Reel Rock Tour e São Bento do Sapucaí

Retorno de viagens são sempre corridos. Tudo que você deixou antes de ir viajar cai no seu colo pra resolver, e dessa vez eu só tinha dois dias, já que quinta-feira era feriado. Por isso demorei tanto pra escrever o relato dessa minha última trip para acompanhar o Reel Rock Tour em São Paulo e esticar até São Bento do Sapucaí para conferir os boulders do local.

Sai daqui de Fortaleza na quinta-feira (08) com destino à capital paulista, aproveitando os bons preços encontrados na busca de passagens aéreas do Skyscanner. Foram 3 horas e meia de viagem até São Paulo, com uma hora sendo “engolida” pelo horário de verão. Sai daqui meia noite e cheguei em São Paulo 4 e meia da manhã. A ordem do dia era dar uma volta por São Paulo e de noite ir conferir a primeira edição brasileira do Reel Rock Tour, promovido pela The North Face e organizada em São Paulo pelo Blog de Escalada.

O inconfundível vão livre do Masp

Cheguei muito cedo no albergue, o Gol Backpackers, e não pude fazer check-in, apenas jogando minhas coisas por lá e saindo pra dar uma volta na famosa avenida Paulista, que fica a apenas um quarteirão do albergue. Pela tarde encontrei um grande amigo de Fortaleza que está por São Paulo e fomos almoçar e depois conferir o novo 007, Operação Skyfall no Imax. A ideia era após o filme tocar direto pro albergue, tomar um banho e andar até o Espaço Itaú de Cinema, na Frei Caneca, para conferir o Reel Rock. Eu só havia esquecido uma coisa: eu estava em São Paulo. Voltando de ônibus, pegamos um leve engarrafamento antes de chegar na Paulista, o que me atrasou em quase uma hora e me fez correr pra chegar à tempo.

Chegando no cinema a fila já estava formada e todos entrando. Tomei meu lugar na fila e entrei na sala, me deparando com uma casa cheia. Avistei o Raphael Nishimura na plateia e fui me sentar próximo a ele. Já estava tudo certo e ia começar a mostra. Realmente uma experiência fantástica acompanhar quatro grandes filmes na tela grande, com som de primeira. Tirando alguns deslizes na legenda, que acabaram me incomodando um pouco, tudo foi muito bom, e valeu a pena ter ido. Escreverei sobre os filmes depois, mas com certeza o melhor na minha opinião foi o The Sharks Finn. Baita história de superação e força de vontade.

Cinema lotado pro Reel Rock Film Tour

Sexta-feira foi mais uma vez dia de ficar por Sampa e sair com os amigos. Mas antes de sair pra conhecer mais a cidade fui até o terminal rodoviário do Tietê para comprar minha passagem até São Bento do Sapucaí. Peguei a do primeiro ônibus, partindo 7 horas da manhã, com destino a Brasópolis, passando por São Bento. Para o resto do dia as escolhas da vez foram o Masp, Pinacoteca e o Mercado Municipal, para experimentar o tradicional sanduíche de mortadela! Aquilo sim é um sanduíche de mortadela. Ainda estiquei a noite com o meu grande amigo Christian até o Empório Alto de Pinheiros, uma casa especializada em cervejas, com quase 10 torneiras de chopp especial e cerveja pra deixar qualquer amante do pão líquido (como eu) indeciso.

O sábado chegou cinzento, e acordei cedo para pegar o ônibus até São Bento do Sapucaí. Mais de 3  horas de viagem até a cidade serrana, e chegando debaixo de uma leve garoa. Não muito bom. Tentei entrar em contato com o Claudio Brisighello, amigo do climb que conheci no Rio de Janeiro e que agora mora em São Bento e mantém um Chalé para escaladores próximo da Pedra do Baú, mas não consegui sinal. Almocei na cidade, e finalmente consegui fazer contato com ele e combinei de esperá-lo em frente ao mercado Goulart. De lá subimos até o chalé, com tempo encoberto e eu já desanimando. No chalé encontrei a Yuri, e as três feras da casa: os “dogs” Cohiba, Fifi e Fidel.

Acordar cedo para pegar o ônibus me deixou quebrado e aproveitei para tirar um cochilo no chalé, que é realmente fantástico. Tudo com muito cuidado nos detalhes, bem organizado, com banheiro, cozinha, frigobar, mesa de refeições e uma cama de casal bem confortável, que transforma o chalé numa ótima opção para casais de escaladores. Um sofá cama também torna possível que o chalé seja compartilhado por uma dupla de amigos. Basta tirar na sorte quem fica com a cama! 🙂

Acordei com o Claudio me chamando para irmos conferir o bloco do bigode, um boulder na beira da estrada e de bem fácil acesso. Existia a chance de ele estar seco. Fomos até lá, e o Fidel foi seguindo a gente correndo atrás do carro (faz parte da rotina de exercícios dele). Chegamos lá e o bloco estava um pouco seco, mas as agarras do domínio e a virada estavam encharcados. Ainda assim resolvi dar uns pegas nos dois V5 do bloco: Bigode e Navalha. Dei alguns pegas no Bigode, isolando o lance do bote, mas não consegui linkar tudo.  Depois fui dar um pega no Navalha e gostei muito da primeira entrada, quase ficando no agarrão de flash. Mas as outras não foram tão boas e nem sequer consegui isolar o lance. Mas foi bom para um primeiro dia. Era esperar o domingo e o sol!

Mas o domingo amanheceu cinzento. Mal se conseguia ver a pedra do Baú ao fundo de tantas nuvens. A garoa era leve, mas a julgar pelas pedras próximo ao chalé, ela tinha caído a noite toda. Mas ainda restava uma esperança. Claudio acreditava que no setor Aranha, poderia existir boulders secos, já que se trata de uma cave. Esperamos o tempo firmar um pouco mais e seguimos até lá. Subindo a trilha, o presente: o sol apareceu e o céu abriu substituindo o cinza das nuvens por um belo azul. Mas chegar no setor foi um tanto decepcionante. Tudo estava encharcado e pingando. A Yuri mesmo comentou que nunca havia visto o setor tão molhado. O Claudio foi me mostrando as linhas, vários clássicos que eu deveria entrar em uma  outra oportunidade. O setor é realmente fantástico! Uma grande concentração de linhas nos vários blocos do local. Praticamente não existe um bloco sem linha. Desde V1 até V12 e mais alguns projetos. No tour pelo setor achamos duas linhas secas: Parabrisa e Pão de Forma; bem ao lado do Pop Fingers, uma das minhas escolhas para a viagem, mas que infelizmente estava encharcado.

Pinça nojenta da saída do Pão de Forma

O Claudio entrou no Parabrisa, um V2, para conferir se o domínio estava seguro ou molhado demais. Com a ajuda de um maçarico e uma toalha ele deu uma secada em algumas agarras e deixou no ponto. Entrei em seguida no boulder e encadenei de flash. Primeiro boulder em São Bento! Daí foi a vez do Pão de Forma, um V3. Claudio fez fácil e eu entrei achando que ia mandar de primeira. Fiquei travado na saída. Uma agarra pinçada nojenta de esquerda, com um drop knee de direita pra ficar encaixado e ir catar a pincinha de direita. Tentei umas  boas 8 vezes até encaixar o movimento e fazer a saída. Com a saída dominada o boulder saiu acho que no segundo ou terceiro pega. Dois boulders em São Bento, tava começando a valer a pena.

Resolvemos descer até um bloco que passamos quando havíamos chegado e que estava molhado. Na subida o Claudio levantou a possibilidade do bloco secar se o sol abrisse, e como realmente o tempo firmou e o sol brilhou forte, o bloco estava seco quando voltamos nele. Era hora de tentar um dos clássicos do local: Visu do Baú V4. A Yuri me passou os betas da saída, e eu entrei sem muita demora. Fui a cada entrada avançado um movimento, até finalmente encaixar no final e conseguir a cadena lá pelo quinto pega.

Mandando o Visu do Baú V4

Depois da cadena fui dar uma volta com o Claudio por outros blocos do setor, e fiquei ainda mais impressionado com tudo. Bastante coisa, linhas perfeitas e bonitas, como o bloco que guarda o boulder Moby Dick e também o bloco perfeito do boulder Diamante Negro. Os dois linhas bem estéticas, de movimentos bonitos e completamente naturais. Durante a caminhada o Claudio ainda me falou de outros setores de São Bento, que segundo ele, não deixam nada a dever a picos gringos.

Voltando para o bloco do Visu, resolvi dar um pega na aresta do bloco, que guarda um V1, só pra soltar os músculos e terminar por ali os trabalhos. Voltamos para o chalé, onde iria rolar uma “session” no murinho, junto com o Carlera e Paulinha, casal de escaladores que também moram em São Bento e administram uma hospedaria por lá. Por volta das seis e meia eles chegaram, trazendo junto o Lello, e começou o treininho no muro, com direito a um belo pôr-do-sol. Mais tarde chegaram o Belê e a Nívea e fechamos a noite com algumas cervejas, um bom papo e um belo macarrão preparado pelo Claudio. Noite muito agradável com os amigos do “climb”. Fui dormir com o céu estrelado de São Bento me deixando esperançoso que a segunda, meu último dia em São Bento, seria de sol e mais alguns boulders.

Treininho no muro com Claudio, Carlera, Lello, Paulinha e Yuri

Ao acordar no outro dia meu primeiro olhar foi pra janela. Mas o que eu vi do lado de fora foram as velhas nuvens dominando a paisagem e garoa caindo mais uma vez. Um tanto decepcionante, mas fazer o que? Ir para um pico de escalada fora de temporada tem dessas coisas. Resolvi então relaxar pela manhã e ajeitar a mochila pra volta. Resolvi pegar um ônibus mais cedo para São José dos Campos, já que os ônibus direto para São Paulo são poucos. Descemos então para almoçar por volta do meio dia, para depois eu pegar o ônibus, que eu achava ser de 14h40. Mas numa passada rápida na rodoviária só para conferir, vi que era de 14h10, e tive que correr com o Claudio pra estrada, chegando exatamente na hora que o ônibus estava chegando. Não deu nem tempo direito de me despedir do Claudio e da Yuri, mas aqui eu deixo meu agradecimento aos dois, pela fantástica recepção, a boa comida e bom papo. Com certeza vou voltar em São Bento ano que vem.

Segui viagem até São José dos Campos, e de lá peguei um ônibus pra São Paulo, já que o meu vôo para Fortaleza era somente meia noite. Resolvi aproveitar o tempo e encontrar de novo meu grande amigo Christian, e me despedir dele. Depois da despedida, fui pegar o Airport Service em frente ao albergue que havia ficado e segui para Guarulhos, já sentindo saudade dos amigos e dos blocos de São Bento!

Facebook Comments