Minha melhor cadena

Por Janine Falcão

Alguém: Nossa!! Você escala?
Eu: Sim, eu escalo!
Alguém: Esporte radical, heim menina? Precisa de muita força nos braços ter muita coragem, né? 
Eu: [Risos!]

No cume da Pedra do Cachorro em Nova Friburgo

Muitas vezes não nos damos conta de como acabamos repetindo padrões em nossas vidas. Convivemos às boas com os mesmos comportamentos dos nossos pais. Reproduzimos hábitos, pensamos as mesmas coisas do grupo de amigos no qual estamos inseridos, enfim, buscamos até mesmo o mesmo padrão de amor…e assim vamos aprendendo, às vezes nos recriando, colocando ou retirando pecinhas de “LEGO” num cenário quase sempre imaginado, uma vez que somos livres pra escolher nossos caminhos..

Parece loucura pensar nisso tudo com uma bebê de 23 dias no colo. Será que a maternidade encaixou-se em minha vida simplesmente como reprodução do sistema?

Prefiro pensar que não. Já que as minhas escolhas sempre foram criticadas – “Janine não quer maiores responsabilidades, ela só pensa em escalar!” – o fato é que sempre procurei pensar que estou em constante aprendizado. E dessa maneira, vou aceitando que algumas coisas surgem já com sentido “certo”, ou melhor, para me ajudar (ou não) a ser uma pessoa melhor. Definitivamente, escalar foi uma das melhores escolhas que já fiz, a outra escolha, sem dúvidas está sendo a maternidade!

Escalando a Italianos no Rio de Janeiro com quase 3 meses de gravidez

Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de escalar à vista, sem betas, me testando. Agora posso afirmar que estou dia após dia escalando nesse modelinho, à vista! Só que me vejo totalmente fora da minha zona de conforto. Mesmo que eu esteja prestando bastante atenção à minha movimentação e posicionamento (como de costume), acabo cansando, tentando, caindo. O frio na barriga é constante, também. O diferencial nisso tudo é que não existe mais a sensação tipo, ‘um dia é da pedra, o outro do escalador’, a constante agora é a presença da sensação de cadena a cada anoitecer! Viva! 

A gravidez…

Foi uma gravidez tranquila, com adrenalina dosada! Malhei e escalei durante 8 dos 9 meses de gestação. Me mantive ativa! Se fui alvo de críticas? É claro! [rs] Ouvi vários ‘telefones sem fio’, do tipo, “Janine é louca!”, “Tá escalando grávida, se expondo, fazendo m..”, “Querendo aparecer, querendo ser a f..!”. No entanto, a rede de apoio sempre foi maior!!

E assim, grávida, revisitei vários picos do nordeste e sudeste (RJ, SP, MG). Revi amigos, guiei muitas vias tradicionais e esportivas, me mantive respeitando uma ‘zona de conforto’ que eu mesma estabeleci para mim. Não me expus a riscos desnecessários, sempre procurei pensar que, se eu tava feliz, fazendo o que amo, o pedacinho de gente haveria de estar feliz também. Ou não tinha do que reclamar, visto que tava morando em mim, sem pagar aluguel!

Guiando em Algodão de Jandaíra com 7 meses de gravidez

A escalada ajudou tanto que os 9 meses passaram despercebidos. Amainou totalmente a metamorfose pessoal. Diminuiu até o desconforto dos betas não solicitados e clichês. Falar a verdade.. talvez a gravidez não tivesse sido tão tranquila/feliz se eu não tivesse escalado.

Essa foi a minha experiência! Ok?! Longe de mim querer traçar um perfil para grávidas e escaladoras! É que pra mim, foram muitos, os benefícios. Não passei por alterações de humor, não senti modificar meu centro de equilíbrio, ‘ganhei’ peso de maneira controlada e o melhor, não andei no estilo patinha (rs)!! E digo mais, faria tudo de novo! 

O mais engraçado nesse processo todo entre gerar, parir e maternar é que, quando nasce, você dá uma respirada diferente, dá um alívio! Eu pensei de imediato, “que bom, deu tudo certo”. Masssss, tem nada certo não, galerinha. O nascimento do serzinho é apenas a a primeira enfiada de um novo, longo e permanente “big wall”! 

O Big Wall Maria Clara! 🙂

E vamo que vamo para o primeiro Dia das Mães!! ️

Ahhh.. já ia esquecendo.. a escalada pode até ser um esporte radical mas, em definitivo, a maternidade é bem mais hardcore!! 🙂 

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