Entrevista com Eric Hörst – o autor do bestseller “Training for Climbing”

Quem se interessa em aprender mais sobre treinamento para escalada com certeza já deve ter esbarrado em algum livro escrito por Eric Hörst. Ele é um dos autores mais conhecidos mundialmente sobre o tema e tem alguns de seus livros entre os “must read” para qualquer escalador interessado em melhorar sua performance. Alguns dos mais famosos são o “How to Climb 5.12” (em tradução literal, Como escalar 8º grau), “Conditioning for Climbers“, e o bestseller, já em sua terceira edição, “Training for Climbing“.

Além de autor respeitado, Eric já treinou incontáveis escaladores desde os anos 90, incluindo seus dois filhos, Cameron e Jonathan, ambos escaladores na casa do 11º grau. Eric também escreveu inúmeros artigos para revistas e sites, e hoje mantém um podcast dedicado somente ao treinamento para escalada, o Training for Climbing Podcast.

Buscando iniciar uma série de entrevistas sobre o tema, procurei o Eric para uma pequena conversa e ele gentilmente respondeu às minhas perguntas. Você pode ler a entrevista completa abaixo.


Você tem atuado como um treinador e escrito sobre treinamento para escalada há mais de 20 anos! O que mudou no treinamento para escalada desde que você começou?

Eric: Eu comecei como treinador (e a escrever sobre treinamento) em 1988. Então, na verdade fazem 32 anos! Naquela época a maioria dos escaladores “apenas escalavam” como treinamento. Eles não percebiam a necessidade de exercícios suplementares…e alguns rejeitavam completamente a ideia. Claro que os melhores escaladores estavam treinando (como Wolfgang Gullich e Lynn Hill), contudo, o escalador médio resistia a ideia de treinar para escalar…e claro, ginásios de escalada praticamente não existiam em 1988.

Hoje, em 2020, existe um ginásio de escalada em quase toda grande cidade, e a maioria dos escaladores reconhece a necessidade de exercícios suplementares no treinamento. Existe uma sede imensa por informação, via livros, podcasts, clínicas, etc. Então é uma época ótima para ser um treinador…e um escalador.

Você criou e treinou dois jovens escaladores em casa. Tanto Cameron quanto Jonathan são ótimos escaladores. Parabéns! Como foi treinar seus próprios filhos e o que você acha que é a coisa mais importante em se tratando de treinar crianças e adolescentes?

Eric: Sim, eu sou abençoado por ter uma esposa e filhos que amam escalar. Nós temos muita sorte de escalarmos como uma família pelos EUA e pela Europa…e geralmente treinamos juntos no nosso pequeno ginásio em casa. Contudo, crianças não devem ser treinadas como se fossem simplesmente pequenos adultos! Eu acredito fortemente que crianças devem ser expostas a várias atividades físicas e, idealmente, eles devem praticar um ou dois outros esportes além da escalada durante a adolescência. O cérebro e o corpo de um jovem precisa ser exposto a diversos tipos de movimentos, estresses, e desafios mentais para se tornarem um adulto inteiramente capaz. Então meus dois filhos jogaram Futebol Americano durante toda a sua idade escolar (dos 8 aos 18). Portanto, eles não eram escaladores em tempo integral e ainda assim conseguiram escalar 10c (8b+ fr/5.14a us) quando tinham 11 anos. Então uma criança pode se tornar um ótimo escalador – e um atleta completo – com bom treinamento e o encorajamento de fazer mais do que apenas escalar.

A família Hörst depois de escalar a Devil’s Tower em 2014: Eric, Cameron, Jonathan e Lisa

Você tem um podcast, e recentemente você falou sobre Treinamento de Sistemas Energéticos. Na série você citou o estudo do Rômulo Bertuzzi, treinado e pesquisador brasileiro. O qual importante foi esse estudo? Ele mudou algo no modo como você aborda o treinamento para escalada?

Eric: Sim, Romulo foi o primeiro pesquisador a medir a contribuição dos sistemas energéticos na escalada. Esse importante estudo mostrou a importância de desenvolver todos os 3 caminhos energéticos do corpo. Minha contribuição como treinador e autor foi apresentar os protocolos que podem ser usados para treinar um sistema energético específico e como programar seu treinamento em todos os 3 sistemas ao longo do ano. Cada escalador é único e, idealmente, deve ser testado para determinar as deficiências/potencialidades relativa a cada sistema energético, possibilitando assim o treinador prescrever o programa de treino mais efetivo para aquele indivíduo.

Recentemente nós temos visto alguns casos de distúrbios alimentares e RED-S (Relative Energy Deficience Syndrome) em escaladores. O caso mais icônico é da escaladora Mina Leslie-Wujastyk e até mesmo tivemos um caso aqui no Brasil com uma das nossas escaladoras de elite. O que você pensa sobre isso? Você acha que isto pode vir a se tornar um problema maior para os escaladores e para a nossa comunidade?

Eric: Distúrbios alimentares são uma preocupação em esportes em que relação peso/potência é importante, como a escalada. Como um medida preventiva alguns treinadores acabam defendendo que “escaladores não devem monitorar ou restringir a alimentação” de forma alguma. Mas é um fato que escaladores avançados e de elite devem administrar calorias e nutrientes – você simplesmente não consegue comer o que quiser e escalar no seu melhor! Então o melhor é se aproximar do atleta, educar e se esforçar para acompanhar os hábitos alimentares deles. Ao se aproximar de uma competição um atleta deve otimizar sua relação peso-potência e um certo nível de restrição calórica pode ser necessária. Contudo, até que ponto deve ser determinado caso a caso. Com um bom acompanhamento nutricional, o atleta pode ainda conseguir nutrientes suficientes. O mais importante é consumir quantidades adequadas de proteína…algo entre 1.5 a 1.8 gramas por quilo de peso corporal por dia. Claro, distúrbios alimentares não tem espaço no nosso esporte – não é saudável, aumenta o risco de lesão e certamente não é sustentável.

Você já falou sobre isso no seu podcast e, como você comentou por lá, é um assunto controverso em relação ao treinamento para escalada e é a corrida! Como a corrida pode ser algo benéfico no treinamento para escalada e que tipo de treino de corrida um escalador pode fazer?

Eric: De novo, corrida como parte do programa de treinamento de um escalador deve ser algo personalizado. Muitos escaladores podem se beneficiar de uma quantidade moderada de corrida como uma forma de administrar a composição corporal. Mas a genética é um fator aqui e alguns escaladores acabam percebendo que ganharam massa nas pernas com a corrida, o que pode ser algo contra produtivo. Também, pesquisas (Schoffl) mostraram que um treino aeróbico generalizado (como a corrida) melhora a recuperação entre escaladas, especialmente entre escaladores de via. Muitos dos melhores escaladores de via fazem uma quantidade moderada de corrida. Contudo, correr em excesso (como em ritmos muito rápidos ou treinamento para maratona) vai ser provavelmente contra producente.

O treino de restrição de fluxo sanguíneo é uma modalidade útil para atletas lesionados.

Recentemente você também falou no seu podcast sobre Treino de Restrição de Fluxo Sanguíneo (BFR). Eu sinceramente nunca tinha ouvido falar sobre isso. Você pode falar um pouco pra gente o que é o BFR e como escaladores podem se beneficiar desse tipo de treinamento?

Eric: BFR é uma modalidade de treinamento bastante útil para atletas lesionados. Ao restringir o fluxo sanguíneo (retorno venoso, não o fluxo arterial) você pode fatigar um grupo muscular (como os flexores dos dedos) com uma carga muito reduzida. Então um escalador lesionado, digamos com lesão no dedo ou ombro, pode ainda fazer um BFR com pouca carga e ainda assim recrutar todas as fibras e ainda ficar bombado. Para um escalador saudável, capaz de fazer treinos específicios (boulder, hangboard, campus) o BFR é menos essencial. Ainda assim, pode ser usado brevemente no final do treino para acumular metabólitos nos músculos do antebraço – isso pode ajudar a sinalizar adaptações relacionadas a enzimas e talvez até mesmo angiogenesis (formação de capilares). Não existem pesquisas específicas sobre isso na escalada, então é bastante especulativo ainda.

Algum conselho final para os nossos leitores?

Eric: Escalada é antes de tudo um esporte de habilidade. Faça do seu objetivo se tornar um escalador proficiente. Ficar mais forte é importante, mas aprender a escalar mais eficiente a cada nova temporada é essencial! Focar no jogo mental e técnico é algo que você pode fazer e melhorar por muitos anos, então se dedique em se tornar um mestre do movimento e da mente! Quanto ao treino físico, você deve mantê-lo apropriado – um iniciante não deve tentar treinar como um expert! Se possível, tenha um treinador e desenvolva o programa perfeito para o escalador que você é no momento. Então, modifique o programa a cada temporada para se adequar ao escalador que você se tornou. Dê um passo de cada vez e tenha o longo prazo em mente. A escalada é um esporte para a vida!

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