CBME irá se desfiliar do IFSC

E o boato que vinha aos poucos se espalhando pela comunidade escaladora brasileira se confirmou. A CBME (Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada) decidiu em sua assembleia anual que não vai mais pagar a anuidade do IFSC (International Federation of Sport Climbing), se desfiliando assim da entidade que regula as competições internacionais e impossibilitando os atletas brasileiros de participar de qualquer competição oficial da entidade, como Campeonato Mundial, Copas do Mundo, Campeonatos Juvenis, etc. Depois de um ano sem campeonato brasileiro de escalada, essa decisão da CBME vem meio como a “cereja do bolo” na eterna crise da escalada de competição nacional. Confira o presidente Silverio Nery falando da decisão no vídeo abaixo:

Já escrevi anteriormente sobre a não realização do campeonato brasileiro esse ano, e levantei algumas das possíveis causas do certame nacional der dado pra trás. Fui até meio político e tentei não culpar ninguém pelo ocorrido. Mas depois dessa decisão da CBME, pelo menos pra mim, fica clara a posição da entidade, que desde muito antes já se percebia: a CBME não tem o menor interesse na escalada de competição.

Sei muito bem que é difícil organizar competições, ainda mais quando não se tem muitos recursos, mas eu pergunto: o que a escalada tem de diferente de outros esportes? Praticamente todo esporte, até os menos expressivos, conseguem ter competições nacionais regularmente organizadas, com patrocinadores, premiação e atletas motivados. Nós temos Campeonato Brasileiro até de Futebol Americano, pra você ter uma ideia. O que faz então a escalada não conseguir tirar o pé da lama no caso das competições?

Pra mim a resposta parece clara. Os outros esportes tem entidades que tem como o vetor principal de difusão das suas modalidades justamente as competições. E isso acontece porque, na maioria dos caso, esses outros esportes não tem outras questões “maiores” para lidar, como no caso da escalada. Na escalada, além do aspecto competitivo, ainda existem aspectos gerais da atividade dentro do ambiente natural. Questões de acesso à áreas de escalada, questões de formação de montanhistas, de prática segura do esporte, de impacto ambiental, questões éticas, que com certeza devem ser vistas hoje na  CBME como mais importantes do que as competições. Não estou dizendo que não sejam, nem que não devam ser valorizadas. Mas o fato de receberem mais atenção acaba deixando a escalada de competição relegada a um segundo plano. O que faz com que os campeonatos acabem caindo na prática do “se der a gente faz”.

Cesar Grosso é um dos que não poderam competir internacionalmente
Cesar Grosso é um dos que não poderão competir internacionalmente, mesmo que queira.

Na fala do presidente até faz sentido. Se não fazemos nem sequer um campeonato brasileiro, para que pagar uma instituição internacional que promove campeonatos que os brasileiros nem sequer participam? Realmente a participação brasileira nas competições internacionais é bem pequena, com poucos atletas participando de competições esporádicas. Mas a decisão acabou deixando esses atletas sem opção nenhuma para participar das competições internacionais, mesmo que queiram. E isso de forma alguma é algo positivo.

Eu gostaria muito de acreditar que o dinheiro que vai ser economizado com o pagamento do IFSC vai ser revertido para um fundo de competições nacionais, para ajudar a bancar o campeonato brasileiro de 2014, mas não creio que vá ser isso que irá acontecer. Acho que enquanto a CBME ficar como orgão regulador das competições nacionais, não vejo o quadro mudar muito, justamente pelo que comentei acima: foco!

Talvez a solução seja aproveitar o momento e  iniciar a formação de uma nova entidade que vá regular e promover a escalada de competição. Foi assim com o próprio IFSC, que nasceu quando o UIAA, que era o responsável pelas competições até então, se mostrou sem condições de gerir as competições juntamente com as suas outras atribuições. Após a criação do IFSC a escalada de competição cresceu assombrosamente em nível mundial, chegando esse ano a disputar uma vaga nas Olimpíadas de 2020.

Outro local onde as competições são destaque e que tem um orgão especialmente voltado para a escalada de competição é os Estados Unidos, com o USA Climbing, que promove todas as grandes competições nacionais e regionais e permite a filiação direta dos atletas à organização.

Tentando ver o copo meio cheio, talvez a decisão da CBME não seja tão ruim assim. Talvez seja o que estávamos precisando para realmente mudar o rumo da escalada de competição nacional. E espero sinceramente que a CBME enxergue a possibilidade de se desapegar das competições (se é que a ideia já não é essa) e abra espaço para que uma nova entidade surja, dessa vez com as competições como foco, e ai quem sabe, teremos um cenário de escalada esportiva de competição mais atuante e forte.

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