e quem sabe até subir mais o nível, já que essa seria a edição de 10° aniversário dos EENe.

Para um comparativo simples do que foram esses encontros e o que provavelmente vamos ter em Redenção esse ano, vamos pegar a quantidade de vias, que é pré-requisito básico para se ter um encontro bem feito, garantindo a diversão de todos os presentes. Sempre pensei que um encontro aqui tinha que ter no mínimo umas 60 vias (pensava como um número ideal 80), entre esportivas e clássicas, talvez até boulders, e com uma variedade ampla de graduação. Itatim chegou na data do encontro com 60 vias, entre tradicionais e esportivas. Brejo realizou o encontro com 50 vias, também entre tradicionais e esportivas, nos mais variados graus. Todas as duas edições com um grande de trabalho de conquista! E Redenção?

Redenção tem hoje, e isso contando o que já existia e o que já foi divulgado de conquistas até agora, 30 vias. Metade das vias de Itatim e nem 2/3 das vias de Brejo. As vias estão distribuidas nos setores Assombrado e Pedra Vermelha e são todas vias esportivas, algumas em móvel, com a mais fácil, e única desse grau, sendo um IVsup. O restante vai de VI grau até projetos na casa de IX/X. Dessas vias, apenas 2 foram conquistadas pela organização do evento. Outras duas foram conquistadas pelos escaladores do Rio Grande do Norte, em visita a Redenção, para ajudar na equipagem. Esse foi o saldo de vias novas para o encontro divulgado até agora: 4!

Outro fator preocupante com relação as vias, é o fato de a organização ter ignorado por completo um novo setor de Redenção, que poderia fornecer as vias tradicionais tão importantes para o encontro, o setor Pitombeira. Lá já existe uma via, de 7 cordadas e um projeto incompleto, que já vai com 3 cordadas. Ambos abertos pelos escaladores da Fábrica de Monstrinhos, que descobriram e exploraram o local. Por que a organização resolveu ignorar essa pedra de enorme potencial, eu sinceramente não sei.

Aumentando ainda mais minha preocupação com relação a esse encontro, pesa o fato de se ver pouco, ou quase nada, sendo feito em Redenção. Não se vê nenhum trabalho de manutenção ou melhor adequação das trilhas de acesso às pedras (pessoal do Rio Grande do Norte teve que abrir a trilha para a Pedra Vermelha no facão). Não se sente segurança com relação à  confirmação do local que vai abrigar os escaladores no encontro, que segundo foi informado seria o Balneário Lages Lazer, de frente para a pedra do Assombrado. Falo isso porque das vezes que já se foi por lá e se conversou com os responsáveis pelo lugar, eles nunca confirmaram ter fechado qualquer acordo ou contrato com a organização. Só apenas informaram o preço que pensam cobrar pelo aluguel do espaço, e parecem não estar muito interessados em receber menos do que esse valor, e nem receber após o evento. Se nesse meio tempo a organização fechou realmente algo, eu não sei.

Para completar, estamos a 2 meses para a data do encontro, e não há sinais de início das inscrições, nem notícias de quando irão começar. Não existe qualquer informação no site do encontro com relação à programação, palestrantes, convidados, o que seja. E isso só aumenta o clima de dúvida com relação a esse encontro. (no momento que este texto foi escrito não havia nenhuma dessas informações no site, hoje é que entrou no ar uma nova versão já com a inscrição, um esboço de programação, mas nada de palestrantes ou oficinas)

Não escrevi isso tudo com o objetivo de “queimar” o X EENe. Meu objetivo com esse texto é fazer com o que a organização se posicione, dê as caras, apareça e mostre o que está sendo feito para dar segurança aos escaladores que sempre compareceram aos encontros regionais nesses últimos 9 anos. O que eu escrevi aqui é o que aconteceu antes, e o que eu posso ver que está acontecendo agora. Se a organização tem trabalhado incessantemente e em silêncio, não tenho como saber. E se assim o faz, sugiro realmente que mudem de postura e passem a oferecer mais informações a todos os interessados. Eu já cansei de responder “Eu não sei!” e da próxima vez que vierem me perguntar, ou indico esse texto, ou mando ir perguntar pra organização. O que eu sinceramente não quero, é ver a comunidade inteira de escaladores do estado ter a imagem manchada caso o encontro seja um fracasso. E reitero que não aposto nisso, mas tampouco aposto em um grande sucesso.

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